Entre a moral e o cartão de crédito: Breve tratado hipócrita sobre o OnlyFans

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Poucas coisas provocam tanta indignação pública hoje em dia como uma mulher admitir que ganha dinheiro no OnlyFans. Nada parece mobilizar tanto fervor moral como a simples existência de uma rapariga que decidiu vender fotografias do próprio corpo na internet.

Descobri isto recentemente, enquanto perdia tempo no TikTok. Entre vídeos de receitas, coreografias e recomendações de livros, apareceu um vídeo de uma jovem a falar com calma sobre o facto de ter uma página de OnlyFans. Explicava, sem grande dramatismo, que aquilo lhe permitia pagar despesas, organizar melhor o seu tempo e ganhar algum dinheiro extra.

O vídeo em si era banal, o que realmente captava a atenção era a secção de comentários. Ali, acumulavam-se análises morais de grande profundidade. Pessoas profundamente preocupadas com o estado da sociedade, com os valores da juventude e, de forma particularmente intensa, com o respeito que aquela rapariga deveria ter por si própria. Havia quem classificasse a situação como degradante, quem lamentasse o declínio da sociedade e quem garantisse que nenhuma mulher “decente” faria algo semelhante.

A internet tem esta característica curiosa, transforma desconhecidos em especialistas na vida de outras pessoas. Naturalmente, não conheço aquela rapariga. Não sei de onde vem, quanto ganha, que escolhas teve disponíveis ou que contas precisa de pagar no fim do mês. No entanto, centenas de estranhos pareciam perfeitamente confortáveis em tirar conclusões muito definitivas sobre a sua dignidade.

Curiosamente, quase ninguém parecia questionar a outra parte da equação. Se existe uma plataforma onde mulheres vendem conteúdo, é porque existe um público disposto a comprá-lo. A economia digital pode ter mudado muita coisa, mas continua a obedecer a uma regra bastante básica. Sem procura, não há mercado.

Ainda assim, a indignação pública raramente se dirige para esse lado. Ao longo de décadas, o corpo feminino sempre foi uma presença constante em diferentes indústrias. Publicidade, cinema, revistas e televisão. Durante muito tempo, essa exposição foi organizada por empresas, agências e produtores que controlavam tanto a imagem como os lucros. Nessa altura, a discussão raramente se centrava na moralidade das mulheres envolvidas. Falava-se de entretenimento, de mercado e, por vezes, até de estética.

O cenário altera-se ligeiramente quando algumas mulheres começam a gerir diretamente a própria imagem e a própria remuneração. De repente, o problema passa a ser ético. 

A plataforma OnlyFans tornou-se, neste sentido, um objeto revelador da sociedade. Não porque tenha inventado algo totalmente novo, mas porque alterou a distribuição de controlo dentro de um mercado que já existia. Em muitos casos, quem cria conteúdo decide o que publica, define preços, estabelece limites e recebe diretamente o pagamento.

Essa mudança parece gerar um certo desconforto. É comum ouvir o argumento de que este tipo de atividade “explora as mulheres”. A preocupação com exploração é legítima e necessária em qualquer indústria. No entanto, torna-se curioso quando esse argumento surge precisamente nos casos em que algumas mulheres afirmam ter maior controlo sobre as condições do próprio trabalho do que em muitas outras profissões disponíveis.

Não se trata de romantizar plataformas digitais. Como qualquer empresa tecnológica, existem algoritmos, desigualdades de visibilidade e pressões de mercado. A realidade dificilmente corresponde a uma narrativa simples de libertação. Ainda assim, a reação pública continua a concentrar-se sobretudo na ideia de que a escolha em si é moralmente suspeita.

Talvez porque a autonomia feminina tem um efeito secundário que continua a incomodar muita gente. Quando uma mulher afirma que tomou uma decisão por iniciativa própria, retira aos outros o confortável papel de decidir por ela.

Voltei aos comentários do TikTok mais uma vez antes de fechar a aplicação. Entre as críticas, apareciam também alguns apoios, embora em menor número. No meio de milhares de opiniões categóricas, permanecia o facto relativamente simples de que uma mulher adulta tinha decidido usar uma plataforma digital para ganhar dinheiro e centenas de desconhecidos sentiam-se autorizados a julgar essa decisão. Não por a conhecerem, apenas porque podiam.

Essa é a parte mais reveladora de toda a discussão. A internet ampliou muitas vozes, mas também ampliou uma antiga tradição social, a de vigiar as escolhas das mulheres com uma atenção moral que raramente se aplica com o mesmo entusiasmo ao resto da sociedade (em sociologia, chamamos a isso controlo social informal).

Entretanto, as plataformas continuam a crescer, os utilizadores continuam a subscrever conteúdos e o debate moral continua a repetir-se, comentário após comentário. A economia segue o seu curso e a indignação também.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Fonte da imagem de capa: Freepik

Escrito por: Matilde Lima

Editado por: Rita Luís

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