“A Toca das Loucas” prova que loucura é não celebrar a diversidade

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Espetáculo de arte drag da Haus of Bunny combate preconceitos com mistura entre humor, música pop e questionamentos sobre o significado de família.

Em uma noite de segunda-feira, o Teatro Villaret, em Lisboa, viu-se lotado para a apresentação de “A Toca das Loucas”. Bastaram os primeiros acordes da abertura icônica da série Sex and the city – desta vez ilustrada pelas integrantes da Haus of Bunny, Rebecca Bunny, Lola Bunny, Morgana e Blue Velvet – para que a diversidade da plateia ficasse unida em um mesmo foco: admirar o espetáculo apresentado pelas drags que já são queridinhas da capital portuguesa.

Foram quase 1 hora e 30 minutos dedicados à celebração da arte drag. Tempo recheado pela terapia coletiva da família, que para muitos pode ser diferente daquela descrita pelos dicionários ou presente em descrições tradicionais. E é para quem pensa que pessoas unidas além do laço sanguíneo não podem compor um conjunto familiar que a peça serve, justamente, como uma verdadeira prova de que “loucura” é não celebrar a diversidade.

Afinal, fica clara pela emoção exposta no palco e pelas interações entre as artistas de que elas consideram-se família. No sentido tradicional da palavra, inclusive. A matriarca é Lola Bunny, obcecada pelo trabalho. Rebecca Bunny é aquele membro que não pensa duas vezes antes de gastar dinheiro. Morgana é a incompreendida e rebelde. E, por fim, Blue é a perfeccionista, que só tem olhos para si mesma. Personagens familiares para muitos de nós, não é mesmo? Seja dentro das relações entre mães e pais, irmãos, primos ou outros membros.

Rebecca Bunny, Lola Bunny, Morgana e Blue Velvet. (Foto: Divulgação)

Utilizando-se desses estereótipos, as drags encenaram uma verdadeira terapia familiar. Traumas e críticas aos comportamentos de cada uma delas misturaram-se com muitas plumas, piadas ácidas e, como não poderia faltar, performances musicais impressionantes. Houve espaço para encenações de divas pop, como Fashion!, de Lady Gaga e Hot as Ice, de Britney Spears. Em um momento de desabafo e emoção, Lola Bunny interpretou Memória, interpretado por Rosalía e Carminho, dando um toque atual ao repertório e trazendo a introspecção necessária em toda sessão de terapia.

Ficção expõe realidade da comunidade drag

As músicas foram intercaladas com a história sobre a chegada de cada uma delas na família. Mesmo que fictícios, os relatos mostraram como cada uma das personagens encontrava-se sem propósito de vida até encontra a família da “Toca das Loucas”. Nestes momentos ficava explícito de que o espetáculo não era apenas uma celebração artística, mas também um contraponto ao preconceito enfrentado pela comunidade drag e LGBTQIAP+ em muitas famílias.

Incompreendidas, muitas artistas acabam por buscar apoio fora das famílias tradicionais. Encontram em outras drags ou em amigos que formam ao longo da carreira o que faltava em muitos ambientes familiares: apoio e aceitação. Por isso, ao final do espetáculo, as artistas não esconderam as lágrimas e deixaram-se ser aplaudidas de pé pelo público que não poupou elogios, gritos e palmas ao que viram no palco.

Créditos do espetáculo

Performers: Rebecca Bunny, Lola Bunny, Morgana, Blue Velvet 
Texto, direcção criativa, coreografia, guarda-roupa, figurinos, maquilhagem e wig stylingHaus of Bunny 
Encenação: Sincera Mente 
Direcção artística: Queens’ Office 
Desenho de luz: Tiago Pires 
Fotografia: Melissa Vieira 
Design de comunicação: Pedro Adolfo 
Co-produção: Força de Produção e Queens’ Office

A autora escreve em português do Brasil. 

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Fonte da imagem da capa: Carolina Marasco

Escrito por: Carolina Marasco

Editado por: Margarida Simões

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