O Cinema como Arte e Indústria: um ensaio sobre Geopolítica Cultural

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O cinema é uma das artes mais fascinantes do mundo. Uma vez que é a reunião de todas as outras formas artísticas, desde a fotografia até à escrita, passando pela atuação e moda. Em época de Óscares, é crucial olhar para o cinema não apenas como expressão artística, mas como uma indústria moldada por fatores socioeconómicos em contextos geopolíticos.

A hegemonia de Hollywood numa lente histórica
Com o culminar da Segunda Guerra Mundial, é clara a mudança da posição isolada dos Estados Unidos para uma política externa assente na procura pela hegemonia. Um dos símbolos históricos desta ambição foi o Plano Marshall, um programa que pretendia reconstruir o continente europeu. No entanto, a sua análise é, muitas vezes, limitada às indústrias tradicionais, como a maquinaria. Contudo, um dos seus pilares foi a abertura da Europa para os produtos culturais americanos.

Os Estados Unidos, através da promoção da indústria do cinema, possuíam a capacidade de vender o seu estilo de vida: o American Dream. Assim, os filmes estadunidenses representavam prosperidade e modernismo que criavam um sentimento de desejo por parte dos europeus devastados pelo conflito. Além deste fator psicológico, que se refletiu no consumo, Hollywood promovia valores liberais e capitalistas para servir de barreira ideológica face ao comunismo.

Cena do filme It’s a Wonderful Life (1946)
Cena do filme The Fountainhead (1949)

É importante realçar que ocorre um enfraquecimento da indústria cinematográfica europeia, sendo um dos exemplos mais emblemáticos o caso francês. Em 1946 estabeleceu-se o Acordo Blum-Byrnes: em troca do cancelamento de dívidas de guerra, o governo francês é forçado a eliminar quotas restritivas que utilizava para proteger o cinema nacional. Aliada a esta negociação, Hollywood tinha stock acumulado devido à proibição dos seus filmes durante o conflito. Com a chegada da paz, estes foram distribuídos a preços abaixo do valor de mercado, aumentando o seu consumo. Logo, ao analisar o poder colossal de Hollywood, é importante ter em conta todo o contexto histórico por detrás da sua hegemonia.

Emergência de outras indústrias: o papel do soft-power

Mesmo com a viragem do cinema tradicional para o streaming, é ainda perceptível a predominância mediática estadunidense, visto que a maioria das plataformas está nas mãos dos monopólios provenientes dos Estados Unidos. Todavia, na última década, verifica-se a emergência de outros atores, como a Coreia do Sul.

O primeiro fator explicativo para o sucesso destes atores na indústria cinematográfica está no conceito de soft-power, desenvolvido por Joseph Nye. O autor define esta tipologia de poder como: “capacidade de um país influenciar o comportamento e as preferências de outros atores internacionais através da atração e persuasão, em vez da coerção, baseando-se em recursos como cultura”. Neste seguimento, a Coreia do Sul tem sido um dos grandes exemplos da sua aplicação na geopolítica cultural.

Tudo começa com o despertar geopolítico da Coreia do Sul com um relatório que é publicado em 1994 com a conclusão de que as receitas de um único filme da saga Jurassic Park equivalia à venda de 1,5 milhões de carros Hyundai. Este facto, juntamente com a crise asiática de 1997, irá ditar os próximos anos da política externa coreana, conceptualizada no Hallyu – a Onda Coreana – um braço essencial da sua estratégia diplomática. Assistimos então ao Hallyu 1.0 nos anos 2000 com a dominação do mercado asiático, ao Hallyu 2.0 na década de 2010 com o fenómeno K-Pop e ao Hallyu 3.0. Esta fase representa a atualidade, com o cinema a revelar-se um setor estratégico, iniciando-se com o reconhecimento internacional de Parasite, dirigido por Bong Joon Ho, vencedor de 4 óscares em 2020.

Fonte: Reuters

A relevância do poder económico e afinidades culturais
O soft-power é uma vertente crucial para o sucesso das indústrias cinematográficas, no entanto, o poder económico é um fator importante que não pode ser analisado de forma isolada. Segundo o relatório World Economic Outlook do FMI, publicado em 2025, a Coreia do Sul ocupa a 14ª posição na lista das maiores economias do mundo. Conclui-se, assim, que o poder económico tem um peso significativo, visto que é necessário um determinado volume de economia para investir na produção e exportação de obras cinematográficas. Contudo, não é um fator que gere automaticamente influência mediática global.
Um dos motivos é, como no caso chinês, que ocupa a segunda posição da lista, a escolha política. Pequim não pretende exportar os seus filmes, mas fechar fronteiras com Hollywood e investir no consumo interno. Por outro lado, as indústrias dos países anglo-saxónicos adquirem o mesmo reconhecimento e integram o mesmo mercado. Uma vez que muitas produções de Hollywood são coproduzidas com o Reino Unido e com o Canadá, que ocupam a 6ª e 10ª posição da lista do FMI, respetivamente.
Assim, verifica-se que, apesar da economia ser determinante, outros fatores explicam o sucesso de determinadas indústrias. O caso da Índia é paradigmático, uma vez que Bollywood é um gigante adormecido. Dominando não só o consumo interno, mas também todo o sul asiático e o Médio Oriente. Apesar do monopólio regional, do tamanho da sua economia e da liberdade criativa, esta indústria não atinge o mesmo caráter global.

