Um Corpo sempre em Dívida

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O que acontece aos melhores atletas quando aquilo que os move também os começa a cansar? O meu nome é Soraia Amaral e escrevo Confissões de uma Ansiosa, uma crónica sobre aquilo que nem sempre se diz em voz alta, onde a inquietação ganha forma e a ansiedade se torna escrita. Hoje, escrevo sobre o grande dilema de todos os atletas, pois por trás de toda a medalha, existem sacrifícios enormes.

Caro leitor, se após a introdução ficou cativado, é porque é ou foi desportista. Mas se não é, e nem sequer aprecia desporto, acredite em mim, os assuntos a serem tratados neste artigo aplicam-se a qualquer pessoa que tenha um hobby ou paixão que leve muito a sério, desde o futebol até à costura (nada pessoal, atenção).

A minha necessidade de escrever um artigo como este vem de 6 anos de piscina, seguidos de quase 13 anos de Taekwondo como atleta de competição, e uma mente ainda mais cansada que o corpo. O que mais me fascina é mesmo esse fator, aliás – após horas e horas de treino, a minha mente consegue, por vezes, sair mais cansada do que o meu corpo.

Sei que isto se torna contraditório, porque o desporto serve para recarregar baterias e para deixar de pensar, por algum tempo, em tudo o que é exterior. Eu prometo, eu consigo fazer isso. Mas, para mim, há dias que só me causa mais stress. Não levem isto como uma publicidade a “não façam desporto, faz mal”, porque o desporto faz super bem – falemos antes de desporto de competição.

Competir é como ser exigente na escola/faculdade – tu crias objetivos, que se não forem alcançados, sentes-te péssimo e insuficiente. E o ponto acrescido do desporto é que é algo voluntário, ou seja, “como assim sofres por algo voluntariamente, e nem sequer alcanças o que queres?” – é um bocado humilhante.

Há aspetos muito positivos, como é óbvio. O desporto trouxe-me uma organização, disciplina e mentalidade extremamente positiva. Apesar de me considerar bastante inteligente, eu não seria a aluna que sou sem esta vida de desportista. O ter que arranjar tempo para ir às aulas, estudar, treinar, ler, descansar e ter vida social requer um esforço da parte de meros jovens, que por vezes só queriam se deitar na cama e dizer “hoje não” – isso não é possível, hoje sim.

Mas como tudo, há lados negativos (e não são poucos). O desporto criou em mim uma competição comigo mesma de perfeccionismo extremo, ansiedade incontrolável e comparação constante com terceiros. Posso afirmar que, se não fosse o desporto, também não teria a ansiedade que tenho hoje. Todos estes anos de competições nacionais e internacionais trouxeram-me inúmeras maneiras de como lidar com a ansiedade pontualmente, o que ajuda, mas não para a vida – apenas aceitei o destino. É não poder sair da rotina, ir como todos os outros ao café ao final do dia, ou estudar mais tarde – o nosso tempo é muito contado. Acabamos por ser perfeccionistas em tudo, e quem tudo quer nada tem – o famoso esgotamento.

“Ah porque corpo são mente sã”. É das coisas mais cómicas que me podem dizer. Adoro ter um momento de evasão da faculdade, das zangas com os amigos, daquele atraso nos transportes que me estragou o dia, a poça que pisei e molhou as minhas calças todas. Mas esse momento de evasão só serve para ter a cabeça livre para novos dilemas: perdi flexibilidade, estou sem força, não paro de me desequilibrar, a competição é daqui a duas semanas, estou lesionada – no fundo, passamos o tempo a choramingar.

Ainda assim, fiz os amigos mais genuínos. Aqueles que me deixam nervosa quando competem, que me colocam a fazer figas durante as suas atuações, que recebem e dão os abraços mais fortes entre todo o desespero. É, no fundo, viver algo que amamos, por escolha e por paixão, com pessoas iguais a nós nesse aspeto. É aprender a lidar com várias personalidades, porque somos uma equipa. É encontrar as melhores formas de nos acalmarmos nos momentos mais desesperantes.

Obrigada, desporto (taekwondo), por me teres ensinado a ter compromissos comigo mesma, a superar-me. Por me salvares e fortaleceres. Há dias que só penso em fugir de ti a sete pés, que não aguento mais a pressão que causas em mim e que estou farta de chorar por ti. Mas não imagino a minha vida sem ti, e por muito que pense em desistir, não encontro um momento certo para o fazer. Haverá sempre uma “última competição” – um limite. Mas, por alguma razão, sempre que essa acaba, e eu afasto-me, sinto-me mais ansiosa que nunca. E se eu mudar quem sou sem ti? Acho que, todos os atletas concordam comigo nisto: ainda que toda a nossa vida como atletas seja um dilema, entre desistências e momentos fracos, quando começa a cansar inicia o nosso maior dilema.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Fonte da imagem de capa: fonte própria

Escrito por: Soraia Amaral

Editado por: Rita Luís

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