Durante a madrugada do passado dia 28, Portugal foi atravessado pela depressão Kristin, que derrubou várias árvores, edifícios, postes e tudo o quanto mais apareceu à frente.
O distrito de Leiria, de onde sou natural, foi especialmente afetado por este fenómeno concentrando, juntamente com Coimbra, a maioria das mais de oito mil ocorrências registadas pela Proteção Civil. Foi, ainda, palco de cinco das sete mortes causadas pelo mau tempo em todo o país.
Confesso que, até ao momento, enquanto estudante deslocado, nunca senti grande aperto pela distância de casa. Mas, passar mais de um dia sem conseguir comunicar com família e amigos, tirando as conversas rápidas com os que tinham de sair da zona momentaneamente, sem saber a sua situação exata, as suas necessidades e se poderia ajudar de alguma forma, deixou-me numa ânsia que nunca pensei sentir.
Em tempos destes, temos a tendência de recorrer à comunicação social para perceber o que efetivamente se passa. Contudo, o esclarecimento sobre a situação da minha terra só agravou o meu estado de ansiedade.
Vi as ruas onde cresci tomadas por destroços e árvores caídas, os prédios por onde passei inúmeras vezes reconfigurados e os parques, onde brinquei em criança, irreconhecíveis. Vi autarcas a queixarem-se de abandono por parte do governo e pessoas a queixarem-se de abandono por parte das autarquias. No fundo, vi a falta de preparação que existe para o controlo de uma situação deste calibre. Tudo isto sem ver a minha família ou o estado da minha própria casa.
Brinca-se dizendo que Leiria não existe, mas durante as horas que correm é como se não existisse mesmo, visto que a maioria das casas ficou sem forma de contato, eletricidade ou até água e, mesmo assim, pode dizer-se que tiveram a sorte de não ficar sem teto, como tantas outras.
Em momentos assim, é importante agradecer a resiliência das populações e a força empática que surge com o aperto. No meio de tanto mal, organizaram-se distribuições de alimentos, água engarrafada e outro tipo de bens. Organizaram-se limpezas de estradas e outras zonas comuns, através da intervenção da Proteção Civil, articulada com o apoio popular que tiveram.
Resta agradecer aos que estiveram no terreno, apoiar os que muito perderam e reerguer as terras afetadas à sua beleza natural. Que fique, com esta história, a lição do que é preciso melhorar para que, no futuro, perante uma situação parecida, a prevenção seja reforçada e a atuação seja mais rápida e bem articulada.
A todos os que passam por isto, dentro ou fora de Leiria, muita força.
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Escrito por: Rafael Triães
Editado por: Leonor Oliveira


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