Até Onde Irão? Uma Análise Geopolítica Sobre Carpintaria.

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Há festa na praça! Faltaram os convites.

Teerão acordou com o som (para alguns, o impacto) de mísseis israelitas. O Ministro Israelita da Defesa classifica tal empreitada como “ataque preventivo”. Os Estados Unidos da América (EUA) também se juntaram aos ofícios ligados à pirotecnia. As agências internacionais noticiosas dão conta que ninguém perguntou a opinião dos iranianos sobre o Festival que para ali vai.

No meio de tudo isto, o Irão promete retaliação, como avançado pela Reuters. Donald Trump, o Presidente Norte-Americano, diz estar a contribuir para libertar o povo iraniano num vídeo publicado na rede social Truth Social. Falar de liberdade e declamar ao mesmo tempo que há bombardeamentos por toda a parte, confesso, é para mim um contrassenso.

A minha ideia de liberdade é diferente de – ser livre de contrair o impacto de um míssil balístico num local da minha conveniência – mas quem sabe? Hoje em dia, todo e qualquer conceito parece ser passível de ser disputado e (re)apropriado a bel-prazer das circunstâncias e de quem o dissemina.

Netanyahu, o Primeiro-Ministro Israelita, fala numa “ameaça existencial” colocada pelo Irão. Nesta feita, diz que com este ataque quer dar condições ao povo iraniano para assumir o seu “destino”. 

No momento em que escrevo, já se registam mortos, mas a situação continua em desenvolvimento. Nomeadamente, 40 alunas de uma escola no sul do Irão morreram na sequência dos ataques dos EUA e de Israel, como avança a Reuters segundo informações de uma agência estatal iraniana.

O mercado augura bons tempos para carpinteiros e serralheiros

Nem tudo pode ser mau! Pelo menos, mau para todos. É certo que não só os iranianos poderão potencialmente perder as suas famílias, casas, património e ver as suas paisagens devassadas (para não falar do facto de lhes ser, na prática, retirada a autonomia de tomarem partido no destino do seu país, pelas suas próprias valências). Sim, também se pode dizer que os norte-americanos e israelitas pagam os custos dos mimos do Bibi e do Trump, quer financeiramente, quer também com gente que vai para estes eventos.

As contradições políticas de Trump – fechar as portas do país e rebentar as dos outros – dão uma grande oportunidade aos carpinteiros e serralheiros para construir novas e “mais robustas” portas. E que melhores profissionais para o fazer senão os norte-americanos, israelitas e outros associados?

Estão mais familiarizados com os saberes dos Festivais norte-americanos e israelitas e sobre como preveni-los quando não estamos numa de ser sociais. É certo que talvez a configuração das portas e a posse das chaves possam estar mais concentradas nos obreiros que vão reconstruir o país, mas obra de profissional qualificado não se questiona. Confia-se. De resto, se os iranianos não têm capacidade para definir o seu destino pelas próprias mãos, quem são eles para o avaliar a posteriori?

O mercado ilustra, assim, boas marés! Os sabedores do trabalho da madeira e do metal podem esperar um bom crescimento nas suas finanças e na abrangência da sua obra. Portas de vidro é que não! O Bibi já nos demonstrou em Gaza que gosta de pugnar pela privacidade dos abrangidos por estas obras. Quanto menos se puder ver, melhor.

Turismo moral é cool!

Nestes tempos, a tendência que noto é que toda a gente tem uma posição da mais elevada clarividência sobre temáticas das Relações Internacionais. Afinal, isto é simples, países são como as batatas – tudo mais ou menos a mesma coisa e comem-se por quem tem boca.

Venho propor uma abordagem diferente – a de não ter uma opinião definitiva. Antes, um conjunto de factos e prospeções analíticos sobre estes fenómenos.

Passo a exemplificar: é verdade que o regime do Irão é um dos mais opressivos da nossa vivência contemporânea. Pode igualmente argumentar-se que muitos iranianos estão longe de estar satisfeitos com essa realidade. Assim, e perante uma repressão dos seus direitos, liberdades, garantias e modos de conseguir levar a cabo uma ação consequente de mudança de regime, uma intervenção exterior seria justificável. Ou será que não?

É igualmente possível observar que as leis não definem a realidade. As leis são seguidas por pessoas e por elas transgredidas (ou pelos próprios Estados, como se pode verificar nesta situação) – com maior ou menor fundamento moral ou ético. Porque deveríamos, assim, assumir que os iranianos não poderiam efetuar uma ação de mudança de regime? Não seriam as pessoas mais adequadas para poder definir o rumo do seu país, com consideração sobre o seu contexto social, cultural, religioso, entre outros? Não seria inclusive possível de coordenar apoio internacional (porque, wake up, mundo globalizado), pelos próprios iranianos interessados na mudança?

