Desde o período colonial, a sociedade brasileira foi constituída e desenvolvida a partir de uma lógica patriarcal, na qual o homem, especialmente branco e rico, exercia autoridade perante qualquer comunidade ou agrupamento social. Essa herança colonialista perdura até a atualidade, sendo a raíz de um problema estrutural que se ramifica em diversas manifestações e resulta na perpetuação de desigualdades. Desta forma, faz-se necessário evidenciar a misoginia como uma engrenagem silenciosa que perpetua um ciclo genocida, cala vozes e sustenta, até hoje, uma narrativa desumana que sobrepõe o papel do homem ao da mulher e carrega toda violência e exclusão sob o disfarce de tradição.
Em 2025, dez anos após o início da monitorização de feminicídio no Brasil, 1.470 casos foram registrados, representando o maior número nesta década. Centenas de campanhas contra o ato se instauraram em território brasileiro e a repercussão deu voz a inúmeras mulheres vítimas de crimes misóginos. Além de evidenciar que o termo “feminicídio” não é um contraponto à neutralidade do termo homicídio, mas, sim, o extremo de um padrão sistemático de violência e ódio ao feminino baseado em uma estrutura patriarcal das sociedades ocidentais.
Essa definição só foi abordada a partir da década de 90, por Jane Caputti e Diana Russel com o objetivo de encerrar a cadeia de terror contra as mulheres que inclui uma infinidade de abusos físicos e psicológicos, como estupro, agressão física e sexual, tortura, escravidão sexual, operações ginecológicas desnecessárias, mutilação genital, heterossexualidade forçada, esterilização ou maternidade forçada, incesto, abuso sexual infantil, irresponsabilidade médica em cirurgias cosméticas ou em quaisquer procedimentos estéticos e violência obstetra. O termo passou por diversas redefinições até ser estabelecido por Marcela Lagarde, a partir da expressão “femicide” para enquadrar qualquer crime de gênero causado por impunidade ou conveniência.
No que diz respeito ao Brasil, o feminicídio é classificado como “o assassinato de mulheres por serem mulheres, envolvendo violência doméstica e familiar, menosprezo ou discriminação à condição de mulher da vítima” através da Lei do Feminicídio (Lei 13.104/15) de 09 de março de 2015. Apesar de alguns questionarem a existência da lei e alegarem ineficácia da Lei Maria da Penha, alegando ferir o princípio de igualdade e tratando de forma distinta a violência contra homens e mulheres, o argumento não procede, pois a qualificadora se diferencia pela motivação do comportamento. Portanto, nem toda violência contra mulheres é enquadrada como violência de gênero, assim como há diferença entre homicídio de mulher e feminicídio.
Deste modo, cabe ressaltar a constante crescente no número de casos no Brasil como um fator extremamente preocupante. Em 2020, destacou-se uma taxa de 4,3 feminicídios a cada 100.000 mulheres, sendo a maioria delas negras. Embora o índice de mortalidade feminina no país não indique uniformidade entre as regiões, a partir de 2018 até a atualidade, observa-se uma intensificação no número de vítimas em todo território brasileiro. Assim sendo, como já mencionado, o passado colonial explica a existência de uma hierarquia de gênero, mas a questão que fica é: porquê o aumento progressivo desta manifestação brutal na última década?
Conservadorismo radical entre os jovens brasileiros
Segundo Mudde (2019), a partir de 2016, com as eleições nos Estados Unidos, a ascensão da ultradireita refletiu politicamente tanto no Norte quanto no Sul Global, representando a pontífice de um processo de normalização dessa radicalização ideológica. A “Quarta Onda”, definida pelo autor, é marcada principalmente por comunidades e fóruns online, estes que atuaram diretamente em campanhas eleitorais em prol de líderes da extrema direita como Donald Trump e Jair Bolsonaro.
