Lembram-se da cena em que a Bruxa oferece à Branca de Neve a maçã envenenada? E se, afinal, a bruxa fosse a nossa própria consciência e o verdadeiro feitiço não estivesse na maçã, mas na culpa que vem depois de a comermos?
Nunca estivemos tão expostos e nunca estivemos tão insatisfeitos. Vivemos na era da imagem em que fotografamos o pequeno-almoço, o treino, o passeio, o rosto e o corpo. Ajustamos a luz, o ângulo, o enquadramento, editamos, publicamos e por fim esperamos.
O corpo, que durante séculos foi apenas corpo, sinónimo de vida, imperfeito e humano, transformou-se em projeto e em fonte de investimento. As redes sociais, que inicialmente serviriam para partilharmos o nosso dia a dia, as nossas experiências e fotos engraçadas com amigos, transformaram-se numa máquina industrial onde tudo é usado e pesquisado. A pressão estética tornou-se portátil e constante, à distância de um click, fazendo com que o espelho já não esteja apenas na casa de banho ou na parede do quarto, e sim no bolso das nossas calças, num ecrã mais pequeno do que a palma da nossa mão. Esse ecrã, que é aberto dezenas de vezes por dia, pronto a devolver-nos não só o nosso reflexo, mas também milhares de outros, aparentemente mais definidos, mais magros, mais simétricos, mais felizes e sobretudo mais perfeitos.
Desde sempre que a adolescência sempre foi uma fase vulnerável, em que a mudança, a construção e a descoberta são os nossos principais inimigos, mas há uma diferença essencial entre o ontem e o hoje: antes, a comparação era bastante mais limitada e local. Hoje, é global, dependente de um algoritmo que mais parece infinito.
Os jovens não se comparam apenas com colegas da escola, com o rapaz que vêm na rua ou com a rapariga que aparece na telenovela que vemos todas as tardes com a nossa avó, comparam-se com influencers, modelos, criadores de conteúdo fitness e celebridades digitais, muitos deles com imagens editadas, procedimentos estéticos, utilizadores de substâncias e rotinas pouco transparentes.
Os números confirmam que não se trata de exagero. Em Portugal, mais de metade dos jovens afirmam estar pouco satisfeitos com a sua aparência física. Sete em cada dez jovens do sexo feminino sentem pressão para estarem sempre apresentáveis. Aos 13 anos, mais de 75% das raparigas já utilizaram aplicações para manipular digitalmente a própria imagem. E isto aplica-se igualmente para o sexo masculino, um em cada três rapazes adolescentes manifestam algum grau de insatisfação corporal, maioritariamente relacionado com o facto de quererem mais músculos, quererem ser mais magros ou sentirem-se demasiado magros. Aos 13 anos, quando devíamos estar a descobrir quem somos, já estamos a tentar mudar o que somos.
Mas talvez o mais irónico seja chamarmos a isto espontaneidade. A “selfie natural” tirada no momento em que a luz está no ângulo certo raramente é natural. São várias as tentativas até escolher a melhor. Minutos a preparar cabelo, a maquilhagem, a roupa, ajustes de brilho, na exposição da luz, e posteriormente, quando vemos que não saiu como esperado, adicionamos uns filtros que afinam o nariz, aumentam os lábios, suavizam a pele, afinam a cintura, diminuem o tamanho do nosso braço e tiram aquele pelo pequenino que nos esquecemos de tirar do lado esquerdo da sobrancelha.
O resultado final é apresentado como casual, como se pura e simplesmente tivesse acordado assim, e é exatamente aí que o corpo deixa de ser vivido e passa a ser monitorizado. Publicar torna-se um ato de vigilância, que se for num story do Instagram dura apenas 24h, enquanto numa publicação pode durar dias ou semanas. Vemo-nos, revemo-nos, voltamos a editar o que publicámos e analisamos cada detalhe. A vigilância constante, torna-se algo obsessivo onde o nosso reflexo deixa de ser neutro e torna-se numa avaliação que vira validação…likes, comentários, partilhas, pequenos gestos a nível digital que funcionam como medidores de valor pessoal. Quando surgem, geram alívio, quando não surgem, geram dúvida. O silêncio digital pode transformar-se em rejeição imaginária, fazendo com que a autoestima passe a depender de terceiros que muitas vezes não vimos nem nunca veremos na vida.
Para além disto, tendemos, todos os dias, mesmo que inconscientemente a comparar-nos com quem parece estar “melhor”, mais bonito, mais em forma e mais bem-sucedido. O problema é que, nas redes sociais, quase todos parecem estar melhor, porque quase todos mostram apenas o melhor.
Os algoritmos reforçam esta dinâmica. Se demonstramos interesse por conteúdos relacionados com fitness, dieta ou estética, recebemos mais do mesmo, é um poço sem fundo de conteúdo repetido. A repetição cria norma, a norma cria expectativa e a expectativa cria pressão.
E é aqui que entram os influenciadores fitness e a sua “cultura”. Nos últimos tempos o discurso mudou, já não se trata apenas de “ir ao ginásio”, trata-se de estilo de vida, longevidade, disciplina, superação. O influenciador torna-se guia, um exemplo a seguir que traduz informação, orienta comportamentos e sugere rotinas. Num contexto em que instituições tradicionais perderam parte da sua influência, estas figuras digitais assumem um papel quase orientador. Acabamos por assisti-los por identificação, e por segui-los por projeção…queremos ser como eles.
Mas a narrativa dominante é simples, poderosa e atinge os alvos certos: se eu consegui, tu também consegues. Trata-se de foco, mentalidade, e esforço. Mas será que é realmente isso que está por trás do ecrã do nosso telemóvel? O que raramente aparece nos discursos que ouvimos e vemos são os bastidores, onde muitas vezes escondem procedimentos estéticos, manipulação digital e uso de esteroides anabolizantes, métodos que aceleram os resultados físicos. A omissão digital constrói a ilusão de que tudo é natural, alcançável e dependente apenas de disciplina e do nosso próprio mérito. Acabamos por viver num constante “e se”, “e se eu fosse assim”, “e se eu fosse diferente”, “e se não atingirmos o padrão desejado?”. Vivemos numa lógica em que o corpo é tratado como prova de mérito. Se é definido, é porque somos demasiado disciplinados, se não é, falta-nos empenho. O corpo transforma-se numa medalha de mérito.
As consequências desta pressão não são abstratas. A insatisfação corporal está diretamente associada à baixa autoestima, à ansiedade, a sintomas depressivos e a perturbações do comportamento alimentar. Vários relatórios recentes indicam que os jovens adultos apresentam níveis de saúde mental mais baixos do que as gerações acima dos 55 anos. Num tempo baseado no excesso de informação, na conectividade e na maior liberdade de expressão, há também mais ansiedade, mais comparação e mais fragilidade emocional.
É claro que as redes sociais não são o vilão absoluto desta história, são também um espaço de expressão, pertença, aprendizagem e criatividade. O problema não é a sua existência, é a lógica dominante que promovem, em que a visibilidade é o principal motor desta máquina imparável.
Nunca tivemos tantos filtros ao nosso alcance e nunca nos sentimos tão imperfeitos, para muitos o corpo é agora um campo de batalha silencioso.
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Fonte da imagem da capa: Pinterest
Escrito por: Sofia Maria
Editado por: Maria Francisca Salgueiro


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