Pelo menos é o meu caso. Penso que seja. Expresso-me muito melhor a escrever do que a falar ou a comunicar por qualquer outra via. As ideias são claras, não há gaguez e lembro-me melhor do que quero dizer. Será que sou o meu Eu mais verdadeiro na escrita? Ou será essa uma fachada para o que gostava de ser?
Expresso-me melhor a escrever?
Porque é que haveria de interessar? Se me sinto melhor a escrever, tenho toda a propriedade para afirmar que me expresso melhor a escrever, dir-me-ás. Talvez seja também o teu caso. Mas e se estiver mais alguma coisa em causa? Estaremos a esquivar-nos aos contornos da nossa identidade?
A Janela de Johari e a identidade.
Deixa-me que te apresente um modelo. Nós da academia não vivemos sem um modelo para ver o que quer que seja. É a Janela de Johari. Diz-nos que a identidade de alguém é formada por quatro quadrantes: (1) a Área livre. O que é conhecido por mim e pelos outros. (2) o Ponto cego. Apenas os outros conhecem esta parte da nossa identidade. (3) O Eu Oculto diz respeito ao que apenas eu sei sobre mim. (4) o Eu Desconhecido. Nem eu nem os outros conhecemos esta parte da identidade. Apenas se revela em determinados momentos aos outros três quadrantes.

Apesar de este modelo ser tipicamente utilizado na comunicação estratégica para promover relações interpessoais mais frutíferas, é útil para outros fins. Sejas alguém a querer saber mais sobre ti, conhecer alguém meio misterioso ou caso, simplesmente, pertenças aos serviços de informação e inteligência de um qualquer país, encontrarás alguma utilidade para o teu caso.
Por este modelo, de facto, a minha tese inicial poderia ser redutora. Ou pelo menos eu não poderia responder apenas pela minha experiência. Afinal, quem sou senão uma peça da minha identidade para estar definir ou dissecar como e onde a devem analisar?
Nunca saberei ao certo, mas como em tudo, temos de defender a nossa quota parte nas empreitadas em que nos metemos e isto da identidade é coisa séria.
Faço o exercício de utilizar isto como base para uma reflexão a que te convido. Talvez apenas não queira comunicar todas aquelas partes que entendo em que, de forma concreta ou latente, tenho mais dificuldades de expressão.
Escrita, controlo e auto-expressão.
Quem sabe? Posso querer controlar e curar a informação que passo e o modo como a passo. Nesse aspeto, tenho flexibilidade suficiente na minha escrita para o poder fazer. Afinal, a escrita é ideal para quem prima por rever o que está a dizer, para quem quer expressar as suas ideias sem estar demasiado preocupado com influências externas ou resposta imediata ou para preservar a coerência.
O modelo desenvolvido por Joseph Luft e Harrington Ingham, em 1955, diz-nos outra coisa sobre o quarto quadrante – o Eu Desconhecido. Esta zona pode ser incrementada por experiências traumáticas. Podem fazer com que partes da nossa vivência se tornem difíceis de simbolizar, narrar, lembrar ou integrar no nosso auto-entendimento consciente.
Tal pode levar a desconhecimento sobre porque reagir de uma determinada forma a uma situação, ao evitar de situações, ao sentimento de vergonha, pânico ou até desconfiança.
Quis saber quem sou…
O que é certo, é que passei por essas experiências. Durante 4 anos da minha infância / adolescência inicial vivi no que era, na prática, uma ditadura. Isso moldou imenso a minha personalidade e maneira de me relacionar com os outros.
Não só. Mudou a forma como me vejo a mim próprio. Nunca é demais reforçar que numa ditadura não se pode dizer o que se quer, a menos que se verifique um destes fatores: (1) Ter dinheiro; (2) ter status; (3) ser o próprio ditador; (4) ser um idiota útil para os anteriores.
Não pertencia a nenhum destes grupos. Logo, era frequentemente relembrado da minha falta de valência nas mais diferentes áreas. Desde ser tido como alguém com capacidades cognitivas bastante reduzidas a não ser sequer digno de ter palavra ou de me dirigir a pessoas. Desde não ter jeito para artes, até às matemáticas ou exercício físico.
O que é a liberdade?