Esse fenômeno é fomentado inicialmente por conteúdos, até então, inofensivos em plataformas como o Instagram e o Tiktok, abordando temas relacionados a um padrão de vida, muitas vezes, ilusório e desigual. A estratégia midiática se baseia na contemplação de uma rotina incabível para a maioria da população brasileira, estimulando a pressão estética entre os jovens por meio da valorização exacerbada do corpo masculino. Dessa forma, a busca por um físico perfeito passa a ser colocada como prioridade e parâmetro de sucesso, muitas vezes acima de outras dimensões da existência e das próprias relações humanas. Além da vinculação religiosa enviesada por meio da representação das mulheres em lugares de subserviência, demonização da vida noturna, das bebidas alcoólicas e de alimentos calóricos.
Apesar da tendência nas redes sociais incentivar o combate à obesidade, a luta contra o sedentarismo e a valorização da saúde física e mental, a linguagem utilizada e a forma como a informação é disseminada traz o efeito contrário, causando sentimento de autocobrança e aumentando os casos de ansiedade e depressão entre os internautas. Por conseguinte, deve-se analisar essas manifestações digitais como um fator potenciador de uma onda ultraconservadora muito maior.
A Manosfera, também chamada de Machosfera, reflete exatamente essa problemática, por meio de conjuntos de comunidades online, blogs, fóruns e canais de transmissão onde homens discutem assuntos relacionados à masculinidade, frustrações pessoais e muitas vezes perspectivas antifeministas e misóginas. Essa rede apresenta subcategorias como a cultura Incel (involuntary celibates), formada por homens que não conseguem manter relações afetivas ou sexuais e expressam ressentimento contra mulheres, o MGTOW (Men Going Their Own Way), constituída por usuários que defendem evitar relações com mulheres e prezam pela independência masculina, PUA (Pick-Up Artists) comunidades que compartilham técnicas de sedução e os MRA’s estruturada por ativistas dos direitos masculinos, comumente chamados de “masculinistas”.
Segundo pesquisa feita por estudiosos, após a análise de dados qualitativos e teóricos, em plataformas como o Reddit, X (antigo Twitter), Youtube, Telegram e Discord, o elemento ideológico da extrema-direita atualmente, está contido nessas comunidades digitais, através da exploração de conteúdo racista, homofóbico e misógino, associando diretamente a ação dos Incels a agendas políticas radicais. Esse movimento surge como antítese ao desenvolvimento de uma geração preocupada com questões relacionadas aos direitos humanos e inconformada com uma estrutura social que favorece a minoria.
Essas comunidades surgiram por meio de uma associação da saga ficcional “Matrix” (1999) ao mundo real. No filme, o protagonista se encontra em um dilema de tomar duas pílulas, “the red pill” (a pílula vermelha) ou “the blue pill” (a pílula azul). Ao ingerir a primeira, o personagem descobriria a verdade sobre o sistema e toda a civilização, tomando a segunda, por sua vez, seria “abençoado” com a ignorância e viveria em um mundo de alienação. Desta forma o conceito de ser um RedPill está associado a uma escolha de obter conhecimento sobre mistérios da política e ser portador da verdade, uma denominação para o sentimento de superioridade de homens brancos em relação, principalmente, às mulheres.

A partir de filosofias como essa, a presença de discursos misóginos nas redes sociais ganham cada vez mais força no Brasil. O sentimento de pertencimento, através de uma linguagem memética e informal, interligado a um ambiente sem regras e punições, como as redes sociais, alimenta o senso de comunidade do público alvo e se torna a base de um ciclo brutal de violência que assombra as mulheres brasileiras durante anos.
Feminicídio como resultado de uma ecosfera misógina juvenil
A série britânica “Adolescence” (2025) ilustra, em nível ficcional, a dinâmica de radicalização juvenil em ambientes virtuais. A trama descreve a busca por entender a motivação do garoto pelo assassinato de sua colega de sala, incluindo impactos familiares, sociais e digitais. A influência por comunidades online baseadas na hostilidade contra mulheres é representada como principal fator na criação de comportamentos e crenças misóginas no adolescente. Desta forma, é possível perceber como a cultivação de ressentimento e ódio contra o feminino nas redes sociais podem se traduzir em violências reais.