A Coreia do Sul consegue tocar no público geral, pois, apesar de manter a língua nativa nas suas produções, segue, cada vez mais, o modelo de Hollywood. Já no caso indiano, Bollywood preserva o seu modelo característico: produções mais longas e seguindo a Fórmula “Masala”: os filmes não se limitam a um género, uma mesma produção pode ter elementos de romance, ação e comédia.

Fonte: iifa

Edward Said, na sua obra Orientalismo, explica como o Ocidente, ao longo de vários séculos, criou uma visão do outro – o Oriente – como algo exótico, estático e subdesenvolvido. Isto explica as afinidades culturais que o Ocidente cria com a Coreia, que tem vindo a mudar a sua linguagem (não a língua em si, mas a forma como segue o modelo estadunidense), conversando com o Ocidente. Enquanto o cinema indiano é marginalizado por manter a sua estética e gramática.

A lição do cinema brasileiro
Após a onda coreana, no último ano, o Brasil tem surgido como um epicentro do cinema internacional. Um dos fatores explicativos, como já mencionado, é o peso da sua economia. No relatório anteriormente referido, a economia brasileira ocupa o 11º lugar a poucas décimas abaixo do Canadá.

O atual governo, liderado pelo presidente Lula da Silva, é mestre em fortalecer relações diplomáticas. Tendo sido capaz de remover as barreiras ideológicas que existiam no governo anterior, que tinha uma relação mais tensa com a classe artística e com a comunidade internacional. Assim, aliado à capacidade económica, o Brasil tem vindo a fortalecer a sua rede diplomática e a investir na diplomacia cultural como chave para a condução da sua política externa.

Através da recriação do Ministério da Cultura e o fortalecimento da Ancine (Agência Nacional do Cinema), o país consegue passar a mensagem de segurança para investidores, como, por exemplo, um estúdio americano que queira distribuir um filme brasileiro. O governo Lula injetou também valores recordes através da Lei Paulo Gustavo e da Lei Aldir Blanc 2, para manter a indústria viva, formando técnicos. Alinhadas com toda a política interna, as plataformas de streaming têm aumentado a sua presença devido à dimensão do consumo interno.

Com o filme Ainda Estou Aqui, o cinema brasileiro foi capaz de mostrar que ainda está vivo. Esta obra foi vencedora do Óscar de Melhor Filme Estrangeiro e Fernanda Torres ganhou o Globo de Ouro de Melhor Atriz. Este ano, o filme Agente Secreto está nomeado para as categorias de Melhor Fotografia e Melhor Filme Internacional nos Óscares, já Wagner Moura está nomeado para a categoria de Melhor Ator.

Fonte: Mario Anzuoni/Reuters

Em última análise, o caso do cinema brasileiro é uma excelente síntese de toda a linha argumentativa para justificar o título do ensaio. O cinema é arte, pois precisa de artistas e capacidade técnica, da mesma forma que os artistas precisam do cinema. Mas também é uma indústria. O Brasil é uma das maiores economias do mundo, o seu governo tem seguido escolhas políticas que investem na sua indústria cinematográfica e, acima de tudo, mantém a sua soberania cultural. Filmes em português, sobre acontecimentos da história brasileira e recheados de referências culturais que conseguem conversar com o público em geral.

Como disse o diretor coreano Bong Joon-ho no seu discurso de vitória de Melhor Filme Estrangeiro nos Globos de Ouro de 2020: “Assim que ultrapassar a barreira de 2,5 cm das legendas, você conhecerá muitos outros filmes incríveis.”

Discurso de vitória do diretor Bong Joon-ho nos Globos de Ouro de 2020 (Fonte: Dazed)

O cinema merece ser consumido fora da bolha de Hollywood, e se ele não chegar até nós, vamos nós até ele.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Fonte da imagem de capa: Composição de frames dos filmes Parasite, Ainda Estou Aqui, In the Mood for Love, Once Upon a Time in Hollywood, Lagaan e Agente Secreto.

Escrito por: Jenifer Longos

Editado por: Rodrigo Caeiro

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