No início, quase ninguém repara. A casa é a mesma. As paredes continuam de pé, as janelas abrem, a luz entra de manhã. Não há nenhum incêndio, não há gritos, não há um momento em que se possa dizer: foi aqui que tudo mudou.
Há apenas uma pequena decisão prática. Uma troca de fechadura. Dizem que é por segurança.
A nova chave é diferente, mais pesada. Dizem que é mais moderna, mais eficaz. Que a antiga já não respondia às ameaças do mundo lá fora. Alguns estranham, outros encolhem os ombros. Afinal, todos continuam a poder entrar.
No primeiro dia, nada acontece. Depois, vão surgindo pequenas regras. Nada de especial. Apenas alguns avisos, horários, limites.
A casa precisa de ordem, dizem. Há demasiado barulho nos corredores. Demasiadas pessoas a circular sem propósito.
Alguns quartos começam a ser fechados. Temporariamente. Para reorganização. Não é pessoal. É necessário.
Quem nunca entrou nesses quartos acha exagero a preocupação. Quem lá vivia começa a sentir um frio estranho, mas dizem-lhe que é impressão.
Aos poucos, muda também a linguagem. Já não se fala tanto em convivência, fala-se em disciplina. Já não se fala em direitos, fala-se em merecimento. A casa não expulsou ninguém – repete-se isso muitas vezes – apenas passou a exigir mais de quem lá quer estar.
Há quem se sinta finalmente ouvido. A casa parece agora ter regras claras. Há um alívio inicial, uma sensação de controlo recuperado.
“Finalmente alguém tomou decisões. Finalmente alguém fechou a porta.”
Mas a casa começa a encolher.
Os corredores parecem mais estreitos. As conversas mais curtas. O silêncio mais pesado. As pessoas aprendem a falar baixo, não por medo explícito, mas por hábito. Há temas que deixam de surgir à mesa. Não porque sejam proibidos, mas porque dão demasiado trabalho.
Quem questiona a nova organização é acusado de ceticismo. “A casa está melhor”, dizem. “Nunca esteve tão arrumada.” E é verdade: há menos conflito visível. Menos diversidade. Menos ruído.
A casa funciona.
Só que já não acolhe.
Um dia, alguém tenta entrar e não consegue. A chave deixou de servir. Não houve aviso. Apenas uma atualização do sistema. Dizem que é para proteger quem está lá dentro. Alguém comenta que talvez aquilo esteja a ir longe demais. Respondem-lhe que a alternativa seria o caos.
Nesse momento, já é difícil distinguir proteção de confinamento.
O mais curioso é que ninguém roubou a casa. Ninguém a destruiu. Ninguém a atacou de fora. A casa mudou por dentro, de pouco a pouco, sempre com promessas de estabilidade.
Quando alguém finalmente diz, em voz alta, que talvez aquilo já não seja a mesma casa, respondem-lhe com estranheza: “Mas está tudo igual. O problema és tu.”
Só no fim se percebe que não foi a casa que mudou. Foi a ideia de quem podia viver nela.
E é nisto que a democracia se transforma quando a extrema-direita ganha.
Não com um estrondo, mas com uma fechadura nova. Não com violência imediata, mas com uma normalização da mesma. Não porque o país quis perder direitos, mas porque aceitou trocá-los por uma sensação efêmera de ordem.
O problema nunca foi abrir a porta ao autoritarismo. Foi achar que ele só entraria se viesse aos gritos.
Fonte da imagem de capa: Pinterest
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Escrito por: Rita Luís
Editado por: Leonor Oliveira


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