Quando tudo à nossa volta nos diz o que vestir, encontrar o estilo pessoal torna-se um exercício de consciência e escolha.
Encontrar o teu estilo pessoal, no mundo globalizado e capitalista onde vivemos, tornou-se um verdadeiro desafio. Somos constantemente expostos a milhares de microtrends que se infiltram em todas as redes sociais, especialmente no Tiktok e Instagram, e que, apesar de durarem no máximo algumas semanas, têm um impacto financeiro e ambiental significativo. Essas tendências criam a ilusão de que precisamos dessa nova peça de roupa ou acessório para ser “aceito” pela sociedade, como aconteceu por exemplo com a trend dos Labubus, e o cleangirl core, levando a uma lógica de hiperconsumo. A verdade é que, após comprarmos aquela peça trendy, quase nunca nos sentimos satisfeitos. O prazer é meramente momentâneo e superficial, sendo que na maior parte dos casos o produto perde o encanto quando a febre da trend acaba.
É neste contexto que encontrar o estilo pessoal se torna essencial. Mais do que uma escolha estética, o estilo funciona como uma extensão externa de nós, da nossa essência e personalidade, e que nos permite demonstrar quem somos sem o dizermos diretamente. Conhecer o nosso estilo também nos auxilia a entender que tipo de roupas são (ou não) para nós. Assim, com este artigo, espero ajudar alguém a aprofundar o seu estilo de forma consciente e a resistir à pressão das trends efémeras.
- Tenta identificar no teu armário as roupas que mal vestes e as que adoras. Repara que tipo de tecidos tu aprecias mais, que tipo de palete de cores te sentes mais confiante a usar, que peças te deixam feliz e confortável. Isto ajuda a identificar os padrões de roupa que se repetem no dia-a-dia e, consequentemente, a perceber o que faz sentido comprar quando vais ao shopping, ou seja, o que realmente precisas e irás utilizar. A isto damos o nome de consumo consciente: uma arma contra o consumo excessivo e o desperdício promovido pelo sistema capitalista.
- Veste de acordo com o teu body type. Obviamente, esta não é uma regra rígida, mas vestir roupas que se encaixam no teu corpo é uma ferramenta inicial útil para compreender que tipo de silhuetas te favorecem e que te fazem sentir mais poderosa/o. Este processo não tem como objetivo corrigir o corpo, mas sim perceber que tipo de cortes e proporções dialogam melhor com o mesmo, incorporando uma tentativa de o compreender. Com o tempo, este conhecimento torna-se apenas mais uma referência, algo a que recorremos quando faz sentido, e não uma limitação à expressão pessoal.
- Não te limites ao tiktok e a trends para inspiração. Apesar de serem, por vezes, úteis, não devem ser a tua única fonte. Filmes, séries, o street style das celebridades, revistas e apps alternativas são ótimas para estimular a tua criatividade. Por exemplo, podes usar a app Pinterest como um moodboard e um exame de prática: passa um dia a analisar roupas, guarda as que gostas mais (independentemente da marca ou preço), e constrói inspirações de outfits no Canva. Assim, vai ser muito mais simples e eficaz obter noção do estilo com que mais te identificas: se é mais para o plano minimalista, maximalista, chique, colorido, conservador, entre outros. Dando o exemplo da minha experiência pessoal, o meu estilo próprio começou a ganhar forma quando descobri a série Gossip Girl. O estilo da Blair chamou muito a minha atenção: o seu statement accessory (a bandolete), as collants coloridas, as suas silhuetas definidas… O seu visual mostrava como ela era, ou até como ela desejava ser: preppy, estruturado e feminino, com uma essência ligada à disciplina e ao famoso old money. No entanto, não posso negar que o estilo da Serena também me inspirou, mesmo sendo quase o oposto do da Blair: uma espécie de boho-chic, caracterizado por tecidos leves e fluidos, camadas e botas. Esta personagem dava a sensação que o seu look “simplesmente aconteceu” (um elemento disso é o seu famoso “cabelo desarrumado”), que inevitavelmente a tornava hipnotizante e lhe dava imenso carisma. Desta maneira, com o tempo, percebi que não precisava imitar o estilo de nenhuma das duas, mas que entre o controlo da Blair e a liberdade da Serena, encontrei a minha própria expressão, uma espécie de meio-termo.

4. Utiliza os teus hobbies, interesses, personalidade e estilo de vida para construir o teu estilo. Se praticas muito desporto, podes optar por roupas que te oferecem conforto e funcionalidade, simultaneamente continuando a brincar com cores e texturas, se ressoar contigo. Se tens interesses culturais, como por exemplo filmes, séries, ou épocas específicas (por exemplo, os anos 2000), podes utilizá-los como referências, tal como eu fiz. Mas é importante saber interligar o teu estilo pessoal ao teu dia-a-dia. Criar uma coerência entre as ideias e a realidade que tu vives é essencial para te sentires verdadeiro no que vestes. De uma forma mais prática: eu, que experiencio a vida universitária, repleta de horários irregulares e deslocações constantes, involuntariamente adaptei a essência de Gossip Girl à minha vida real, criando outfits mais estratégicos, mas ainda aspiracionais.
5. “Trial and error”. Não, não vais descobrir o teu estilo pessoal do dia para a noite. Este é um processo que, honestamente, nunca acaba. É um caminho que ocorre através de experimentação e erros constantes, e, sobretudo, de habituação ao desconforto. Vai haver inúmeras vezes em que provavelmente vais sentir que estás a fazer “figura de urso”, apenas porque estares a usar uma peça que nunca usaste antes, por mais simples que seja. Pode também acontecer receberes críticas (construtivas ou não) acerca das roupas que escolheste para um jantar ou saída.
O importante aqui é concentrares-te no que tu achas que fica bem, quer agrade os outros ou não. Com o tempo, vais ver que, no fim, valeu a pena descobrir o teu estilo pessoal porque, no fundo, este processo é uma forma de te escutares e de desenvolveres a tua identidade.
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Fonte da Imagem de Capa: Pinterest
Escrito por: Luana Tomé
Editado por: Maria Francisca Salgueiro


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