Será 2026 o novo 2016? 

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Com o começo de 2026, surgiu também a ideia de que este ano poderia ser o novo 2016. Mas será mesmo? Chamamos-lhe nostalgia, mas será esta uma forma de evitar a realidade do mundo no qual vivemos hoje em dia? Talvez.

A ideia de que 2026 é o novo 2016 tem circulado bastante nas redes sociais. Esta narrativa romantizada e nostálgica, em que é possível voltar a tempos mais simples do que aqueles que vivemos hoje em dia pode parecer viável, porém, não é real.  2016 é lembrado como um ano mais estável, em todos os sentidos. Desde esse ano que o contexto internacional político, económico e ambiental teve mudanças às quais é impossível ficar indiferente e, dessa maneira, a tentativa de voltar atrás no tempo pode surgir como alternativa à realidade.

Vivemos num mundo marcado pela instabilidade das relações internacionais, pela cancel culture e pelas alterações climáticas, cujas consequências estão cada vez mais fortes e visíveis. Apesar do caráter gradual dessas transformações, há uma década os seus efeitos estruturais ainda não eram, plenamente, evidentes. 

O uso da nostalgia como escape da realidade

Porque será que esta trend nasceu? Porque é que tanta gente está a aderir a este movimento? Estas são algumas perguntas que surgem quando olhamos para todos os vídeos, notícias e fotos sobre o mesmo. 

Cada vez mais, a nostalgia surge como um escape à realidade que vivemos hoje em dia. Desde a pandemia da Covid-19, até ao romper das guerras que ainda existem hoje em dia, o ser humano sentiu a necessidade de escapar a esta realidade, através desta ideia geral de voltar a um tempo mais simples. No entanto, será que 2016 foi assim tão descomplicado? Talvez não. Esta nostalgia toda acabou por apagar da memória das pessoas todo o mal que aconteceu em 2016: o início de crises humanitárias, instabilidades diplomáticas e uma crescente polarização política, que vieram moldar a década na qual vivemos atualmente. O problema em voltar a tempos nostálgicos não está em recordar o passado, mas sim em recordar apenas os aspetos positivos sobre o mesmo. 

Os problemas ambientais, políticos e económicos

Fonte: TVI

É difícil não referir o ambiente, quando falamos dos problemas das últimas décadas. As alterações climáticas são cada vez mais impactantes no nosso dia-a-dia, moldando os aspetos do mesmo ao pormenor, através das suas consequências, sejam estas o calor extremo ou as tempestades e outras catástrofes naturais que temos vivido nos últimos tempos. Estas crises ambientais não começaram apenas nesta década e são consequência direta de problemas anteriores a 2016. Mesmo neste ano, o planeta terra já dava sinais claros de exaustão. Até à data, este havia sido o ano mais quente de sempre. O aquecimento global já não era apenas uma ideia, mas sim uma realidade. Estudos científicos mostram que “pelo menos 50,5 milhões de pessoas foram afetadas por 32 secas intensas no período” entre 2015 e 2016, segundo o Escritório da ONU para a Redução de Desastres. Ambientalmente, 2016 foi um ano desastroso e não positivo, como esta ideia de nostalgia nos transmite. 

Além disso, o perigo político e as instabilidades existiam também nesta altura. Desde crises humanitárias, como refere a Organização das Nações Unidas: “O ano 2016 foi um desafio para a comunidade internacional, com a piora do conflito na Síria, apesar dos esforços para acabar com a guerra e aumento da violência e da insegurança no Sudão do Sul e no Iêmen“, dos discursos políticos autoritários e da polarização política, o mundo em 2016 mostra-se menos idealizado do que aquilo que recordamos. 

Será a nostalgia um privilégio?

Só consegue recordar este ano quem não foi vítima das consequências dos seus problemas. Nem todos vivemos 2016 da mesma forma. Como já referido anteriormente, para milhões de pessoas este ano esteve longe de ser perfeito. Desde crises ambientais a crises humanitárias, foram muitos aqueles que sofreram neste período de tempo. Ao referirmos vároas vezes que “2016 foi melhor”, corremos o risco de inviabilizar experiências de outros que não o viveram da mesma forma. É necessário ter em conta que a nossa visão do mundo – e, neste caso, deste período temporal específico -, depende maioritariamente da nossa posição no mundo e na sociedade.

Será então o contexto cultural, ambiental e político de 2026 assim tão mau quando comparado a 2016, ou simplesmente tendemos a esquecer-nos, de forma seletiva, dos aspetos desastrosos e sombrios de 2016? Esta nova trend pode ser vista como uma tentativa de evitar os problemas atuais do mundo e do contexto no qual vivemos.

Fonte da imagem de capa: Pinterest


Escrito por: Carolina Garcia


Editado por: Cristina Barradas

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