Banho Radical (Sem Capacete)

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Nesta edição do “Cronicamente Dramática”, Rita Cardona descobre que a morte não avisa, não faz barulho e muito menos aparece de capa preta. Às vezes vem disfarçada de vapor quente, instalação elétrica duvidosa e uma casa de banho mal planeada. Uma crónica sobre o perigo escondido nas rotinas mais banais, a falsa sensação de segurança… e o facto de, afinal, tomar banho poder ser considerado um desporto radical.


Há pessoas que arriscam a vida a atirar-se de um avião de paraquedas.
Outras fazem mergulhos profundos, nadam com tubarões, escalam montanhas sem corda.
E eu? Eu tomo banho.

— “Oh Rita, não me digas que és daquelas pessoas que foge do chuveiro a sete pés…”
Meus caros, não é a minha higiene que está em causa. O problema aqui é a obra de arte que foi feita na minha casa de banho.

Há já alguns dias que, sempre que eu tomava banho, o quadro da luz disparava.
Sempre.
Sem falhar.
Como se fosse um jogo: eu entrava no duche, a luz dizia “hoje não” e ia abaixo.

Ora, a minha casa de banho é um cubículo minúsculo, digno de um T0 na Baixa de Lisboa, onde alguém achou boa ideia colocar uma ventoinha… exatamente por cima do poliban (box, para os menos betos).

Veio cá a casa o senhor eletricista.
Uma vez.
Duas vezes.
Três vezes.
Na terceira, já me olhava com aquele ar de quem pensa: “Mas o que é que esta mulher faz aqui dentro?”

Até que, finalmente, descobriu o mistério: o vapor do duche entrava pela ventoinha adentro. E diz-me ele, com a maior tranquilidade do mundo:
— “Sabe… alguém podia ter morrido aqui a tomar banho.”
E ali percebi, no meio da tragédia doméstica que sou uma radical do caraças.

Design com intenções” | Fonte: Rita Cardona

Explicou-me então que, como a ventoinha estava mesmo por cima do chuveiro, a eletricidade podia perfeitamente ter percorrido a água e… fim da linha.
Morte instantânea com espuma incluída.

Ainda descobrimos outra pérola: não se pode ter nada inflamável à frente do quadro elétrico.
O que nos levou a ponderar, com toda a seriedade do mundo, se não seria mais sensato comprar uma casa nova.
Porque, convenhamos, isto já não é uma casa, é um episódio do “Cronicamente Dramática”.

Conclusão: vou fazer umas benzas, tomar banho de água do mar (noutra casa de banho, obviamente) e evitar, por tempo indeterminado, o contacto direto com o meu próprio chuveiro.

Se me virem na rua de cabelo em pé, já sabem: ou tomei banho…
ou é só o stress de ser estudante universitária com tendências para morte acidental.

Quando eu pensava que era a pessoa menos radical que conheço, descubro que afinal estou enganada.
Há quem salte de aviões.
Eu sobrevivo a duches.

Nem sempre somos quem achamos que somos.
Às vezes somos só alguém a brincar com a vida…
…de chinelos e toalha na cabeça.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Fonte da imagem da capa: Freepik

Escrito por: Rita Cardona

Editado por: Rodrigo Caeiro

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