“Está tudo bem?”. Uma pergunta automática. Uma resposta ainda mais automática. Quantas vezes respondemos “sim”, sem pensar? Quantas vezes devolvemos a mesma pergunta, suspendendo a resposta no ar, como se a sinceridade exigisse demasiado tempo? Quando respondemos, raramente refletimos. Dizemos que está tudo bem, mesmo não estando, não com a intenção de mentir, mas porque o bem-estar é instável. Muda numa questão de segundos, e escapa-nos, do dia para a noite. O bem-estar é subjetivo, mas sobretudo é efémero.
Há semanas que não escrevo. “Quando acabarem os exames, escrevo.” “Quando voltar para casa, tenho tempo.” “Hoje sinto-me cansada, mas amanhã começo.”
Há semanas que vivo neste impasse entre escrever e adiar a escrita, sempre à procura de razões plausíveis que o justifiquem. A correria da vida, o perfeccionismo que me faz acreditar que é necessário estar horas a fio num ambiente organizado, e sem distrações para conseguir efetivamente escrever um artigo em condições, ou simplesmente a ideia de que nenhum dos temas que me ocorre seria suficientemente apelativo. Talvez seja uma conjugação de tudo isto e, essencialmente, o medo de não conseguir corresponder às minhas expectativas.
Para mim, escrever sempre foi uma forma de organizar o caos. No papel, os sentimentos deixam de ser apenas ruído, tornam-se verdadeiramente concretos. Escrever dá-me a sensação de controlo, ainda que minimamente, sobre aquilo que sinto, e que me permito sentir. Apesar de tudo, ainda assim não escrevia.
Hoje escrevo essencialmente por necessidade. Escrevo-o num banco, no corredor do hospital onde tenho frequentado todos os dias, e onde cada parede está repleta do turbilhão de emoções que tenho sentido durante este último mês. Aqui aprendi muita coisa, e é especialmente com o intuito de exteriorizar as minhas aprendizagens que escrevo hoje.
Não quero que este artigo seja um testemunho do que estou a viver, muito menos uma queixa da situação que estou a passar. Quero, essencialmente, que seja um abre-olhos para quem o lê, não com o objetivo de mudar a perspetiva do leitor porque, infelizmente, por vezes é necessário experienciarmos situações mais complicadas para que isso aconteça. No entanto, se durante os breves cinco minutos desta leitura, alguém olhar para o presente com mais atenção, já me dou por concretizada.
Considero que a maior aprendizagem que levo é que, apenas quando a estabilidade é abalada, é que percebemos o quão instável ela sempre foi. Vivemos convencidos de que o presente é sólido, até me arrisco a dizer que o vemos quase como garantido.
Organizamos a vida como se o presente fosse permanente, como se estivéssemos sob controlo do que não é controlável. Não estamos, mas também acredito que não devemos ter demasiada consciência de que no fundo não temos controlo sobre nada; não é saudável e pode-nos levar a um sentimento de extrema impotência.
Considero antes que devemos valorizar, no estado mais puro da palavra. Valorizar quem nos faz sentir bem; valorizar as pequenas vitórias da vida; valorizar o facto de acordarmos todos os dias; valorizar um dia de chuva, que apesar de desagradável é necessário, e valorizar ainda mais um dia de sol após a chuva, que tão feliz nos faz.
Algo que me tem ajudado a manter-me positiva são precisamente as estações. É ver que por mais forte que seja a tempestade, tudo eventualmente passa, e os dias de sol voltam sempre, independentemente das circunstâncias. Por mais simples que pareça, são estas pequenas coisas que me têm mantido forte. Tudo na vida é uma questão de tempo. É dar tempo ao tempo e acreditar que, com ele, tempos melhores virão. Na verdade acho que esse é o segredo para a estabilidade nos momentos menos fáceis. Acreditar que vai, eventualmente e na medida do tempo, ficar tudo bem.
Hoje, apesar de tudo, sinto-me grata. Grata por ter uma família cheia de amor, grata por ter em quem me apoiar quando precisei, grata por ter forças para enfrentar qualquer situação e acima de tudo por ter compreendido o valor da gratidão.
Constantemente nos queixamos de tudo. “Não tenho tempo para nada”. “Sinto-me tão cansada”. “Nada na vida me corre bem”. Eu mesma o fazia constantemente, e hoje, olhando para trás, vejo que não tinha motivos para me queixar, e continuo sem os ter. Ainda bem que me sinto cansada, significa que tenho capacidades para trabalhar. Ainda bem que não tenho tempo para nada, significa que estou ocupada a alcançar aquilo que pretendo. Ainda bem que todos os fins de semana tenho de fazer viagens de três horas para voltar a casa, porque significa que tenho à minha espera pessoas que valem a pena todo esse esforço, nem que seja só por 5 minutos.
Não digo com isto que não é normal por vezes nos sentirmos frustrados com a vida. Claro que é. Mas não devia, de todo, ser o nosso sentimento principal, e às vezes, talvez por a considerarmos uma garantia, é isso que acaba por acontecer.
Apesar de tudo, ainda consigo ver beleza em tudo isto. Não na ansiedade, e muito menos no medo, mas sim na clareza que eles trazem. Na forma como, de repente, todo o ruído em redor desaparece e apenas fica o essencial. E talvez esta tempestade seja necessária, e amanhã quando o sol voltar a aparecer, como aparece sempre independentemente do que estamos a viver, quero lembrar-me deste banco, deste corredor, desta versão minha mais consciente. Não para reviver o peso, mas para não me esquecer de valorizar, mesmo quando já está tudo bem.
Não controlamos nada do que acontece. Nunca controlámos. Mas podemos sim controlar a forma como encaramos cada situação, e talvez isso seja o bem-estar; não o estado permanente, não uma garantia, mas sim a capacidade de estar consciente enquanto este existe. De reconhecer o bem-estar, e não o dar como adquirido porque, efetivamente, não o é.
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Escrito por: Francisca Lousada Silva
Editado por: Leonor Oliveira


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