As “Jornadas da Sociologia”: que papel desempenham os media na forma como interpretamos o mundo e formamos opiniões?

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Nos dias 23, 25 e 27 de fevereiro, os núcleos de estudantes de sociologia da NOVA FCSH, do ISCSP e do ISCTE acolheram o programa de debate e reflexão “Jornadas da Sociologia”, com vista a desenvolver um espaço de pensamento crítico, de partilha, e sobretudo de aproximação entre a universidade e a sociedade quanto aos mais diversificados temas predominantes na sociedade contemporânea.

Foi com grande gosto que presenciei a segunda sessão recebida pelo ISCSP: “Influência dos media na construção da opinião pública”. Sucedeu-se, assim, um debate entre as jornalistas Maria Flor Pedroso e Sofia Branco, e o sociólogo Gustavo Cardoso.

O debate teve início com a questão da relação entre os media e a opinião pública, mais concretamente se os media moldam e influenciam a opinião pública, ou se simplesmente refletem as tendências já existentes.

A jornalista Sofia Branco começa por mencionar a transformação social como o grande propósito do jornalismo, embora esta tenha servido pouco no âmbito das questões de género e da amenização das diferenças entre os dois géneros na área, revelando alguma dificuldade em debater internamente estas questões. Sofia conclui apontando para a pouca abertura na reflexão e para a falta de decisões transversais como os principais problemas dos media.

Já o sociólogo Gustavo Cardoso argumenta que a construção da nossa experiência ocorre em função da mediação, e que os profissionais mudaram a forma como constroem a sua relação com o mundo na medida em que a realidade em que vivemos é construída pela censura do algoritmo. Contudo, o sociólogo reforça que a censura do algoritmo (ou falta desta) incrementa a maior oposição entre a crença de opinião e a crença da ciência e dos factos.

Por sua vez, a jornalista Maria Flor Pedroso aborda a contaminação dos factos com a opinião no jornalismo atual, e a dificuldade que isso implica para ganhar a confiança dos leitores. Defende também que, atualmente, os media moldam menos a opinião pública por terem cedido o poder editorial a quem manda, levando, inevitavelmente, à perda da sua importância.

De seguida, impôs-se uma questão com grande relevância para o tema; num contexto de redes sociais e algoritmos, qual tem mais influência: os media tradicionais ou as plataformas digitais?

Desta vez Gustavo Cardoso é o primeiro a falar ao afirmar que a resposta vai variar conforme o país, referindo que em alguns países muitos meios de comunicação posicionam-se politicamente, e, como seres humanos temos tendência a reforçar as nossas ideias naquilo que observamos. O sociólogo refere também que a comunicação algorítmica ainda não está firmemente implantada atualmente, mas a construção da opinião também não está completamente assente no jornalismo. Conclui, portanto, que não existe uma transformação radical em virtude somente do surgimento de um novo meio de mediação.

Maria Flor Pedroso refere que, atualmente, o jornalismo não aborda a realidade no seu todo, mas sim o que esta aparenta ser. Argumenta que o jornalismo está a ser influenciado na sua visão ao adotar posições políticas, e os órgãos de comunicação social deixam de funcionar bem por deixarem de ter como foco o público.

Sofia Branco encerra o debate ao mencionar que o jornalismo atual está num país ilusório, por se aproximar mais do poder do que dos desfavorecidos e vulneráveis, que mais precisam de voz para melhorarem a sua vida. Por sua vez, origina falta de confiança das pessoas em relação ao jornalismo enquanto estrutura, além de que, por ter mais alcance, verifica-se uma maior dificuldade em corrigir determinados erros. A convidada destaca também a necessidade de maior abrangência cultural, isto é, de pessoas que representem outras comunidades e escrevam conforme as suas vivências, de modo a que as pessoas se possam rever nos jornalistas. Por fim, Sofia destaca que, ao contrário do jornalismo, as plataformas não estão sujeitas a um código de ética rigoroso que sirva de garantia para as pessoas, o que também não anula o facto de as redes sociais partilharem muitos conteúdos jornalísticos.

Estas três perspetivas levam-me a pensar: porque é que o ser humano tem tendência para se basear singularmente naquilo que vê? Nas notícias, nas redes sociais… Porque é que atualmente, com acesso a fontes de informação como nunca antes visto, enfrentamos uma crise de desinformação? Será por falta de pensamento crítico? Ou por estarmos mais vulneráveis à manipulação da informação do que pensamos? Até as notícias, fonte por muitos considerada neutra e credível, são muitas vezes influenciadas por posições políticas.

É simples. É comodismo. Nas redes sociais ninguém sabe o que é verdade e o que é inventado. O que é Inteligência Artificial e o que não é. Já as notícias, basta ligar a televisão e informo-me. Toda a gente vê notícias, e acredita no que vê. E se toda a gente acredita, então deve ser verdade. O que não passa? Não sei. Também não interessa…

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Fonte da imagem de capa: Tridens.

Escrito por: Sara Tavares

Editado por: Rodrigo Caeiro

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