A Europa refém do seu próprio cadeado

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A União Europeia gosta de se apresentar como uma fortaleza de valores. Democracia, solidariedade, direitos humanos. Mas quando chega a hora de agir, essa fortaleza revela-se muitas vezes um castelo com demasiadas chaves e demasiados porteiros. Basta que um deles se recuse a rodar a fechadura para que tudo fique parado. É isso que hoje acontece perante a guerra desencadeada pela Rússia contra a Ucrânia.

A regra da unanimidade em política externa funciona como um travão de mão permanentemente puxado. Foi criada para proteger soberanias, mas na prática tornou-se um instrumento de paralisia. Num momento em que a Europa precisava de responder como um punho cerrado, responde como uma mão aberta, onde qualquer dedo pode recusar fechar-se. A unanimidade transforma decisões estratégicas em reféns de cálculos nacionais de curto prazo, mesmo quando o custo dessa hesitação é pago em vidas humanas fora das fronteiras da União.

É neste contexto que países como a Hungria assumem um papel desproporcionado. O governo de Viktor Orbán age como quem puxa a ficha da tomada no meio da cirurgia. Não por ingenuidade, mas por escolha política. Dependência energética, afinidades ideológicas, chantagem negocial interna. Tudo se mistura numa estratégia que usa o veto como moeda de troca. A Eslováquia, alinhando-se ocasionalmente nesta lógica, reforça a sensação de que a política externa europeia é um coro, onde alguns cantam em falsete para se fazerem ouvir.

Do meu ponto de vista, este bloqueio não é apenas um problema técnico. É um problema moral e político. A União Europeia nasceu da promessa de que a força do coletivo protegeria os mais frágeis e conteria os mais agressivos. Quando falha em sancionar quem invade, bombardeia e tenta apagar um país do mapa, está a falhar consigo própria. Está a dizer que a conveniência económica de alguns pesa mais do que o direito à autodeterminação de um povo inteiro.

O futuro da ajuda à Ucrânia e da política externa europeia depende de uma escolha clara. Ou a UE continua prisioneira da unanimidade, aceitando ser um gigante económico com pés de barro político, ou avança para mecanismos de decisão mais ágeis e democráticos, como a maioria qualificada em matérias estratégicas. Não se trata de esmagar minorias, mas de impedir que minorias bloqueiem o interesse comum.

A guerra entre Rússia e Ucrânia já dura há quatro anos e entrou no seu quinto. Cada atraso, cada sanção adiada, cada pacote bloqueado é mais um sinal de fraqueza enviado para Moscovo e para o mundo. A Europa não pode continuar a ser um semáforo eternamente amarelo enquanto tanques avançam e cidades ardem. Se quer ser um ator global com consciência social e responsabilidade histórica, terá de escolher entre o conforto da indecisão e o risco da liderança.

Porque num barco em plena tempestade, quando uma parte do casco começa a meter água, não se passa semanas a discutir quem é responsável pela tábua mal colocada. Estanca-se a infiltração, reforça-se a estrutura e mantém-se o navio à tona. As contas e as culpas tratam-se depois.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Fonte da imagem de capa: Gerada por IA

Escrito por: Ricardo Farto

Editado por: Maria Francisca Salgueiro

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