O problema é que turismo moral é cool nestas questões. Um turismo muito concreto. O cidadão ocidental precisa de se pronunciar avidamente sobre os problemas dos outros Estados. Tecer conclusões e doutrinas sobre as conclusões e doutrinas dos outros sobre si mesmos. Necessitam constantemente de se mostrar muito defensores dos Direitos destes e daqueles ou combatentes dos senhores com barbas por fazer que viram na televisão.

Muitos deles, nunca sequer pisaram nos territórios sobre os quais têm um “olhar atento” ou contactaram com locais (pessoalmente, não a falar para uma CNN ou estações análogas). Fala-se de libertar povos, mas do quê? Acima de tudo, por quem e para quê? Confesso que não gostaria que viessem libertar o meu país de coisa alguma – e eu acho que nós também temos a nossa fatia de problemas. Os nossos carpinteiros e serralheiros, felizmente, ainda vão deixando as portas entreabertas para arejar a nossa cabeça ocasionalmente e dar-nos um ar do mundo para lá deste retângulo.

Estas são as mesmas pessoas que olham pela diagonal os problemas que têm dentro das suas portas. Como se no ocidente não houvesse também violência contra as mulheres, fundamentalismo religioso, discriminação, em alguns casos, supressão da opinião política.

Para mim, os polícias da moralidade do ocidente não são algo assim tão distante dos polícias da moralidade iranianos. Não me venham cá falar de que a dimensão e gravidade dos problemas é diferente no Irão. Tudo isso é certo, contudo, sem prejuízo da opinião que possamos formar, da solidariedade que possamos ter para com casos concretos, é dos iranianos, pelas suas lentes e (real) cultura, a palavra sobre o seu futuro e não de ocidentais que, na impossibilidade de encontrarem problemas à sua volta no imediato, decidem fazer turismo moral para agir ou declamarem dogmas e tratados sobre os problemas dos outros.

Por cá, eu ainda consigo ver uns quantos problemas à minha volta que gostaria de poder ver resolvidos. Se o Bibi e o Trump estiverem a ler isto, não, não precisam de disponibilizar as vossas prestimosas forças armadas. Creio que nós, portugueses e ademais residentes, temos condições para mobilizar a nossa sina.

A mentira, simplificação e boçalidade passam a ser valências

Não só porque são mais fáceis de assimilar – pelo absurdo, pelos termos mais entendíveis pela população menos letrada – mas também porque faz com que Trump pareça alguém “do povo”, ou seja, com fragilidades e defeitos. Ele é impreciso porque é um de nós – não é perfeito.

E assim, surgem narrativas desde refeições de cães e gatos num qualquer Estado norte-americano, como também surgem festivais numa ou noutra praça de um mais países, ou a prospeção de um campeonato de patinagem no gelo ali para norte da Europa. Os motivos nem sempre são claros, ou a sua explicação deixa muitas lacunas. Porque é que se invadiu a Venezuela? Acima de tudo, com que propriedade? Tenho poucas esperanças que tenha sido apenas para providenciar portas “mais robustas” aos venezuelanos.

A mesma pergunta se aplica ao Irão. Porquê agora? Não havia outra forma de conduzir estas matérias?

É no momento em que estas questões deixarem de importar que nos perdemos. Aqui, estamos já naquela fase de uma festa em que há demasiados seres humanos a respirar o mesmo ar e que todos os nossos sentidos nos pedem para sair, mas estamos enjaulados num mar de zombies alcoolizados a ter convulsões ao som de um baixo que penetra as nossas entranhas. É aqui que deixa de haver limites para o expansionismo e que a festa sai do controlo de qualquer um dos seus atores, pois todos estão envoltos numa alucinação coletiva do viver o carpe diem, da não aplicação de qualquer regra e da mais pura expressão individual, do primado dos sentidos. O fim da racionalidade e dos princípios.

Portanto, a pergunta sobre até onde é que podem ir, tem uma resposta contingente. Depende essencialmente de quantos vão decidir ficar e de quem será corajoso o suficiente para sair enquanto é tempo.

Cá por Portugal, felizmente, ainda vamos tendo alguma noção. Estas narrativas, muitas vezes alucinatórias, apesar de existirem na nossa sociedade, não são tão apetecíveis como noutras geografias, algumas delas bem próximas. Falo por experiência própria! Perante os trágicos atrasos nos transportes públicos, bem que tento angariar colegas desalentados para formar um exército revolucionário e invadir as empresas responsáveis, preferencialmente montados em animais selvagens variados para maximizar o poder de persuasão. Contudo, o poder de mobilização é nulo.

Que continue assim a minha experiência! Apesar de haver uma minoria de que  de algum modo deteta algum tipo de genialidade latente nestas proclamações, a grande maioria ainda está certa que bati com a cabeça algures e repetidas vezes. Num mundo onde delírios de grandeza se transformam em chuva de mísseis, ser ignorado na paragem do autocarro é o auge da sanidade coletiva. Que haja mais paragens assim. Que não nos deixemos levar pelo expansionismo ou pela simplificação do social que é, por definição, complexo e contingente.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Fonte da imagem da capa: NPR

Escrito por: José Pereira

Editado por: Íngride Pais

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