(Ainda) Estou politicamente cansada

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A saúde mental de uma estudante de Relações Internacionais.

Desde sempre que sonhei com o mundo, de uma forma ou outra, idealizei que o meu propósito sempre foi conhecer mais: mais pessoas, mais culturas, mais países. Para além do sonho comandar a minha vida, tinha ainda em mim a paixão imensa em debater, em questionar e, sobretudo, em aprender.

Não foi difícil encontrar uma licenciatura que se adequasse a todos estes sonhos. Relações Internacionais. O curso onde tudo parece possível, mas onde nos sentimos tão pequenos.

Existe uma certa amargura em estudar o quotidiano. Muitas vezes questiono-me em relação aos nossos propósitos e missões enquanto sociedade. Outras tantas, encontro-me frustrada pela inércia e falta de empatia por parte de quem nos governa ou representa.

Sempre tive vergonha em admitir que Relações Internacionais é, para mim, um curso extremamente cansativo. Mas não. Não é pelas frequências e cadeiras (cadeirões), pelas horas sem dormir ou pelos trabalhos, mas sim pela realidade que é estudar esta área.

Estudar RI envolve cadeiras em que, por vezes, abordamos temas como: os piores atos de tortura, as piores prisões do mundo, genocídio, entre muitos outros. Para além de falarmos destes assuntos, muitas vezes, acabamos por procurar e ver imagens sobre eles.

Lembro-me que o meu primeiro ano de licenciatura foi extremamente intenso e exigente a nível psicológico. Muitas vezes, passava o dia inteiro a ouvir e a falar de catástrofes. Chegava a casa e passava o resto do dia a ver notícias, a ler livros e a ouvir comentários dessas mesmas desgraças. Não sabia distanciar-me de RI e, rapidamente, tudo passou a ser RI.

A verdade é que quando se fala em saúde mental no Ensino Superior, fala-se de testes, da falta de tempo e da falta de dinheiro, entre muitos outros problemas. Mas, poucas vezes, falam sobre a falta de estabilidade e saúde mental em relação aos conteúdos do próprio curso.

Dos poucos artigos que relatam este fenómeno, a maioria concentra-se em licenciaturas na área da saúde, como a Medicina, a Psicologia, a Enfermagem, entre outros.

Acho curioso que não se aborde esta temática em licenciaturas de áreas sociais, especialmente, Relações Internacionais, mas também Ciência Política e restantes licenciaturas do nosso instituto.

A verdade é que não lidamos com assuntos como a “morte” diretamente, não estamos numa situação de urgência onde temos de salvar alguém que tem segundos de vida. Mas, estamos numa situação de urgência de quem analisa fenómenos de mortes constantes, violações ao Direito Internacional que se traduzem em milhares e milhares de perdas da vida humana e não temos os meios para o impedir.

Nunca quis falar, e muito menos, escrever sobre este assunto. Confesso que sempre vi esta questão como um sinal de fraqueza. De quem não estava no curso certo e por vezes com medo de ser julgada por “ser demasiado sensível”.

Confesso que sim, sou demasiado sensível, sempre fui e certamente continuarei a ser por mais algum tempo. Penso demasiado nos problemas do mundo, mas acredito, e sei, que não sou a única.

Tenho em mim todos os sonhos do mundo, o sonho de poder ajudar os que mais precisam, e salvar todas as vidas que conseguir. O sonho, completamente idealizado, de qualquer estudante de RI. É por sonharmos demasiado alto que muitas vezes acabamos extremamente frustrados por sentirmos que, afinal, em RI, nem tudo é possível.

Atualmente frequento o segundo ano de licenciatura e já começo, de uma forma mais saudável, a lidar de forma diferente com o mundo que nos rodeia. É em pequenas ações que volto a sentir que tudo faz sentido. Quando ajudo um colega, quando estou em núcleos que impactam as pessoas, ou num simples evento.

Resolve tudo? Não.

Mas sinto que todos nós mudamos um bocadinho do mundo todos os dias. Acredito que até sentados a apanhar sol na Praça Monsanto, numa pequena conversa, numa troca de planos e objetivos, estamos a crescer. Mudamos algumas das nossas posições políticas e lutamos tanto por outras.

Sim, estou politicamente cansada de notícias, de guerras, de mortes, de RI. Não tanto como estava, é verdade. Há dias difíceis? Há. Mas há dias em que tudo volta a ganhar sentido, num sorriso, num abraço, numa aula. Rapidamente volto a acreditar que tudo é possível. Volto a perceber que o sonho continua e continuará sempre a comandar a minha vida.

“You all have a little bit of ‘I want to save the world’ in you, that’s why you’re here in college. I want you to know that it’s okay if you only save one person, and it’s okay if that person is you.”

Para quem precisar:

Linhas de crise para apoio à saúde mental:

Aconselhamento psicológico SNS24 – 808 24 24 24

SOS Voz Amiga – 213 514 545 | 912 802 669 | 963 524 660

Conversa Amiga – 808 237 327 | 210 027 159

Vozes Amigas de Esperança de Portugal – 222 030 707

Telefone da Amizade – 222 080 707

Voz de Apoio – 225 506 070 | sos@vordeapoio.pt

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Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Escrito por: Marta Barbeitos

Editado por: Leonor Oliveira

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