O mundo social de Pandora: uma reflexão

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James Camoron, o realizador e a mente por detrás do universo de Pandora, fez algo raro nos filmes de sci-fi: um número elevado de personagens femininas fortes, tanto física como mentalmente. Como a personagem de Jake Sully afirma, no terceiro filme: “Este mundo é muito mais profundo do que consegues imaginar”.

Avatar não é apenas um franchising de filmes visualmente interessantes. O diretor conseguiu construir um mundo maravilhoso que, em 2009, depois do lançamento do primeiro filme, gerou, à audiência, a “Síndrome de Depressão Pós-Avatar”. Um fenómeno emocional e psicológico não clínico em que os espectadores experienciaram tristeza, saudade e insatisfação com a realidade, após assistirem o filme. Se ainda não viram todos os filmes, aviso, desde já, que este artigo está carregado de spoilers.

Para quem não conhece, os “Na’vi” são os habitantes nativos de Pandora, criaturas com cerca de 3 metros de altura de pele azul. Possuem uma forte ligação espiritual com a natureza, garantida pelo “tsaheylu” – uma conexão neural que lhes permite conectar-se a animais, uns aos outros e até a árvores sagradas, gerando um elo físico e espiritual.

Tsaheylu. Fonte: Pinterest

No primeiro filme, somos apresentados às duas personagens principais: Jake Sully e Neytiri. Jake é um humano num corpo de um Na´vi e Neytiri pertence ao clã “Omatikaya”, a tribo da floresta. O primeiro dia que Jake passa sozinho em Pandora foi acidental, tendo-se perdido do resto da equipa, enquanto era perseguido por animais.

Quando Neytiri o vê, prepara-se rapidamente para o matar, todavia, uma semente da Árvore das Almas pousa em cima da sua flecha, pelo que ela recua, mostrando-nos que a mesma possui uma grande ligação a Eywa e que respeita, acima de tudo, a sua vontade.

Fonte: Pinterest

Eywa é deusa dos Na´vi, o centro da espiritualidade, uma entidade que representa a força vital de Pandora, funcionando como uma consciência coletiva, conectando todos os seres vivos do planeta. Mais tarde, Neytiri explica que essas sementes são espíritos puros, representando a vontade de Eywa.

How James Cameron Feels About The Theory That Avatar's Eywa Is A  'Benevolent Skynet'
Árvore das Almas. Fonte: SlashFilm

Assim, esta salva-o e leva-o para a sua tribo, deixando os seus pais julgarem-no. Neytiri é princesa e filha do líder Eytukan e da Tsahìk, chefes da tribo, tida como uma guerreira feroz e perspicaz. Quando Tsahik proclama que seria Neytiri a explicar a forma de viver da floresta a Jake, ela contesta- não foi, propriamente, amor à primeira vista.

Agrada-me a visão de James Cameron, quanto ao romance entre os protagonistas. Neytiri apenas se deixa apaixonar por Jake depois de ele mostrar, vezes e vezes sem conta, o seu valor e que “vê”, verdadeiramente, o povo Na´vi. Mesmo após este passar nos testes que o tornaram um do povo, Neytiri sentiu-se traída ao descobrir que este sabia do plano “da gente do céu” (os humanos), de invadirem Pandora.

Jake Sully/Relationships | Avatar Wiki | Fandom
Jake Sully e Neytiri, Fonte: Avatar Wiki

Quando os humanos, consequentemente, bombardearam Hometree, o seu lar, Neytiri deixou tanto Jake como Grace para morrer. Estes teriam sido feitos “prisioneiros”, amarrados enquanto os Omatikaya tentavam proteger a sua casa.

Mesmo depois de Neytiri ter defendido Jake contra Tsu’tey- o próximo na linha de sucessão para Olo’eyktan e seu prometido – instala-se um conflito, quando se descobre que Jake e Neytiri tinham estabelecido o vínculo de acasalamento através do tsaheylu, na presença de Eywa, na Árvore das Almas. Este ato significava que Neytiri não poderia acasalar novamente, colocando em risco a sucessão do seu clã.

Avatar HD Movie Wallpaper: Epic Scene from Pandora's Battle
Fonte: Wallpaper Abyss

Esta escolha, feita no primeiro filme, mostra a força dos valores de Neytiri, que não se deixou levar pelos seus sentimentos por Jake, uma vez que a sua lealdade foi para com o seu povo e por Eywa, mesmo depois de ter ido contra o destino que tinham escolhido para ela.

