Segurança nacional: licença para matar? 

Escrito por

Este sábado, dia 24, um homem morreu durante uma operação de imigração nos Estados Unidos. Não morreu num assalto, nem numa rixa. Morreu numa ação administrativa do Estado. É esse o detalhe que devia impedir a notícia de passar incólume.

As autoridades falaram em ameaça, em necessidade e em protocolo. Falam sempre. As imagens e os testemunhos contam outra história, como tantas vezes antes. Entre a versão oficial e aquilo que os cidadãos veem, abre-se uma fissura perigosa.

Não é a primeira vez que a imigração mata. Em 2010, Anastasio Hernández Rojas morreu algemado, espancado e eletrocutado por agentes na fronteira da Califórnia. Em 2018, crianças foram separadas dos pais em nome de uma “política de dissuasão”. A linguagem muda, os governos alternam, mas o padrão repete-se: a imigração como espaço de exceção, onde aquilo que seria intolerável noutros contextos se torna administrável.

A Immigration and Customs Enforcement (ICE) apresenta-se como agência civil. No terreno, atua com a lógica da confrontação. Não gera processos, impõe uma certa presença. Não resolve situações, instala medo. Em bairros marcados pela precariedade, a chegada do Estado não significa proteção, mas sim alerta. A lei deixa de ser uma garantia e passa a ser uma ameaça.

Quando um homem morre numa operação de imigração, não estamos perante um erro isolado. Estamos perante uma escolha política. A escolha de tratar a mobilidade humana como perigo interno. A escolha de substituir procedimentos por força. A escolha (realço: nunca assumida, mas repetidamente praticada) de aceitar que algumas mortes são o preço da ordem.

As democracias raramente colapsam de forma espetacular. Desgastam-se. Um excesso aqui, uma versão oficial que não convence ali, uma morte que rapidamente se transforma em nota de rodapé. Até que a exceção se torna método e a violência passa a integrar o vocabulário institucional.

A fronteira mais perigosa não é a que separa países. É a que separa segurança de violência legitimada. Sempre que o Estado mata em nome da imigração, a pergunta deixa de ser quem está em situação irregular e passa a ser quem, afinal, ainda está seguro.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados. 

Fonte da imagem da capa: Forbes

Escrito por: Matilde Lima

Editado por: Rodrigo Caeiro

Deixe um comentário