“Finge Naturalidade”

Escrito por

Nesta edição do “Cronicamente Dramática”, Rita Cardona desaparece… e reaparece com uma nova identidade que nunca pediu: “CarMONA”. Entre momentos constrangedores e fotografias tremidas, conseguiu falar com ícones da televisão e da rádio como se fosse perfeitamente normal. Um beijinho especial à Fátima Lopes, que, sem saber, carregou no botão certo.


Voltei. Depois de uns bons mesitos a fazer ghosting à minha própria carreira.
Hoje, isto não é suposto ser uma crónica.

Sou estudante, perfeccionista, sonhadora e, vá… socialmente ansiosa com um talento especial para imaginar que toda a gente está a reparar em mim (spoiler: não está).
Estive meses sem aquela chama de “agora é que vai”.
Tinha crónicas escritas, já prontas! E mesmo assim não publicava.
Comecei o meu podcast, adiado três anos (três!), gravei dois episódios e por algum motivo parei, e não foi por falta de ideias.
A vontade de estudar? Foi novamente de férias.

Entretanto, a minha vida decidiu fazer umas maratonas: volta às aulas, carta de condução, exames, eventos… e a perda da minha gatinha de quatro anos. Assim, do nada.

Numa só semana tive: luto, exame para o qual mal estudei, exame de condução e um evento onde me inscrevi a achar “não vou ser chamada”. Claro que fui. E claro que era na noite antes do exame.

Fui à antestreia do programa do Rodrigo Gomes, “Cozinhas à Medida”, no canal Casa e Cozinha.
Chego e digo o meu nome:
— Rita Cardona.
— Rita CarMONA?
— Sim.
Também respondo por isso, aparentemente.

Entrei e pensei seriamente em fingir uma chamada urgente e fugir, mas fiquei. Com aquele sorriso “super natural” que toda a gente usa quando está a morrer por dentro, a pensar: “finge naturalidade”.
Coração a bater como se tivesse feito sprints, rodeada de pessoas que admiro e que não fazem ideia de quem eu sou.

“Tirem-me daqui” | Fonte: Rita Cardona

Fui falar com ele e estendi a mão, ele foi para dois beijinhos… Começámos bem, a minha coordenação social não entrou comigo.
Disse:
— Sou estudante universitária e gostava muito de trabalhar na rádio ou na televisão. É uma grande inspiração para mim, podemos tirar uma fotografia?

Não disse o meu nome. Não disse o curso. Não disse que tinha ganho o passatempo e que foi a mim que ele mandou o convite.
Basicamente, uma desconhecida a declarar admiração e a desaparecer.
Sou um ícone para os stalkers.

Mas consegui tirar a foto. A tremer, mas tirei.

“(Eu disse-vos que consegui tirar)” | Fonte: Rita Cardona

Repeti a mesma conversa a outras pessoas que acompanho. À terceira tentativa já conseguia dizer “Cardona” sem parecer que estava a ter um ataque.

No meio das piadas sobre querer ir para a rádio, televisão ou diretamente para o “desemprego” (obrigada pelo realismo, Pipoca mais Doce), a Fátima Lopes disse-me algo simples:
— Faz coisas. Não importa se parecem relevantes para a tua área. Dedica-te ao que gostas. E lembra-te: somos pessoas como quaisquer outras.

E foi como se alguém tivesse carregado num botão.

“Cara de pânico ou alívio?” | Fonte: Rita Cardona

Voltei para casa leve. No dia seguinte fiz o exame, que até acho que correu bem. Passei na carta. E um grande peso saiu dos ombros. Às vezes o universo não tira tudo, só testa a nossa resistência.

Hoje inscrevi-me em cursos gratuitos, que não têm nada a ver com o meu curso. Talvez volte com o podcast. Talvez não, ainda. Está em standby.

Escrevo isto para dizer: a pressão passa. A falta de bateria recarrega. O luto acalma. O medo diminui. E nós não estamos atrasados, estamos a viver, nem que às vezes pareça apenas existir.

Temos tempo. Mesmo quando achamos que não.
E se for preciso, respondemos por “CarMONA”.


Um obrigada sincero ao Casa e Cozinha e ao Rodrigo Gomes por este momento e pelo glowzito inesperado na minha vida. Prometo que da próxima vez tento ser um bocadinho menos creepy com o pessoal da área.
Inspiraram-me, ainda mais, a continuar a correr atrás dos meus sonhos.


Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Fonte da imagem da capa: Freepik

Escrito por: Rita Cardona

Editado por: Rodrigo Caeiro

Deixe um comentário