Quando a política terrestre se complica, não há nada melhor do que olhar para o céu.

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Após uma entrevista no mínimo polémica por parte de Barack Obama, onde este menciona a existência de vida extraterrestre na terra, Donald Trump não perdeu tempo a baixar as cortinas do palco político, anunciando na passada quinta-feira que irá instruir as agências federais norte-americanas a começarem a divulgar arquivos governamentais relacionados com alienígenas e objectos voadores não identificados.

Nessa mesma entrevista, Obama afirmou que, com base no que tem conhecimento, não existiam “instalações subterrâneas” com o objetivo de ocultar a existência de extraterrestres, tal como já ouvimos em diversas teorias. “Eles são reais, mas não os vi, e não estão a ser mantidos na Área 51. Não existe nenhuma instalação subterrânea, a menos que haja uma enorme conspiração e que tenham escondido esta informação do Presidente dos Estados Unidos”, disse Obama.

A transparência é sempre bem vinda, especialmente quando envolve mistérios cósmicos, porém, coincidência ou não, este anúncio chega numa semana em que outros assuntos tinham fortemente os holofotes apontados e nada mobiliza tanto a imaginação coletiva como a hipótese de vida extraterrestre…o enredo escreve-se quase sozinho.

Há temas que têm a capacidade quase mágica de suspender a realidade. A hipótese de vida extraterrestre é um deles. O anúncio surge num contexto em que o caso Jeffrey Epstein voltou a ganhar fôlego mediático. Novos documentos, testemunhos, ligações a figuras poderosas e especulações sobre redes de influência, um processo que, pela sua natureza, nos é difícil de digerir, por mais que nos tentem alimentar com outros temas…e talvez seja precisamente esse o ponto.

A política contemporânea baseia-se em grande parte pela gestão de atenção do público. Num cenário informativo onde tudo compete por segundos de atenção, e onde a informação circula à velocidade de um “breaking news”, o recurso mais escasso já não é a informação, mas sim o desafio de agarrar a concentração do público durante mais do que 15-30 segundos.

Com base em várias teorias e estudos, sabemos que os media não dizem necessariamente às pessoas o que pensar, mas influenciam fortemente sobre o que pensar, utilizando-nos quase como fantoches. Ao introduzir um tema de alto impacto emocional e simbólico, como a possível existência de vida extraterrestre, o foco desloca-se quase inevitavelmente, fazendo com certos temas se percam no nevoeiro.

Processos judiciais, investigações complexas e ligações embaraçosas parecem subitamente “banais” quando comparados com a promessa de revelações cósmicas. Entre documentos secretos sobre voos não identificados e depoimentos jurídicos sobre redes de exploração e cumplicidades, a curiosidade coletiva tende a escolher o mistério, e muitas vezes aquilo que nos dá mais prazer em saber.

Nada disto prova uma intenção deliberada. A política é, afinal, um terreno fértil para coincidências oportunas. Mas a história recente mostra que a redefinição da agenda pública raramente acontece por acaso. Não é necessário inventar factos, basta escolher quando os revelar.

O caso Epstein, pela sua natureza, levanta questões incómodas sobre proximidades, silêncios e responsabilidades. Reabre feridas institucionais e exige respostas difíceis. Não é um tema que permita narrativas simples ou heróicas e muito menos efeitos especiais, o que faz com que para muitos seja fácil desviar a atenção. 

Não se trata de sugerir que a divulgação de documentos sobre fenómenos aéreos não identificados não tenha relevância. O debate sobre transparência militar e responsabilidade institucional é legítimo. Mas não podemos olhar simplesmente para o conteúdo, temos que prestar atenção ao contexto, que atualmente é de intensa exposição mediática de um dos escândalos mais perturbadores das últimas décadas.

Talvez tudo isto seja apenas coincidência. Talvez a ordem para abrir os arquivos do Pentágono resulte de uma genuína vontade de esclarecer toda uma especulação pública. Talvez o regresso do nome de Epstein e o súbito entusiasmo por extraterrestres não tenham qualquer relação.

Mas o tempo também é sinónimo de estratégia.

Quando um tema ameaça dominar a narrativa política,  é fácil surgir outro com a força suficiente para alterar o eixo da discussão. Obviamente não apaga o anterior, apenas o empurra para de baixo do tapete por tempo suficiente para que surjam novas ideias. E num ambiente em que as notícias se renovam a cada minuto, o que se encontra de baixo do tapete acaba facilmente por ficar invisível.

A democracia alimenta-se da atenção informada. E a atenção, hoje, é disputada com criatividade estratégica, que para muitos pode passar despercebida. Se há extraterrestres ou não será algo que continuará a fascinar-nos, mas talvez a questão mais interessante não seja o que existe para lá da atmosfera, mas sim o que acontece cá em baixo enquanto desviamos a nossa atenção lá para cima.

Este artigo é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Fotografia de capa: O Globo

Escrito por: Sofia Maria

Editado por: Maria Francisca Salgueiro

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