Crescemos a ouvir que devemos sonhar alto. Dizem-nos que para atingir a liberdade e ter estabilidade no futuro é necessário tirar uma licenciatura, posteriormente um mestrado e possivelmente um doutoramento. Prometem-nos que todo o esforço será recompensado. No entanto, a realidade é que, nos dias de hoje, muito jovens recém licenciados deparam-se com sonhos grandes a competir com salários pequenos e contas cada vez maiores.
Trabalhar na área para a qual estudámos tornou-se um privilégio. Trabalhar com dignidade, quase exceção. Hoje em dia, muitos jovens aceitam empregos precários, estágios intermináveis ou funções diferentes da sua formação, ficando a exercer cargos para os quais têm qualificações muito acima daquilo que é solicitado. Aceitam trabalhar frustrados e indignados, não por falta de ambição, mas por necessidade. Ficar parado não é uma opção.
O problema não é sonhar alto, é viver num sistema que encara a frustração e a exploração como sendo algo normal. Continuamos a ser incentivados a agradecer pela “oportunidade” de termos um trabalho, como se o privilégio de trabalhar fosse suficiente para compensar a precariedade. Normaliza-se o cansaço e romantiza-se o esforço excessivo, quando o que realmente existe é falta de alternativas e novas oportunidades. Sonhar grande, nestas condições, torna-se um ato quase revolucionário.
Os pequenos salários não são apenas números. Estes pequenos salários afetam jovens qualificados que não conseguem sair da casa dos pais e vivem insatisfeitos, profissionais talentosos que acabam por abandonar áreas que gostam por necessidade de sobrevivência e adultos que vivem constantemente com stress a nível financeiro. Trabalhar muito e receber pouco cria angústia, corrói a motivação e o sentido de propósito.
Apesar de tudo, continuamos a sonhar. Desistir pode sair mais caro, mas sonhar não devia significar sobreviver. Cada vez mais aceitamos menos do que merecemos, seja por medo ou conformismo, parece que uma parte de nós aprendeu a contentar-se com pouco. O problema não está em ganhar pouco durante algum tempo, mas em tornar-se um hábito e acreditarmos que é tudo o que podemos e conseguimos alcançar.
Talvez o verdadeiro desafio seja encontrar equilíbrio: continuar a sonhar, mas lutar por melhores condições sem perder quem somos. Sonhos grandes levam tempo a conquistar, é necessário esperar sem nunca desistir. Não se trata de escolher entre aquilo que amamos fazer e estabilidade, mas sim recusar a ideia de que só uma delas é possível.
No fim, uma sociedade que nos pede sonhos grandes desde que somos pequeninos, devia estar preparada para oferecer condições e oportunidades à altura. Porque talento sem reconhecimento gera frustração e ambição sem recompensa gera desistência. Sonhar não devia ser um privilégio e viver a fazer aquilo que gostamos não devia ser um ato de coragem.
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Fonte da imagem da capa: Gerada por IA
Escrito por: Patrícia Simões
Editado por: Íngride Pais


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