Parabéns: Acabaste de te tornar uma pessoa “de…”

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Entras na universidade com 18 ou 19 anos e uma mala meio vazia. Três anos depois, sais com um diploma, algum cansaço crónico e uma nova identidade pronta a usar. Já não és só “a Maria” ou “o João”. Agora és “de Direito”, “de Engenharia” ou “de Sociologia”.

Repara no detalhe, ninguém diz “estudo”. Dizemos “sou”.

É fascinante. Em poucos semestres, uma instituição consegue fazer aquilo que anos de adolescência não resolveram. Dá-nos uma personalidade relativamente coerente, argumentos sofisticados e uma opinião forte sobre coisas que, honestamente, nem sabíamos que existiam.

A universidade não forma apenas profissionais. Forma versões socialmente melhoradas de nós.

Aprendemos a falar de determinada maneira. A usar palavras que antes nos pareceriam pretensiosas. A citar autores estratégicos, mesmo que só tenhamos lido o resumo. A franzir o sobrolho no momento certo durante um debate. Subtilmente, vamos percebendo o que é considerado “inteligente” naquele ecossistema.

Bourdieu chamava a isto capital cultural, não é só o que sabes, é a forma como sabes. É o sotaque académico, o vocabulário certo e a confiança certa. Não se aprende num manual, aprende-se por osmose.

O estudante de Economia começa a ver o mundo em gráficos invisíveis. O de Direito começa a ouvir cláusulas contratuais até em discussões de grupo. O de Sociologia começa a desconfiar de tudo, especialmente quando alguém diz “isso é natural”. Cada curso oferece uma lente e, depois de a colocarmos, começamos a acreditar que sempre vimos assim.

A universidade não forma apenas profissionais. Forma maneiras específicas de existir.

Claro que não é um processo neutro. Alguns chegam já a falar fluentemente este “idioma académico”. Outros passam os primeiros semestres a tentar perceber regras que ninguém explicou, como participar sem parecer arrogante, como escrever um e-mail que não comece com “Olá professora”, como transformar uma opinião num “argumento fundamentado”.

A universidade transforma, mas também seleciona quem se adapta melhor à sua versão de “boa identidade”.

No final há o ritual, o diploma. Um pedaço de papel que não certifica apenas competências técnicas, certifica que passaste pelo processo, foste moldado e aprendeste o código.

É por isso que a pergunta “O que vais fazer depois?” assusta tanto. Não está só em causa um emprego. Está em causa a personagem que construíste durante anos. Se não fores “engenheiro”, quem és? Se não fores “advogada”, o que sobra?

Talvez a grande ironia seja esta, vamos para a universidade para escolher um curso. Saímos com algo muito maior, uma identidade que agora nos escolhe a nós.

A universidade não forma apenas profissionais. Forma pessoas “de”.

Fonte da imagem da capa: Freepik

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Escrito por: Matilde Lima

Editado por: Margarida Simões

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