Na passada quarta-feira, no ISCSP (Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas), a discussão sobre polarização e reconciliação social marcou um dos momentos centrais deste dia das Jornadas da Sociologia. A iniciativa, que reúne durante esta semana estudantes de sociologia de várias faculdades, especialmente do ISCSP, ISCTE e FCSH, tem como principal objetivo promover debates, troca de contactos e a reflexão sobre temas atuais entre várias figuras conhecidas e estudantes académicos.
Depois da abertura deste grande evento dia 23 de março na FCSH, o seu segundo dia de atividades foi passado no ISCSP, dia 25 de março e terminou dia 27 no ISCTE.
Entre os vários momentos deste evento, gostaria de destacar a palestra dedicada à despolarização e aos caminhos para a reconciliação social que decorreu dia 25 de março no ISCSP. O debate contou com a presença do sociólogo Elísio Estanque e Paula Espírito Santo, cientista política. Estava também prevista a participação da jornalista Margarida Davim, que infelizmente acabou por não comparecer. A moderação ficou a cargo da estudante de sociologia do ISCSP, Sofia Nave.
O debate iniciou-se com a intervenção de Paula Espírito Santo que, respondendo à questão feita por Sofia Nave, nos explicou que o conceito de polarização, que mais do que uma simples divergência de opiniões, é uma dinâmica marcada pela existência de dois polos opostos que se afastam progressivamente, tem vindo a tornar o espaço intermédio cada vez mais reduzido, fazendo com que o “outro” deixe de ser somente alguém com uma posição diferente da nossa. Ou seja, passa a ser visto como um adversário ou até mesmo um inimigo.
Foi destacada a ideia de polarização afetiva, que não trata apenas de discordar, mas de rejeitar o outro grupo, como tem acontecido, por exemplo, com a ascensão dos movimentos contra a imigração, que são constantemente um dos principais motores de divergências entre partidos políticos.
Elísio Estanque sublinhou que muitas vezes vivemos numa “realidade percebida”, em que a forma como os indivíduos sentem a situação social não corresponde necessariamente aos dados objetivos. No caso português, apesar dos avanços (que ultimamente mais parecem regredir) registados nas últimas décadas, incluindo progressos ao nível da igualdade de género, entre outros temas, mantém-se um desfasamento entre expectativas e realidade que gera frustração. Essa insatisfação pode abrir espaço a discursos simplificadores, como é o caso de partidos como a extrema direita. Questionou-se assim “Porque é que há tanta adesão à extrema direita?”, ao que podemos tentar responder que, o maior motivo para essa subida de adesão é o facto das pessoas cada vez mais “(..) quererem discursos simples e diagnósticos fáceis que dão a entender que é possível resolver tudo de um momento para o outro (…)”. Num cenário de incerteza, propostas diretas e aparentemente eficazes, que nos transmitem a sensação de que tudo o que nos incomoda será resolvido, tornam-se apelativas.
As redes sociais assumiram um papel central na reflexão. Segundo foi debatido, o crescimento de determinados partidos extremistas acontece em grande medida através das plataformas digitais, que facilitam a mobilização dos polos mais radicais, atingindo principalmente o público jovem, que curiosamente são o grupo que consome menos jornais, o que reforça a necessidade de literacia mediática. A circulação cada vez mais acelerada de informação, constantemente lado a lado à dificuldade de distinção do que é verdadeiro e falso, contribui para a intensificação das bipolarizações a nível global.
Contudo, o digital não foi apresentado apenas como um problema, mas também como uma plataforma que pode auxiliar na reconciliação social. Foi defendida a importância de aprender a utilizar as ferramentas digitais de forma crítica e racional, preparando os jovens para compreenderem os dois lados das questões e para lidarem com desafios emergentes, como a inteligência artificial. Num momento em que os valores democráticos não podem ser dados como garantidos, a educação e a formação crítica assumem um papel crucial.
A sessão terminou com uma reflexão sobre a necessidade urgente de se reforçar instituições que representem os cidadãos e transmitam confiança e esperança. Num contexto de intensificação global das bipolarizações, compreender a polarização torna-se essencial para preservar o diálogo e a qualidade da democracia, pois, tal como foi dito pelo sociólogo Elísio Estanque, “(…) queremos que os valores da democracia não sejam atingidos mortalmente, o que hoje em dia já não é garantido”.
Os alunos e professores que tiveram o privilégio de assistir a esta discussão, acabaram por poder colocar diversas perguntas aos oradores, acabando assim por abrir horizontes e ficarem a saber melhor os seus pontos de vista sobre temas específicos sobre os quais tinham curiosidade.
Por fim, deixo um agradecimento especial às Jornadas da Sociologia por promoverem o diálogo crítico, a partilha de perspetivas entre estudantes das diferentes instituições e a reflexão informada sobre temas tão atuais e necessários, bem como à moderadora Sofia Nave e aos oradores Elísio Estanque e Paula Espírito Santo pela disponibilidade e contributo enriquecedor para este debate.
Fonte da imagem de capa: Sofia Maria
Escrito por: Sofia Maria
Editado por: Íngride Pais


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