No Brasil, os casos de violência contra mulheres por homens jovens crescem assustadoramente. O incidente que mobilizou grande repercussão social recentemente, foi o crime de estupro coletivo em Copacabana, ocorrido no dia 31 de janeiro deste ano. A vítima de 17 anos foi violentada por seu ex-namorado, também menor, juntamente com três colegas. Após a visibilidade que tomou o caso, outras vítimas vieram depor contra os agressores e relatar episódios similares. Esses ataques evidenciam como a violência sexual praticada por homens jovens não se restringe a casos isolados, mas se insere em um padrão mais amplo de feminicídio no Brasil, em que a idade e proximidade do agressor refletem a persistência de relações de poder e controle baseadas no gênero.
Em concordância com dados internacionais, no Brasil, a maior ocorrência de crimes de feminicídio representa uma relação entre a vítima e o agressor. Em primeiro lugar, a violência é manifestada por homens dentro de uma união estável, seguido por namorados ou ex-namorados. As motivações por trás são diversas, dentre elas se encontram separação, atos de ciúmes e discussões banais. O caráter privado da barbárie aponta como a vitimização de mulheres não tem local, hora ou nível de proximidade.
O tradicionalismo radical nas relações contemporâneas reforçam uma ideia arcaica do homem como provedor e a mulher em posição de submissão, algo que foi contestado por anos pelo movimento feminista, pensamento este que decaiu na geração dos baby boomers, mas apresenta crescimento entre os jovens da geração Z. Um inquérito global feito a 23 mil pessoas feito neste ano, evidencia essa discordância intrageracional, indicando que 31% dos homens da geração Z defendem que a mulher deve obedecer sempre ao marido, 33% consideram que o marido deve ter a palavra final em decisões importantes e 24% deles concordam com ideia de que uma mulher não deve parecer independente ou autônoma . Enquanto 12% dos homens baby boomers concordam com a última opção, por exemplo.
O efeito cíclico do conservadorismo radical se manifesta em forma de medo e insegurança em reflexo às mínimas conquistas de grupos minoritários. Esse mesmo ciclo de crenças e valores arcaicos atua como catalisador da violência contra mulheres, criando um ambiente social em que comportamentos abusivos e controladores são normalizados. A internalização dessas ideias, de que a mulher deve obedecer, permanecer subordinada ou não demonstrar autonomia, não permanece apenas no nível ideológico, mas se traduz em ações concretas, desde agressões verbais e psicológicas até episódios de violência física e feminicídio. Assim, o conservadorismo radical funciona como um fator cultural que legitima e sustenta a violência de gênero, conectando atitudes de dominação tradicionais à realidade drástica das mortes de mulheres no Brasil.
Portanto, conter o avanço do conservadorismo radical entre os jovens no Brasil exige educação crítica, conscientização digital e políticas públicas eficazes que combatam discursos de ódio e misoginia nas redes sociais. É fundamental também cobrar das autoridades punição exemplar e prevenção efetiva nos casos de feminicídio, lembrando que, atualmente, 3 a 4 mulheres são assassinadas por dia no país, em sua maioria por homens próximos, dentro de um contexto de dominação e controle de gênero. Esses crimes não podem ser tratados como meros episódios isolados: devem ser encarados como atos terroristas e genocidas contra mulheres, manifestações extremas de uma violência sistemática e cultural. Até quando aceitaremos que vidas femininas continuem sendo ceifadas em silêncio, enquanto discursos de ódio se fortalecem entre os jovens?
Fotografia de capa por: CONTEE
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
O autor escreve em português do Brasil.
Escrito por: Pedro Ferlin
Editado por: Rodrigo Caeiro


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