Virginia Giuffre com o ex-príncipe André e Ghislaine Maxwell em Londres (2001).
Os ficheiros publicados entre dezembro passado e janeiro deste ano pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DOJ), aliados à recente detenção do Príncipe André a 19 de fevereiro, marcam o desmoronamento da trama que operou durante décadas sob a sombra de Jeffrey Epstein.
«Sou uma boa rapariga. Simplesmente tenho estado sempre nos lugares errados. O Epstein levantou a cabeça e sorriu-me. —Está bem. Sempre gostei delas.»
Corriam os anos 2000. Além da brancura que o sol refletia naquele spa do resort de Donald Trump em Mar-a-Lago, havia mais do que tranquilidade e dinheiro: esperança por um futuro melhor. Os anjos baixaram do céu para ajudá-la e à sua família. Isso era o que pensava Virginia Giuffre no dia em que conheceu Ghislaine Maxwell, que lhe apresentou um homem rico à procura de massagens.
Esquema Ponzi Sexual: o capitalismo erótico invertido
Raparigas menores, bonitas, sem dinheiro nem experiência eram o padrão de Epstein, a sua parceira e todos os membros da rede. Ao contrário das recrutadas, todos eram homens influentes, com grandes fortunas e pretensões. O anterior testemunho pertence à história de Giuffre, mas também à de todas. Epstein ‘comprava’ a juventude e a beleza das raparigas para utilizá-las como presente ou moeda de troca para ganhar influência sobre outros homens poderosos. As jovens não são pessoas, mas uma ‘matéria-prima’ para perpetuar as relações de poder. Este sistema recebe o nome de Esquema Ponzi Sexual em alusão à fraude financeira Ponzi, na qual os capitais dos novos investidores servem para pagar aos antigos. Neste caso, permite a captação de pessoas vulneráveis sob uma situação de total assimetria. A rede de massagens com propósitos sexuais não fazia mais do que aumentar com o recrutamento de novas meninas, amigas e convidadas a convite das que já pertenciam a ela. Além disso, o consentimento estava viciado porque não havia uma possibilidade real de recusar a proposta.
Jeffrey Epstein: “Nós sabemos em que escola anda o teu irmão. Nunca poderás contar a uma alma viva o que se passa nesta casa. E eu sou o dono do departamento de polícia de Palm Beach, por isso eles não vão fazer nada a respeito.”
O histórico dos inquéritos
Desde o dia em que começou tudo, jamais pararam de surgir informações e sinais ignorados pelos corpos de segurança. Em 2005, uma primeira investigação por parte da polícia de Palm Beach começou após a denúncia dos pais de uma menor de 14 anos. Nela, as autoridades obtiveram um mandado de busca para a mansão de Epstein e descobriu-se que o local funcionava como uma espécie de balneário ilegal, onde dezenas de menores entravam e saíam diariamente. As palavras de Virginia forneceram o mapa da rede nessa altura e, da mesma forma, para os inquéritos seguintes. No entanto, em 2008, fez-se um “Acordo de não processamento” no qual, apesar de terem um extenso cadastro, Epstein declarou-se culpado da prostituição de menores, —um delito estadual menor— graças ao qual conseguiu uma condenação de apenas 13 meses de prisão e liberdade condicional, além de imunidade federal para ele e outros envolvidos. O testemunho de um polícia da Flórida em 2016 revelou que mais de 20 mulheres afirmavam ter sido recrutadas para trabalhar na sua mansão.
Em 2018, o caso reativou-se com a reportagem do Miami Herald, onde foram publicadas novas informações sobre o arquivo do caso na década anterior. Por causa disto, Jeffrey Epstein foi detido em julho de 2019 por tráfico sexual de menores e conspiração, suicidando-se no mês seguinte na prisão.
Após o falecimento do magnata, o inquérito focou-se no seu braço direito, Ghislaine Maxwell, que foi acusada pela gestão operacional da rede entre 1994 e 2004 para recrutar, aliciar e preparar às meninas para o seu parceiro. O processo tomou um ritmo ainda mais vertiginoso com a denúncia de Virginia Giuffre em 2015 por difamação. No dia 3 de janeiro de 2024, as informações seladas à finalização do processo contra Maxwell revelaram-se por ordem judicial e permitiram conhecer mais celebridades relacionadas, como Bill Clinton, o ex-primeiro-ministro israelita ou Michael Jackson. A que namorara com Epstein foi condenada à prisão por 20 anos em 2022 pelos motivos prévios e perjúrio no processo de 2015.
Ficheiros de janeiro e detenção do ex-príncipe André
Até ao momento, continuam a aparecer novas informações pela Epstein Files Transparency Act assinada por Trump em 2025. Nela, libertam-se arquivos inéditos, com mais de 3,5 milhões de páginas, 2.000 vídeos e 180.000 fotografias. Esta lei permitiu que as autoridades de outros países tomassem medidas que antes eram impossíveis por falta de provas, como a detenção do príncipe André em 19 de fevereiro de 2026 pelas autoridades britânicas, sendo investigado por má conduta em cargo público e a sua vinculação aos processos contra duas das vítimas. André encontra-se atualmente em liberdade com movimentos vigiados, a aguardar que a Procuradoria decida se irá apresentar queixas formais com base nas provas dos ficheiros desclassificados.
Uma vida destruída
Muitas são as mulheres que tomaram a decisão de falar acerca de tudo o que sofreram nesses anos, mas o testemunho com mais solidez continua a ser o de Giuffre, que escreveu as memórias Nobody’s Girl, inicialmente intituladas The Billionaire’s Playboy Club, embora não tenham sido publicadas comercialmente por barreiras legais, confidencialidade e temor pela sua própria segurança até 22 de outubro de 2025, quase 6 meses após fazer a escolha de pôr termo à sua vida. Nelas, afirma ter-se encontrado com o antigo príncipe britânico em numerosas ocasiões, além de Epstein e outras raparigas, inclusivamente em conjunto. A dor da alma superou as palavras e ensinamentos que ela quis deixar, mas a consciência do seu testemunho alcançou justiça. Porque sob a perversão surge o início, mas também o fim do inapagável.
Em memória de Virginia Giuffre, 25/04/2025
Este artigo é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Fotografia de capa por: Virginia Roberts Giuffre
Escrito por: Reyes S. Sacramento
Editado por: Rodrigo Caeiro


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