Dona Celeste
De carácter sisudo, pouco astuta
A filha era puta
E o filho era mudo
Antes de ser Dona, Celeste
Foi menina, foi mulher
Veio cedo para uma casa citadina
Aos cuidados de uma tia qualquer
Celeste perdeu a aula
Para logo se dedicar à faxina
Dizem que é por isso que o filho não fala
E a filha vende amor na esquina
Criticou a Trindade antiga
Outros tempos, outra senhora
Esquecera-se rápido, memória inimiga
Que só hoje é que a censura
Esquecera-se do passado vivido
Da guerra que lhe levara o falecido
Antes mesmo de ver o filho nascido
Com o destino de nunca vir a ser ouvido
Disseram que ‘ismos nunca mais
Não mais filhos crescendo sem os pais
Não mais caladas como animais
Queremos paz, agora chega
Daqui ninguém me leva
Não dou nem mais um passo atrás
Coitadas das Donas Celestes
Tão corrompidas na clarividência
A esquecerem-se agora de velhas
Não por Alzheimer, por conveniência
Porque o café soa a estrangeiro
E na rua de baixo é um entra e sai
Ouvindo por todo o lado o dia inteiro
Berrar “Só comigo é que isto lá vai”
Dona Celeste reza à noite no quarto
Por aqueles que não se fazem soar
E no altar que ergue a Jesus
Espera encontrar no voto em cruz
Uma nova forma de esperançar
Alguém que diga à Dona Celeste
Que não é por o arroz ser de ontem
Que a merda passa a cheirar melhor
Logo ela que cozinhava tão bem
Perdeu a mão no sal e no sabor
Fonte da imagem de capa: Pinterest
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representado as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Escrito por: Rodrigo Caeiro
Editado por: Leonor Oliveira


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