Neytiri, Fonte: Pinterest

Neytiri só o aceita quando Jake regressa como Toruk Makto. Este é um título lendário na cultura Na’vi, concedido a quem doma o temido Leonopteryx (Toruk), o maior predador aéreo de Pandora. Quem o voa é um líder, símbolo de unidade e força espiritual que surge em tempos de crise para unir os clãs, sendo ele o sexto na história Na´vi a alcançar tal feito. Só assim este prova o seu valor, compromisso e lealdade a Neytiri e ao povo, mostrando que Eywa o escolheu, mais uma vez.

Toruk Makto. Fonte: Pinterest

Neytiri não possui um sentido materno ou emocional convencional, apesar de já ser mãe no segundo e terceiro filmes. Ainda que sejam as Na´vi a terem os bebés, o encargo de educar e proteger as crianças recai também no pai e, a nível geral, na tribo inteira. Não existem papeis de género assentes em Pandora, além da estrutura dual entre o Olo’eyktan, o chefe guerreiro masculino e Tsahik, a líder espiritual feminina, apesar de ambos serem guerreiros.


“Há maneiras diferentes de uma mulher ser forte”, afirma James Cameron enquanto explica que deu uma especial atenção às personagens femininas em “Avatar: O Caminho da Água” para moldar a história. 

Temos Neytiri, habilidosa guerreira, guia e parceira de Jake Sully; Mo’at Tsahik, do clã Omaticaya e mãe de Neytiri, sendo a voz da sabedoria e conexão com Eywa; Kiri, filha de Grace Augustine, nascida Na’vi pela vontade de Eywa; Ronal, líder espiritual do clã Metkayina e esposa de Tonowari; Tsireya, filha de Ronal e Tonowari, mergulhadora habilidosa do clã Metkayina; e Varang, a sádica vilã do terceiro filme, assim como Olo’eykte e Tsahìk do clã Mangkwan.

Ronal. Fonte: Pinterest

Todas elas com profundidade emocional, são figuras fundamentais no desenvolvimento da trama. Kate Winslet – atriz que dá forma a Ronal -, disse, numa conferência, que o que mais a atraiu para o projeto foi a qualidade destas personagens: “Jim sempre escreveu para mulheres, personagens que não são apenas fortes, mas líderes, que lideram com o coração, com integridade, que defendem a sua verdade, assumem o seu poder”.

Um dos momentos mais marcantes desta realidade foi quando Jake e Neytiri suplicam por abrigo aos Metkayina, e as duas personagens femininas têm um momento de tensão, pelo que Jake pede desculpa pelo comportamento de Neytiri e esta, no mesmo instante, diz “Não peças desculpas por mim”. Momento marcante foi também quando, na batalha final, Ronald vai para combate em trabalho de parto mesmo depois do seu marido a aconselhar a ficar para trás. Ela grita “Eu voo”. 

Uma discussão interessante que encontrei na internet foi a morte de Ronald, no terceiro filme. Disseram que Neytiri foi fria e cruel com ela nos seus últimos momentos, mas eu não vi nada disso. Somente duas guerreiras, mães e líderes dos seus clãs, a fazerem o correto. Neytiri protege Ronald e ajuda-a a dar à luz. Depois do parto esta pede que Neytiri prometa que proteja a sua filha, ao que ela concede e, contra todas as probabilidades, Pril sobrevive à batalha sobre o seu cuidado.

O mundo em Pandora é vasto e lindo. O diretor fez um trabalho incrível ao conseguir que a audiência se conecte com os Na´vi e torça por eles, na sua luta contra os humanos. Com isto, podem questionar o porquê da minha análise ser focada apenas nas personagens femininas.

Kiri e Tsireya. Fonte: Pinterest

A realidade é que a maior parte dos filmes falha, redundantemente, nesta tarefa, sobretudo os de ação, enquanto Avatar possuí uma mão cheia delas. 

Ter no ecrã personagens fortes, em que as meninas se consigam rever e seguir os seus ensinamentos, é extremamente importante na nossa sociedade moderna, pois servem como exemplos, assim como o seu marco muito mais profundo: a mudança das nossas expectativas, enquanto audiência, quanto à construção destas personagens em filmes futuros.

Ikeyni. Fonte: Pinterest

James Cameron prova que não é difícil criar uma personagem feminina com que o público se conecte, pelo que o fez inúmeras vezes. Nem é que seja preciso uma diretora realizar o filme. Apenas é necessária uma mente aberta e um olho atento para construir uma história onde homens e mulheres possuem o mesmo peso no desenrolar da trama. 

Fonte da imagem de capa: Pinterest

Escrito por: Sara Reis

Editado por: Cristina Barradas

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