Estado da Nação: negligência ou dissimulação?

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Nota editorial: Este artigo combina resumo informativo, verificação factual e opinião.

No passado dia 25 de fevereiro, o Presidente dos EUA, Donald J. Trump, dirigiu-se à nação, através da “State of the union address”. Este discurso, realizado anualmente, tem como propósito ser um meio de atualizar a população e o congresso sobre o Estado da Nação.

O discurso, transcrito pela Associated Press, é a caracterização do Estado da nação segundo a visão do seu atual Presidente. À boa maneira trumpiana”, o discurso começa com uma hipérbole: “my fellow Americans, our nation is back: Bigger, better, richer and stronger than ever before” – o presidente afirma que herdou uma nação em crise. Caracteriza tanto a política económica, como a migratória do anterior executivo, de forma negativa.

Expressa um sentimento de recusa a um retrocesso aos tempos do anterior executivo. Uma vez que no executivo de Joe Biden a economia estava estagnada, a inflação estava em níveis recorde. De acordo com Trump, os democratas estão a destruir o país, uma vez que libertaram mais de 11.000 homicidas das prisões. O programa Obamacare nada mais era do que um programa desenhado para favorecer as seguradoras e farmacêuticas. A política migratória, caracterizada pelo presidente como sendo de portas abertas, aliada a um recrutamento terrível para as forças policiais, levou a um aumento significativo do crime. Também é mencionado o terrível estado do mundo, com uma instalação generalizada de guerras e caos. Trump, ao longo do discurso, descreve as mudanças que ocorreram, durante o seu regime.

No que diz respeito a política migratória afirmou que a única coisa entre os americanos e uma fronteira aberta é ele próprio, e que nem um único “illegal alien” entrou no país nos últimos nove meses. Devido a isso, a passagem de fentanyl pela fronteira desceu mais de metade no último ano, o maior decréscimo na História. Simultaneamente, os democratas estão a afetar o seu trabalho nesta área, limitando o financiamento do “Department of Homeland Security”. Esta ação deu origem a uma paragem do congresso, que custou 2% do PIB. Para corrigir a calamidade, oriunda da proliferação de crime, causada pela anterior administração o Presidente viu-se forçado a enviar a Guarda Nacional para diversas cidades, as mais perigosas. Esta ação ajudou a diminuir a criminalidade, inclusive na capital.

               Quanto à economia, esta encontra-se a “rugir novamente”. A inflação em 12 meses desceu para o valor mais baixo em 5 anos, o custo de ovos desceu 60%, bem como o custo de frango, manteiga e carros, o preço de medicamentos também desceu significativamente e a administração fez face às seguradoras. O valor das rendas também desceu, bem como o valor do crédito à habitação desceu 5 mil dólares face ao ano passado, além disto firmas de investimento estão proibidas de comprar casas. Houve uma enorme redução de impostos e 2.4 milhões de pessoas deixaram de necessitar de ajuda alimentar, também foram dadas garantias de que o aumento da necessidade de energia devido à IA não se vai refletir nos preços. Foram criadas as “Trump accounts”, contas de investimento isentas de impostos disponíveis para qualquer criança americana, outras contas de investimento como as 401k subiram 30 mil dólares desde que Trump assumiu funções. As tarifas, pagas pelas outras nações, provaram-se um enorme sucesso ao providenciar receita na ordem das centenas de milhares de milhões, de maneira que no futuro podem vir a substituir os impostos sobre o rendimento (IRS em Portugal). No último ano 18 biliões de dólares de investimento foram assegurados pela administração atual e a produção de petróleo aumentou.

               A política externa americana também foi destacada, uma vez que a América é temida e respeitada novamente. A administração acabou com 8 guerras. O potencial iraniano para construir um arsenal nuclear foi dizimado na operação “Midnight hammer”, o que levou o regime iraniano a querer negociar. Na Venezuela uma intervenção militar levou à captura do presidente ditador Nicolas Maduro, o que irá trazer enormes vantagens económicas para ambos os países.

Será que tudo aconteceu como descrito pelo Presidente? E será que Trump herdou de facto uma nação em mau estado? A resposta, em grande parte, é não, como é possível evidenciar ao visitar o website factcheck.org. Trump afirmou ter herdado uma economia estagnada com inflação em níveis recorde. Na realidade, o crescimento anual do PIB real foi de 2,5% ou mais em cada ano da presidência Biden, e a inflação já havia descido para 3% quando Trump tomou posse longe do pico de 9,1%, que tinha atingido na administração Biden. Quanto ao crime, Trump alegou ter herdado uma nação com criminalidade desenfreada quando, na verdade, a descida dos índices de criminalidade e homicídios já estava em curso desde 2022. A afirmação de que foram libertados mais de 11.888 homicidas pelo governo anterior é igualmente infundada.

No que diz respeito às conquistas do seu mandato, o discurso não é mais rigoroso. A economia não está a “rugir como nunca antes”: o crescimento do PIB real em 2025 desceu para 2,2% e a taxa de desemprego aumentou ligeiramente. Os preços não estão a “cair a pique” – a inflação abrandou, mas os preços continuam a subir. A afirmação de que a passagem de fentanyl pela fronteira desceu 56% não tem sustentação factual verificável, assim como o alegado fim de “oito guerras”. Os 18 biliões de dólares em investimento assegurado são compromissos anunciados, não capital efectivamente investido. A produção de petróleo aumentou, mas apenas 334.600 barris por dia, metade dos 600.000 que Trump proclamou. Quanto ao alegado desmantelamento do programa nuclear iraniano, especialistas concluem que foi danificado, não destruído. Contudo, o próprio Irão reafirmou múltiplas vezes não ter, nem pretender, ter armamento nuclear. Por fim, as tarifas como substituto do IRS são uma ideia rejeitada pela generalidade dos economistas, definidas como matematicamente inviáveis.

A meu ver, o Presidente mostra-se, claramente, incompetente na sua capacidade de transmitir o real estado da nação. Em vez do estado da nação, aquilo que sobra deste discurso é uma série de afirmações incorretas. Juntamente com afirmações controversas constitucionalmente, como “should be my third term” e “illegal aliens”, proferidas mais de 10 vezes ao longo do discurso.

Este foi um discurso altamente polarizante, que só deu motivos de consenso ao congresso numa só ocasião, quando Trump criticou o facto de os congressistas usarem informações internas para se adiantarem ao mercado acionista. Contudo, até aqui, foi deselegante na sua forma de falar. O discurso termina da mesma forma que começou, com uma hipérbole “The strongest, wealthiest, most powerful, most successful nation in all of history (…) the golden age of America is upon us. (…) our future will be bigger, better, brighter, bolder, and more glorious than ever before. Thank you. God bless you and God bless America”.

               A questão que fica é: Estamos perante uma negligência no apuramento de factos, ou perante dissimulação?

Fontes: ABC News ; PBS News ; Fact Check.org

Fonte da imagem de capa: New York Times

Escrito por: Bruno Venâncio

Editado por: Cristina Barradas

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