Alguma vez te aconteceu quereres ver “algo”, abrires a Netflix ou outra plataforma de streaming e, sem prestares muita atenção, acabares por voltar à mesma série – pela quinta vez? Pode não ser falta de imaginação ou preguiça. Rever algo prazeroso revela-se, muitas vezes, um porto seguro. Escolhemos o “seguro”, o conhecido, simplificando e reduzindo o esforço mental. Esta sensação de prazer ou conforto pode estar associada à libertação de dopamina, um neurotransmissor responsável pelo sentimento de recompensa, excitação ou prazer.
Primeiramente, em que consiste a nostalgia?
Considera-se que a nostalgia é o ato ou experiência de relembrar com saudade e carinho o passado. Há estudos que demonstram que a nostalgia pode aumentar os níveis de bem-estar, fazendo-nos sentir mais jovens, otimistas, alerta, mas também nos dá força para avançarmos e cumprirmos os nossos objetivos. É um sentimento agridoce por vezes…
Porque procuramos este sentimento que, maioritariamente, nos faz sentir bem?
Uma professora do Instituto de Psicologia da Academia Chinesa das Ciências, Ziyan Yang, afirma que quando as pessoas se sentem nostálgicas são invadidas por um sentimento de “aconchego, ternura e pertença e até experienciam uma espécie de viagem mental no tempo”, o que as pode levar a procurar este sentimento. Afirma ainda que a música também pode despoletar a nostalgia e que esta pode ser particularmente consoladora nos tempos de maior dificuldade.

Apesar de vivermos na era do streaming, ainda há imensas pessoas, de diferentes faixas etárias, que fazem rewatch de séries ou filmes. Não as procuram rever apenas por apego emocional. Muitas vezes deve-se a uma procura por segurança emocional. Ao revermos algo que visualizámos outrora, os nossos níveis de stress diminuem, tal como o nível de alerta do cérebro. A previsibilidade, isto é, o facto de já conhecermos o enredo permitir-nos-á diminuir a carga emocional (já nos encontramos à espera do que irá acontecer). Permite, por sua vez, o relaxamento, a criação de uma rotina mais calma e previsível antes de dormir ou somente um alívio mental após um dia exaustivo, tornando-se um escape da realidade.
Simultaneamente, funciona como uma estratégia informal para regular as emoções, visto que, ao rever conteúdos que foram importantes enquanto crescíamos, somos invadidos por sentimentos nostálgicos, acabando por nos transportar no tempo. Isso faz-nos sentir bem, como se pertencêssemos e encaixássemos neste mundo, porque esses conteúdos visualizados em alturas marcantes da nossa vida, como a infância ou a adolescência, transportam com eles lembranças de momentos, pessoas ou lugares. Ao revivermos esses momentos, somos transportados para memórias de conversas e detalhes que vão muito para além do próprio conteúdo.
Contudo, a nostalgia não consiste apenas em aspetos individuais, também é cultural. Por alguma razão nas alturas mais “marcantes”, como o Natal, Páscoa, etc, são repetidos praticamente, ano após ano, os mesmos conteúdos. O “Grinch”, “Sozinho em Casa” e outros clássicos tornam-se o prato do dia. É como um ritual, que se mantém para dar estabilidade ao caos, permitindo-nos desconectar do mundo real e voltar a ser criança por umas horas.

No fundo, rever é uma maneira de voltar a um lugar onde fomos felizes e isso pode ser nostalgia, cansaço ou a vontade de silenciar o mundo por meros minutos. Somos relembrados de tempos em que tudo parecia ser mais leve, e é dessa leveza que, muitas vezes, sentimos saudade… Rever é viver! E, se por vezes for necessário voltar atrás para nos sentirmos melhor, talvez seja a nossa criança interior a pedir um momento de paz.
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Fonte da imagem da capa: criação própria
Escrito por: Jessica Sousa
Editado por: Íngride Pais


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