Falar sobre liberdade tornou-se uma banalidade. Tenho muitas reservas sobre o que a liberdade se tornou nos discursos romantizados que por aí circulam. Tornou-se uma desculpa para nos escusarmos de cumprir as nossas responsabilidades. Um hino pós-modernista para o ócio e carpe diem. Mas é bem mais que isso. Aliás, nem o é de todo.
Liberdade é a agência para tomar decisões, cumpri-las, assumir as responsabilidades pelo seu cumprimento e ser julgado de forma justa e moral por elas. Pelo menos é o meu entendimento de liberdade. O outro, também vigorava na altura a que me refiro, teoricamente.
A sua repressão acontece quando estes fatores não se verificam na sua totalidade e quando não podemos abandonar o barco – estamos presos. Durante muito tempo, essa repressão aconteceu não só por relações de poder, mas por violência física e psicológica. Recorde-se o período a que se referem estes factos para compreender que a não influência deste período nem se coloca.
Pode-se levar a pensar, deste modo, que aquela figura a preto e branco que apresentei talvez tenha uma explicação para o enunciar da minha tese. Esse simples facto – da enunciação – pode ser uma consequência dessa experiência – traumática e continuada – que me faz procurar abrigo.
A escrita foi o meu porto seguro durante esses anos. Era algo que fazia como se estivesse a respirar. Pouco pensava sobre isso. Simplesmente, escrevia. Sem qualquer pretensão. Sem proclamar qualquer interesse excessivo pelo mundo literário (aliás, durante muitos anos, fui levado a acreditar que abominava a leitura, apesar deste meu gosto).
Mas como nestas situações se retira todo o chão a alguém, a escrita não me foi isenta de ataques. Aí, não foram só os artigos no jornal da escola sobre os quais recebia pressão. Foi há mais de 10 anos que escrevi a minha primeira e última carta de amor. Pelo menos, até à data que escrevo este artigo.
Numa ditadura, a única coisa pior que ter ideias é expressarmos que, no meio do ambiente de terror, podemos sentir-nos realmente bem, sem estarmos consumidos pela depressão e melancolia interior que é suposto não sanar. Pessoas verdadeiramente alinhadas com estes modelos não suportam isso.
Ainda assim, continuei a escrever. Sentia-me bem por isso. Eventualmente saí do ambiente em que estava e a escrita veio comigo.
Não falo com muitas pessoas, nem estou interessado em fazê-lo. Irónico para alguém que dirige um jornal, mas esse trabalho, consigo fazê-lo bem ainda assim. Especialmente, porque muitas das minhas boias de salvação estão aqui hoje em dia.
As pessoas com que falo e interajo de alguma forma, então, têm de valer a pena. E se valem!
Será a escrita a forma mais sincera de expressão?
Tendencialmente, a escrita era a forma que tinha de falar sem ter de ser ouvido por quem não queria que me ouvisse. Era a forma que tinha de dizer a alguém aquilo que nunca poderia saber. Hoje é a forma que tenho de dizer a alguém o que ainda não lhe consigo fazer saber.
Faz isso da escrita a minha forma mais sincera de vida e expressão? Ou é apenas o meu próprio abrigo pós-modernista para a construção de uma putativa identidade única e envolta em pessoalidade? Estou refém da minha própria crítica? Ou serei eu o meu único crítico?
Não tenho resposta a estas perguntas. De acordo com a Janela de Johari, deve haver quem saiba mais um bocado. Outras coisas podem nunca ser sabidas.
Tudo comunica. Talvez o entendimento que tenha das minhas valências comunicativas seja bem diferenciado para os recetores desta vida que são as pessoas.
E agora termino este artigo como faço numa entrada do diário a que vou de quando em vez: Por agora, calo-me.
Calo-me, pois o som das palavras é demasiado alto e acutilante para ecoar por estas coisas de forma tão pirosa. Porque para saber as respostas, talvez tenha de sair da sombra em que estou prostrado a escrever este artigo.
Quando comecei a escrever, o título era igual, exceto em um detalhe. O ponto de interrogação estava ausente.
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Fonte da Imagem de Capa: Gerado no Gemini por Inteligência Artificial.
Escrito por: José Pereira
Editado por: Leonor Oliveira


Deixe um comentário