Nem só de luz vive o palco: 1ª semifinal do Festival da Canção – Veredito a duas vozes.

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No passado dia 21 de fevereiro, a primeira semifinal do Festival da Canção voltou a provar que este não é apenas um concurso de canções, mas um barómetro cultural, um espelho das nossas inquietações e um palco onde a música portuguesa se testa, se reinventa e, por vezes, se confronta.

Em 2026, a gala teve lugar nos estúdios Valentim de Carvalho e trouxe uma diversidade assinalável. Entre propostas intimistas, pop contemporâneo e experiências sonoras menos convencionais, ficou evidente que o Festival continua empenhado em abrir espaço a diferentes linguagens e gerações. Essa pluralidade é, talvez, a sua maior força. Nem todas as propostas chegam da mesma forma ao público, nem todas procuram o mesmo impacto e isso faz parte da identidade do certame.

Depois, há aquilo que realmente interessa… o que sentimos no sofá.

Matilde Lima: Pessoalmente, houve atuações que se destacaram de forma clara. Dinis Mota, foi, para mim, um dos momentos mais sólidos da noite. A atuação foi segura, emocionalmente progressiva e centrada na canção. EVAYA, trouxe o oposto necessário: intensidade e presença. O palco foi ocupado com confiança, energia e criou um contraste necessário dentro do alinhamento. André Amaro, criou um momento de ligação direta, quase íntima, que acabou por tocar o público e garantir o apuramento através do televoto. Mário Marta, merece igualmente destaque. A expressividade vocal e a clareza da mensagem deram autenticidade à atuação. Mesmo não tendo garantido presença na final, deixou uma marca genuína e coerente, daquelas que permanecem para além do resultado.

José Pereira: Olá! Pois é… também estou por aqui. A Matilde cedeu-me este espaço para poder também partilhar algumas considerações. Concordo com quase tudo o que foi dito até agora. Devo confessar, depois de ver a prova de acesso do Dinis Mota, não consigo deixar de pensar que a canção é praticamente igual à apresentada anteriormente. O meu perfect pitch é prestimoso o suficiente para me relembrar frequentemente que as canções estão no mesmo tom! Obviamente, isto para o comum dos mortais é algo que passa ao lado (e bem). De resto, partilho das considerações sobre a canção da EVAYA e do Mário Marta. Dou ainda destaque ao bom gosto em toda a linha da realização da atuação dos Marquise e à atuação simples e eficaz que os Não Mates o Mandarim nos entregaram. A minha única sugestão seria para o cantor não olhar para o microfone durante a atuação. A televisão nisso não perdoa.

Acima de tudo, o que pudemos constatar foi uma festa da música portuguesa. Não, Portugal não é só fado. Portugal também é indie, música alternativa, rock, também tem o gosto dos ritmos africanos, tem tantas expressões quanto a riqueza da nossa cultura permite. O Festival é um programa que recomendo a todos os amantes da “Portugalidade”. Penso que é algo digno de defender quando se define bem esse conceito.

Quando juntamos todas estas culturas numa sala, pude constatar agora e fi-lo ao longo da minha vida, o resultado é uma festa com muito amor e fraternidade. Não se juntam apenas as luzes e os corpos num palco. Juntam-se histórias e vários passados. Junta-se todo o Ser bem para lá do que é o artista. Junta-se alguém que vê de longe uma silhueta das suas origens, desde ou do outro lado do Atlântico. Junta-se uma criança de olhos postos num espetáculo de partilha. Criam-se sonhos, cria-se cultura e, talvez um dia, os sonhos se juntem como desde 1964 no mesmo palco que, simbolicamente, continua sempre igual.

Matilde Lima: Quanto às restantes propostas, reconheço identidade e trabalho. No entanto, faltou certos detalhes que transformam uma atuação competente num momento realmente memorável. Houve momentos previsíveis e, se algumas canções não se sustentavam totalmente, pelo menos a estética podia ter compensado (tal coisa que não vi acontecer).

A encenação, como já é habitual, voltou a desempenhar um papel fundamental. A aposta em ambientes minimalistas, jogos de luz bem desenhados e uma realização televisiva dinâmica contribuiu para reforçar a narrativa de cada canção. Quando existe coerência entre música, interpretação e imagem, o resultado eleva-se.

O sistema de votação, que combina júri e televoto, voltou a evidenciar diferenças de sensibilidade. Essa tensão é parte integrante do Festival. O júri tende a valorizar aspetos técnicos e composição, o público reage à emoção imediata e à identificação. Nem sempre os critérios coincidem e é precisamente nessa fricção que o debate ganha força.

José Pereira: E que enriquecedor que pode ser esse debate! Especialmente no Festival da Canção. Não acreditam? Peço que atentem no seguinte facto: Caso apenas houvesse votação do público no Festival da Canção, em 2017, Salvador Sobral teria perdido a Grande Final para o grupo Viva La Diva. De facto, ficou mesmo em segundo na semifinal, atrás do dito grupo.

Tudo pode acontecer. As casas de apostas bem que podem tentar prever o desfecho, mas no fim, Portugal nunca falha em impressionar. Muitas vezes isso resulta em boas surpresas. Noutras, a procura por comprimidos para a azia aumenta – cortesia do serviço público de televisão. Onde não nos desiludem, é a premiar sempre propostas diversas e não apenas aquilo que está no mainstream.

Com cada vez menos espaço para propostas que fujam ao imediatismo das fórmulas já bem testadas num contexto de economia da atenção, é bom ver que ainda há oportunidades para a criação artística sincera. A partilha de obras de autor reais e não músicas para os tik toks da vida que se esgotam ao fim de, quanto muito, 30 segundos ou, simplesmente, das mui grandiosas e malditas métricas para ser “trend”.

Matilde Lima: A edição deste ano decorre também sob um pano de fundo mais amplo. A aproximação à Eurovisão acendeu a discussão em torno da participação de Israel no certame. Nas redes sociais, multiplicaram-se opiniões divergentes sobre a dimensão ética de competir num contexto internacional marcado por conflito. A questão coloca novamente o velho dilema: pode a música separar-se totalmente da realidade política que a envolve ou carrega sempre consigo uma dimensão simbólica?

O Festival da Canção nunca foi apenas entretenimento. É um espaço onde se cruzam estética, identidade e, inevitavelmente, contexto. Esta primeira semifinal confirmou isso mesmo. Houve talento e houve diversidade. Acima de tudo, houve a sensação de que a música portuguesa continua viva, inquieta e plural.

Com a segunda semifinal no horizonte, cresce a expectativa. Se algo ficou claro nesta primeira noite, é que o Festival continua a ser um palco onde se arrisca, se sente e se discute. Isso, independentemente de quem venha a vencer, já é uma vitória para a canção portuguesa.

Escrito por: José Pereira e Matilde Lima

Editado por: Cristina Barradas

Fonte da imagem de capa: RTP

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