“How we look at other people very often tell us about ourselves”, (Humanity, Ai Weiwei). A perspetiva que criamos da realidade acaba por se fundar dos sentimentos que temos e não compreendemos, mas que vemos nas interações dos outros em sociedade. Por isso, a formas como olhamos para os outros muitas vezes vai refletir o que somos, ou as escolhas que tomamos. Nós influenciamos a estrutura e somos influenciados a por ela.
Esta influência mútua relembra-me que os políticos não são seres mágicos especiais e diferentes dos comuns. São seres que participaram nos eventos sociais que participamos, frequentaram as escolas que frequentamos, quiçá o mesmo curso que já frequentamos, e por isso estão passíveis de sentir as mesmas coisas que sentimos e de também não saber lidar com as efemeridades da vida.
Com certeza tudo remonta à educação. Não creio que a natureza do homem seja ser bom ou mau, como defendem os clássicos, acredito que ela não é pré-definida ou definida sequer, é um processo contínuo e dinâmico de construção ativa. E é exatamente por esta possibilidade de interações, de construções e desconstruções, roturas e costuras, que nos devemos importar com o indivíduo, com os padrões do seu comportamento, com as normas que o balizam, com sua educação, e com o enquadramento na superestrutura, não só por participarem na convivência social, mas porque também participam nas autarquias, parlamentos, congressos e na representação do Estado lá fora.
Participações essas que refletem comportamentos básicos da sociabilidade, como referido por António Gramsci nos Cadernos de Cárcere, caderno 12, “O “certo” se torna “verdadeiro” na consciência da criança. Mas a consciência da criança não é algo “individual” (e muito menos individualizado): é o reflexo da fração de sociedade civil da qual a criança participa, das relações sociais tais como se aninham na família, na vizinhança, na aldeia, etc.”.
Um exemplo prático: Internacionalmente, quando um Estado materialmente mais poderoso coage outro na direção dos seus interesses, manipulando o curso do seu comportamento, como na Crise dos Mísseis de Cuba (1962), se os mísseis russos em apoio a Cuba não fossem retirados, os navios americanos posicionados atacariam militarmente. Ao nível quotidiano temos o bullying escolar, em troca de inclusão, havendo, portanto, uma determinação do comportamento; em família, a coação do filho a seguir um curso que o leve a ser alguém, se não, não há investimento na formação académica, ou, com os mais idosos que caiem nas doenças e ficam à mercê dos cuidados e decisões familiares; e no trabalho, pressão para cumprimento de horários excessivos, estando em cheque a sua posição laboral. As três dimensões e interações mais impactantes do dia a dia.
Outro exemplo seria a Experiência da Prisão de Stanford de 1971, projetada para durar duas semanas, nas quais um grupo de estudantes seria dividido em dois, prisioneiros e guardas prisionais, e colocados no estabelecimento prisional. Resultado, em apenas seis dias muitos dos participantes designados como guardas começaram a humilhar, intimidar e punir os prisioneiros, mesmo sabendo que era uma experiência, que não haviam estatutos e que eram todos estudantes. O comportamento humano é altamente influenciado por papéis sociais, autoridade e pressão do grupo. Nesta experiência, papéis e regras criaram uma hierarquia que levou guardas e prisioneiros a agir de forma extrema. Na educação, hierarquias, regras e dinâmicas de poder também moldam comportamento, que idealmente devia ser executado forma ética e construtiva.
É exatamente por isto que necessitamos de conscientizarmo-nos sobre as nossas ações, sobre a educação reproduzida, e os seus efeitos posteriores na sociedade, focarmo-nos na responsabilidade dos indivíduos pertencentes ao Estado. Como é que vamos estudar a política externa, sem contabilizar o indivíduo? “O homem é um animal político” (Política, Aristóteles) e Deus deu o poder político aos homens para se governarem (ideia de S. Tomás de Aquino). O poder é constituído de pessoas para pessoas, o Estado é exatamente a expressão do poder político de pessoas para pessoas, num território delimitado por fronteiras.
Então, se o Estados são as relações de pessoas para pessoas, e as relações internacionais são o conjunto de interações entre Estados e atores não estatais (também encabeçados de pessoas, e baseadas na força de trabalho das pessoas), como é que a caixa (ambiente doméstico dos Estados) ainda não é transparente? A caixa devia ser transparente, não como uma estratégia aberta, mas para que o cidadão possa ter consciência sobre as suas ações e consequentemente sobre o seu poder na vida nacional e internacional, e, para o decisor político jogar com os verdadeiros interesses da nação, lembrando-se que é dela feito.
“Power has to be represented by generosity and confidence” (Humanity, Ai WeiWei). Mas como? E remonta tudo outra vez à questão do poder, da educação e da internalização de dinâmicas de poder coercivas. Esperar que os políticos se comportem diferentemente dos civis, é irrealista, e revelador da descrença de que as nossas atitudes impactam. Esperar que as relações internacionais não satisfaçam os interesses malignos e disruptivos que dizem pertencer-se à nação, é negar toda a escadinha até ao nível individual. É importante desconstruir a ideia de que os Estados são coisas distanciadas de nós, e de que nós não temos poder nenhum sozinhos.
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Fonte da imagem de capa: Gerada por IA
Escrito por: Margarida Cabral
Editado por: Margarida Simões


Deixe um comentário