O peso de ser visto

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Entramos na universidade a achar que aqui contam apenas as ideias, que somos avaliados pelo que pensamos, escrevemos e argumentamos. No entanto, ninguém entra numa sala apenas com um currículo, entra com um corpo. Esse, fala antes de nós. 

Seja a altura, o peso, a roupa, a postura, a pele ou o cabelo. Antes da primeira frase, já houve uma leitura inconsciente. Já fomos classificados num sistema invisível que não aparece em nenhum regulamento académico.

Gostamos de acreditar que o Ensino Superior é um espaço neutro, racional e meritocrático. Contudo, o corpo nunca é neutro. Há corpos que entram numa apresentação e são automaticamente associados a autoridade. Outros precisam de provar competência três vezes antes de serem ouvidos com a mesma seriedade. Não é explícito, nem assumido, mas está lá. Nos olhares que avaliam, nos comentários “inocentes”, nos conselhos disfarçados de preocupação: “Talvez devesses apresentar-te de outra forma”.

Michel Foucault, por exemplo, defendia que o poder não vive apenas nas leis, mas circula subtilmente, molda comportamentos, corpos e normas, quase sem darmos conta. O corpo, para ele, era um dos principais alvos desse poder que não se vê.

A imagem corporal, então, deixa de ser apenas uma questão de autoestima e torna-se uma questão de poder. Quem é visto como profissional? Quem é considerado desleixado? Quem é intimidante, exagerado, frágil ou distraído? Pequenos rótulos fazem oportunidades, estágios, convites para projetos e posições em grupos. O corpo influencia a credibilidade.

É uma linha invisível que aprendemos a percorrer. Ajustamos a roupa para uma apresentação oral, moderamos gestos e treinamos a postura. Não porque queiramos necessariamente, mas porque sabemos que seremos lidos.

O mais inquietante é que internalizamos essa vigilância. Começamos a olhar para nós com o mesmo filtro crítico com que imaginamos que os outros nos veem. O corpo torna-se projeto, estratégia e, muitas vezes, um obstáculo a gerir.

Fala-se muito da pressão estética nas redes sociais, mas fala-se pouco da política do corpo nos corredores. Fala-se pouco de como certos corpos ocupam espaço com facilidade, enquanto outros aprendem a encolher-se. Fala-se pouco de como a imagem pode abrir portas, ou fechá-las, antes mesmo de batermos.

Talvez o aprender não molde apenas a nossa mente. Talvez molde também a forma como habitamos o nosso próprio corpo. Talvez o verdadeiro debate sobre imagem corporal não seja sobre gostar mais ou menos do espelho, mas sobre reconhecer que o espelho nunca foi apenas pessoal. É social, estrutural e, quer queiramos quer não, é político.

Fonte da imagem da capa: Freepik

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Escrito por: Matilde Lima

Editado por: Leonor Oliveira

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