Aos 36 anos, Pansau Tamba, natural da Guiné-Bissau, construiu um percurso académico marcado por deslocações entre continentes, investigação linguística e uma forte ligação às suas raízes culturais. Atualmente, trabalha como intérprete na Nigéria, enquanto conclui o doutoramento em estudos linguísticos no Brasil.
Entre memórias de infância, reflexões sobre identidade e desafios académicos, Tamba procura compreender e valorizar as línguas africanas, não apenas como sistemas de comunicação, mas também como expressões profundas de cultura, história e pensamento.
Ao longo desta entrevista, conta-nos sobre o seu percurso e fala da importância, da escrita e da necessidade de dar voz às histórias africanas.
“Conta-nos um pouco do teu percurso de vida; desde a Guiné-Bissau até ao doutoramento que estás a fazer atualmente“
Pansau Tamba: “Cresci numa realidade muito particular. Na casa grande dos meus avós havia sempre muita gente. Era uma espécie de bagunça organizada. O meu avô era diácono da igreja e, muitas vezes, pedia-me para escrever cartas ou fazer anúncios.”
Desde cedo, a escrita começou a ocupar um lugar central na sua vida. Na família, era conhecido por ter facilidade em escrever em português e, para além disso, um primo que gostava de desenhar pedia-lhe frequentemente para inventar diálogos para as personagens que criava. Segundo Tamba, essas pequenas experiências marcaram o início do seu interesse pela linguagem e pela escrita.
A descoberta das línguas e as primeiras oportunidades
Após terminar o ensino secundário, iniciou os estudos universitários e aprofundou o seu interesse por línguas estrangeiras. Já dominava inglês e francês quando começou a trabalhar como facilitador linguístico numa missão internacional de manutenção da paz na Guiné-Bissau.
Nessa função, desempenhava duas tarefas: interpretava conversas entre militares estrangeiros e a população local e ensinava crioulo básico aos membros da missão. Essa experiência acabaria por abrir novas oportunidades académicas.
Mais tarde, recebeu uma bolsa de estudo que lhe permitiu estudar no Senegal, onde concluiu uma licenciatura. Apesar de o curso ser na área de Recursos Humanos, continuou a trabalhar e a ensinar línguas após regressar à Guiné-Bissau.
O verdadeiro ponto de viragem no seu percurso académico surgiu quando conseguiu uma bolsa para estudar na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro‑Brasileira, no Brasil. A universidade foi criada com o objetivo de reforçar a cooperação académica entre o Brasil e países africanos de língua portuguesa. Assim, foi nesse contexto que Tamba começou a aprofundar a investigação sobre culturas e línguas africanas.
A importância de estudar as próprias línguas
“O que te levou a escolher estudar línguas africanas como foco da tua investigação?”
Pansau Tamba: “Comecei a perceber que muitas vezes as nossas línguas são estudadas principalmente por investigadores estrangeiros. Mas também é importante que nós próprios investiguemos e escrevamos sobre a nossa realidade.”
Para explicar essa ideia, Tamba recorre a uma reflexão do escritor nigeriano Chinua Achebe:
“Até que os leões contem as suas próprias histórias, a história da caça continuará sempre a glorificar o caçador.”
Para o investigador, esta frase resume um problema histórico: durante muito tempo, as narrativas sobre África foram produzidas principalmente a partir de olhares externos. A investigação académica feita por africanos pode contribuir para equilibrar essa perspetiva.
Atualmente, o seu Doutoramento centra-se no estudo da filosofia balanta de nomeação, isto é, na forma como nomes e palavras refletem relações sociais, familiares e culturais dentro desta comunidade da Guiné-Bissau.
Segundo Tamba, muitas dessas categorias não encontram equivalentes diretos em línguas europeias. Compreender essas diferenças permite perceber que cada língua expressa uma forma particular de ver o mundo.
Para além da sua investigação principal, o académico já publicou vários artigos científicos e apresentou trabalhos em conferências internacionais, incluindo um estudo sobre o simbolismo negativo frequentemente associado à cor preta em diferentes culturas. Esse trabalho foi até mesmo apresentado num encontro da African Studies Association, nos Estados Unidos.

Os desafios de um percurso internacional
O percurso académico de Pansau Tamba levou-o a estudar e trabalhar em diferentes países, incluindo Senegal, Brasil, Camarões e Nigéria. Essa mobilidade trouxe experiências enriquecedoras, mas também desafios.
“Quais foram as maiores dificuldades que enfrentaste ao longo do teu percurso académico?”
Pansau Tamba: “Uma das maiores dificuldades é o medo. Quando vens de um país pobre como a Guiné-Bissau e chegas a espaços académicos internacionais, às vezes perguntas-te se realmente mereces estar ali.”
Segundo ele, muitos colegas vinham de contextos privilegiados ou de famílias ligadas à diplomacia internacional e isso fez com que sentisse a necessidade de trabalhar ainda mais para alcançar o mesmo nível académico. Pansau acrescenta ainda que “Se alguns colegas dormiam quatro horas, eu sentia que precisava dormir duas ou três. Tinha sempre a sensação de que precisava provar mais.”
Memória, identidade e escrita
Nos últimos anos, Tamba começou também a escrever crónicas inspiradas em memórias da infância e em experiências culturais da Guiné-Bissau. Muitos desses textos recorrem a expressões em crioulo ou a conceitos culturais difíceis de traduzir.
Um exemplo é a expressão “Casa Grande”, que aparece numa das suas crónicas. Para um leitor guineense, a expressão vai muito além de “a casa dos avós”. Representa um espaço simbólico de encontro familiar, memória coletiva e transmissão cultural. Segundo Tamba, esse tipo de memória merece ser documentado: “Algumas dessas experiências desapareceram com o tempo. Escrever é uma forma de preservar aquilo que vivemos.”
Uma mensagem para os jovens
No final da entrevista, perguntei-lhe que conselho gostaria de deixar aos jovens, em especial para aqueles que desejam seguir um percurso académico. A resposta foi bastante simples e direta.
“É preciso ler muito. A escrita não é tão difícil quanto a leitura. Para escrever bem é preciso ler bastante.” Acrescenta que para estudantes de países com sistemas educativos mais frágeis, o esforço precisa ser ainda maior. No entanto, acredita que esse esforço pode abrir portas e permitir que novas histórias sejam contadas.
Apesar do seu percurso académico internacional, Pansau Tamba pretende continuar a escrever para além do espaço académico. Nos últimos tempos, a sua dedicação à escrita de crónicas ajuda-o a refletir sobre a sua infância, as suas raízes e as experiências que marcaram a sua trajetória.
Através desses textos, espera preservar memórias e partilhar histórias que fazem parte da realidade de muitas comunidades africanas. Entre a investigação e a escrita, Tamba pretende continuar a dar voz às experiências, culturas e línguas que marcaram o seu percurso.
Fonte da imagem de capa: Pansau Tamba
Escrito por: Margarida Simões
Editado por: Maria Francisca Salgueiro


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