A arte nacional de parecer inclusivo

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Toda a gente gosta muito de palavras bonitas (e igualdade é uma delas). Ficam bem em discursos oficiais, em papéis institucionais e em dias internacionais dedicados às boas intenções. Há sempre alguém a garantir que o país é cada vez mais inclusivo e que todos têm os mesmos direitos.

Antes de mais, deixo claro dois conceitos: igualdade e equidade. O primeiro pauta-se por abrir a porta a todas as pessoas, o segundo garante que ninguém fica parado no corredor a tentar perceber como se entra. Este casal, pelo menos no papel, está resolvido. Na prática, funciona de forma curiosa. 

Todos têm direito à mesma escola, ao mesmo emprego, ao mesmo atendimento e à mesma participação na sociedade. O detalhe é que algumas pessoas conseguem exercer esses direitos sem dificuldade, enquanto outras passam metade da vida a tentar explicar que também existem.

A conversa torna-se ainda mais interessante quando entram na equação as pessoas com deficiência mental ou intelectual. A sociedade gosta de falar por elas, decidir por elas e, acima de tudo, protegê-las de tudo. Proteção é uma palavra simpática que muitas vezes significa silêncio, invisibilidade e expectativas tão baixas que quase desaparecem.

Há escolas que defendem inclusão, desde que não complique demasiado a aula. Há empresas que defendem diversidade, desde que o candidato seja exatamente igual aos outros. Há serviços públicos que defendem igualdade, desde que ninguém faça perguntas difíceis ou precise de explicações mais simples.

A igualdade continua impecável no discurso. A equidade, essa, já levanta mais problemas. 

A equidade exige reconhecer que algumas pessoas precisam de apoio diferente, mais tempo para aprender, comunicação mais clara ou oportunidades pensadas de forma mais humana. Exige compreender que autonomia não significa abandono e que dignidade não se constrói com paternalismo.

Curiosamente, quando alguém sugere estas adaptações, surge logo o argumento da injustiça. Tratar de forma diferente parece incomodar muita gente. A ideia de que todos devem receber exatamente o mesmo tratamento é defendida com grande entusiasmo, mesmo quando esse tratamento igual produz resultados profundamente desiguais.

No fundo, a “igualdade” contemporânea tem um talento especial para parecer justa enquanto ignora a realidade. As pessoas com deficiência continuam muitas vezes reduzidas a rótulos simples e a personagens secundárias na própria vida. A sociedade olha para elas com simpatia ocasional, comovida em campanhas solidárias e muito menos interessada quando chega a hora de garantir acesso real à educação, ao trabalho ou à participação social.

Ainda assim, o país gosta de acreditar que está no caminho certo. Há leis, há estratégias, há conferências sobre inclusão e há fotografias muito bem iluminadas em que todos sorriem ao lado da palavra diversidade.

A equidade seria um passo ligeiramente mais ambicioso. Implicaria ouvir estas pessoas, criar condições para que participem verdadeiramente e aceitar que a igualdade não é distribuir o mesmo a toda a gente.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Fonte da imagem de capa: Pinterest

Escrito por: Matilde Lima

Editado por: Íngride Pais

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