Pela primeira vez, os núcleos de estudantes da NOVA FCSH, ISCSP e Iscte juntaram-se sob o ambicioso mote “Olhar a Cidade. Pensar a Sociedade”. Três dias para discutir as grandes questões da sociedade contemporânea, porque, claramente, resolvê-las numa tarde seria pouco realista. Foi no dia 25 de fevereiro, em que o ISCSP recebeu um dos momentos centrais das Jornadas da Sociologia Lisboa.
Cheguei às 9h. O auditório Óscar Soares Barata estava impecável, teto branco, cadeirões vermelhos alinhados, dois projetores já ligados e, ao fundo, a icónica parede azul-escura com o inspirador “ISCSP, EXIGE O TEU MELHOR” pronta a vigiar os oradores. À esquerda, a varanda deixava entrar luz natural, quase como se também quisesse assistir aos painéis. Parte da organização ultimava detalhes logísticos com a concentração e ansiedade de quem sabe que tudo poderia correr bem… ou mal.
Às 9h52 entrou Mário da Parra Silva, presidente da UNA, United Nations Association, Portugal. O primeiro painel, “Monopólio da Narrativa: Justiça, Poder e Legitimação”, arrancou às 10h30, pontualmente académico, portanto.
Falou-se de poder, discurso e da velha máxima sobre quem controla a narrativa controla o jogo. Discutiu-se como instituições e atores políticos moldam perceções e ajudam a decidir o que é “legítimo”, conceito elástico o suficiente para caber em quase tudo. A plateia manteve-se atenta, num silêncio que alternava entre reflexão e esforço pós-sono matinal.
Ao meio-dia chegou o momento mais consensual do dia, o coffee break. Cá fora, os grupos formaram-se rapidamente. Se eu poderia dizer que os estudantes prolongaram o debate cá fora? Poderia. No entanto, estaria a romantizar. A verdade é que café e comida grátis são o verdadeiro cimento social. Por breves minutos, a teoria deu lugar à prática intensiva de alcançar croquetes antes que desaparecessem.
Dez minutos depois (tempo cientificamente insuficiente para dois cafés), iniciou-se o segundo painel: “Influência dos Media na Construção da Opinião Pública”. Os três oradores e a moderadora, tomaram os seus lugares.
Gustavo Cardoso, sociólogo e Professor Catedrático no Iscte, apresentou uma análise sobre plataformas digitais, fragmentação mediática e a forma como a opinião pública já não é bem “pública”, mas um conjunto de bolhas confortavelmente decoradas por algoritmos. Maria Flor Pedroso, jornalista, destacou os tantos desafios do jornalismo e, para minha infelicidade, realçou a necessidade de rever as futuras escolhas profissionais de quem quer seguir o ramo. Sofia Branco, também jornalista, defendeu uma comunicação social mais inclusiva e atenta às desigualdades. A moderação esteve a cargo de Maria da Luz Ramos.
Falou-se de algoritmos, polarização, responsabilidade editorial e, claro, Inteligência Artificial, essa entidade simultaneamente salvadora e vilã que já aparece em todos os debates, mesmo quando não é convidada. As perguntas dos estudantes centraram-se na neutralidade jornalística e no papel das redes sociais na amplificação de discursos extremados. Em resumo, ninguém saiu com respostas simples, o que é sempre um bom sinal num evento de sociologia.
Seguiu-se o almoço, momento estratégico para recuperar energias e, possivelmente, continuar discussões iniciadas… ou simplesmente discutir onde ir almoçar.
Às 15h13 começou o terceiro painel, “Despolarização e Caminhos para a Reconciliação Social”, com uma reviravolta: Margarida Davim não esteve presente por lapso de calendário. Um clássico transversal a todas as áreas profissionais. A organização reajustou o formato e o debate prosseguiu sem dramas visíveis.
Elísio Estanque, sociólogo, analisou a polarização como fenómeno de raízes sociais e económicas profundas, porque, afinal, ninguém se radicaliza apenas por desporto. Paula Espírito Santo, cientista política, sublinhou a importância da literacia política e da confiança institucional. Falou-se de reconstruir espaços de diálogo, tarefa que parece simples até abrirmos os comentários de qualquer rede social.
Às 16h, novo coffee break. O ambiente era diferente do da manhã. Talvez mais reflexivo. Talvez mais cansado. Ou talvez porque, desta vez, já não havia buffet, só café. A sociabilidade académica tem limites (neste caso, só funciona com a mesa cheia).
O último painel, “A Democracia em Tempos de Incerteza”, começou às 16h27. Augusto Santos Silva e David Justino funcionaram como um coro. Ambos abordaram os desafios enfrentados pelas democracias num contexto internacional instável e destacaram a necessidade de reformas estruturais e o papel das universidades na formação cívica. A mensagem implícita parecia clara. O futuro democrático pode estar nas mãos das novas gerações, o que é simultaneamente inspirador e ligeiramente assustador.
O debate final manteve um tom analítico e focou-se na resiliência das instituições, no papel do Estado e na responsabilidade coletiva. Não se resolveu a crise da democracia numa hora, mas ficou a sensação de que pensar sobre ela já é um começo.
Ao longo do dia, tornou-se evidente que as Jornadas foram mais do que uma sucessão de painéis. Acompanhei-o a partir de um lugar particular. Fiz parte da organização do evento, mas procurei manter nesta cobertura o distanciamento necessário. Houve participação estudantil genuína, contacto direto com convidados e esforço em articular teoria e prática (com direito a ajustes de última hora e cafés estratégicos).
Mais do que discutir a sociedade portuguesa contemporânea, o dia 25 no ISCSP mostrou que os estudantes conseguem criar um espaço estruturado, crítico e exigente de debate.
Por fim, este artigo não ficaria completo sem uma referência a Sofia Nave, representante do Núcleo de Estudantes de Sociologia do ISCSP durante as Jornadas, que esteve, juntamente com os presidentes dos restantes núcleos, no centro da organização do dia 25 e cuja entrega foi visível (e elogiada) ao longo de todo o dia.
Escrito por: Matilde Lima
Editado por: Rita Luís
Fonte da imagem de capa: Matilde Lima


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