Jornadas da Sociologia: e se mudássemos a definição de poder, o que aconteceria?

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E se o poder não fosse dominar, mas ser, com consciência coletiva e prática comunitária? A pergunta impõe-se depois de assistir à sessão das Jornadas da Sociologia, no ISCSP, sobre o “Monopólio das Narrativas: poder, justiça e legitimação”. Estar presente numa palestra que refletiu sobre a verdade construída e o papel da justiça e das organizações internacionais nas narrativas, abriu mão a questões essenciais, como a definição de poder.

Foi na quarta-feira passada que o ISCSP hospedou o segundo dia destas jornadas que reconstroem um pouco mais os alicerces da nossa sociedade. As Jornadas da Sociologia foram uma iniciativa por parte dos núcleos de estudantes de sociologia do ISCTE, NOVA-FCSH e ISCSP, sob o mote de “Olhar a Cidade. Pensar a Sociedade.”, para que se voltasse ao debate sobre os temas centrais da sociedade contemporânea.

A sessão iniciou-se com um vídeo curto. Um vídeo da vida real, cujo foco era perguntar aos nossos servidores sociais o que entendem por Sociologia, e qual o papel do sociólogo. As respostas foram impactantes. A Sociologia não é só o estudo da sociedade, é a ferramenta prática que auxilia a compreensão do que não é evidente, é um instrumento de desconstrução dos processos sociais, um megafone para ampliar a voz da expressão.

Na primeira sessão, “Monopólio da Narrativa: poder, justiça e legitimação” recebemos calorosamente no painel, como orador, Mário da Parra Silva, Secretário-Geral da UNA Portugal.

Abriu-se o debate com o tema de que controlar a política é controlar as narrativas, à qual o convidado evidencia a linha ténue entre o facto e a construção. Segundo ele, criam-se narrativas na procura por reação, coisa que descobriu muito cedo no teatro, a realidade é construída. Aliás, como o próprio indicou, referindo “Genesis”, a palavra, foi o que Deus criou primeiro, por isso, quem controla a palavra controla a narrativa e a perceção de verdade. E quando falou da justiça, apontou que era ficção assente em presunções, que em última análise, são só palavras. Mesmo num Estado de direito, a justiça nunca é consensual e a própria sentença será sempre incompleta para uma das partes, retratando a versatilidade da verdade.

Sobre o papel das Organizações Internacionais na legitimação destas narrativas, o convidado chama a atenção para o seu papel nas decisões sobre os mais variados temas (tecnologia, água, espaço, juventude, etc…). A ONU traz esperança, e o que é a esperança? É a confusão, a palavra, o livre-arbítrio, a crença de que no final as decisões são tomadas, pelo menos aquelas em que a maioria se identifica. Contudo, não deixa de referir que a ONU precisa de reformas, mas que acima de tudo atuam na correlação de forças.

Como se convence uma sociedade a acreditar na narrativa? Mário Silva adverte a que não se consegue convencer toda a gente, pelo menos não em todo o tempo. A narrativa irá ser executada de modo a ser-se eleito, caso contrário, será baseada na ameaça às ideias comuns, as mais básicas, da sobrevivência. E qual é o principal mito sobre a guerra e a segurança? Ideia de que a História acabou, e de acordo com o orador, de que não é necessária preocupação. Sempre haverá guerra, porque o ser humano a faz. Deve-se começar a paz criando um terreno fértil, para que o princípio de desconfiança não ceda.

Todas estas considerações levaram ao princípio: o que é o poder? Capacidade de influenciar o comportamento do outro para que satisfaça os meus interesses. Mas, e se mudássemos esta definição? O poder é ser-se, ter consciência coletiva e prática comunitária. E se o poder fosse apenas ser, e não agarrar a fraqueza de alguém ou apoderar-me da minha supremacia sobre ele? Imaginem que isto era ensinado nas escolas. Parece fora da realidade, parece não factual. Vejamos as escolas Waldorf, baseada na pedagogia de Rudolf Steiner no início do século XX, cujo objetivo é educação integral do ser humano articulado com o pensamento, emoção e vontade. Os resultados saem positivos, seres com capacidade comunicativa, responsabilidade e iniciativa, que se adaptam posteriormente ao mercado de trabalho, com uma motivação intrínseca para aprender.

Qual seria o impacto desta educação na justiça? Seria previsível que desfecho fosse igualmente positivo, a educação traria sentimento de responsabilidade, integrar-se-ia nas práticas sociais que, reiteradas, são a principal fonte de Direito. E na legitimação? Pessoas conscientes e responsáveis advogam instituições que almejam o bem-comum. Atualmente estamos inundados de ódio e facilitamos o caminho a ditadores. Sim, facilitamos, rejeitamos a responsabilidade, a premissa da liberdade. Muitas vezes espelhamos nos outros aquilo que nos está a acontecer a nós.  Agora imaginem como nos olharíamos, se achássemos que temos poder? Como seriam as reuniões ordinárias da Assembleia da República ou os Congressos Internacionais?

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Fonte da imagem de capa: Mundo Educação

Escrito por: Margarida Cabral

Editado por: Leonor Oliveira

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