O Jornal desacordo marcou presença na apresentação das mais recentes canções presentes na 60º edição do Festival da Canção 2026. No dia 22 de janeiro, tivemos ainda o privilégio de entrevistar alguns dos artistas que irão participar neste festival e de perceber quais são as suas expectativas para esta experiência, bem como os desafios e ambições que levam para o palco do Festival da Canção.
A nova edição da maior competição de música a nível nacional promete trazer uma grande diversidade de estilos, sonoridades e influências, refletindo a riqueza do panorama musical português e reforçando o papel deste festival como uma plataforma de inovação, descoberta e afirmação artística.
Jacaréu

Para começar, gostávamos de saber qual é a mensagem central desta canção? Existe alguma experiência pessoal por detrás da canção?
Eu costumo dizer que é uma canção de amor próprio e também de luta contra as pessoas que estão sempre a criticar-nos, sempre a falar mal. (Chatas, pá. Deixem-nos estar. Deixem-nos ser nós, pá.) A experiência pessoal, sim, bastante, ao longo da vida. Eu acho que se calhar todos nós, principalmente as pessoas que escolhem seguir os seus sonhos ou seguir a sua essência, acabam por ser criticadas. Eu acho que é natural, se calhar, no Ser Humano, criticar e ser criticado. Já tivemos dos dois lados. E, por isso, foi uma música que acabou por sair muito naturalmente.
E o que é que espera em relação à participação aqui no festival? Em termos de lançamentos, concertos, alguma previsão?
Em primeiro lugar, eu espero que seja uma grande aventura. Já estou a fazer muitos amigos e também já sinto que estou a ter muito mais divulgação do que alguma vez tive na minha vida. E, por isso, em primeiro lugar, eu espero que seja uma grande experiência. E, claro, se me puderem abrir algumas portas, agradeço.
O que é que o levou a fazer parte aqui do festival?
Intuição. Eu estava a gravar o meu álbum de estreia, que vai sair a seguir ao festival, e houve esta música que eu estava com o pressentimento que era uma música fixe para o festival. Então, decidi arriscar na submissão livre e, olha, cá estou.
Djodje e Mário Marta

Em primeiro lugar, gostávamos de perguntar qual é a mensagem central desta música. O que é que ela representa para vocês?
Djodje: A música chama-se “Pertencer” e a mensagem central tem a ver com empatia. Tem a ver com saber receber, tem a ver com diversidade. Portanto, a mensagem essencial da música tem a ver muito com isso, com o aceitar as diferenças.
Mário Marta: Na verdade, eu, complementando o que ele está a dizer, tem a ver com dignificar a raça humana. Onde quer que a gente esteja como povo, uma raça, é dignificar, é sabermos receber, é sabermos acolher. No fundo é sobre isso.
Como é que nasceu esta canção? Veio de alguma experiência pessoal ou alguma necessidade artística mais específica?
Djodje: A canção acaba por nascer das nossas próprias vivências, porque tanto eu como o Mário somos imigrantes aqui em Portugal e sempre sentimos a necessidade, e graças a Deus conseguimos, de fazer parte de Portugal. De pertencer e criar as nossas famílias aqui. No entanto, sabemos que muita gente às vezes não tem essa sorte. Então a canção sai dessa nossa própria experiência, enquanto pessoas que saem das suas terras natais para tentar a vida e criar um lar num país estrangeiro. Tanto acontece com pessoas aqui em Portugal como também com portugueses fora.
Mário Marta: Esta música no fundo é transversal a toda a gente que imigra. Quando chegamos numa terra que não conhecemos queremos ser bem acolhidos, bem recebidos, queremos ser integrados, não é? Queremos pertencer. E queremos pertencer naturalmente.
Marquise

Queríamos perguntar qual é a mensagem central da vossa música? E ainda, o que ela representa neste Festival?
Mafalda Rodrigues: Sobre letra e composição, eu tento sempre que toda a gente consiga identificar-se com a história que queira imaginar e ser pictórica na imaginação delas. Portanto, acho que é de livre interpretação e aquilo que eu componho é sempre daquilo que me rodeia e o meu contexto, portanto, para mim pode ter uma visão diferente da tua e por aí adiante.
E a nível da participação aqui no festival, têm alguma expectativa a nível de lançamentos ou até mesmo de futuros concertos?
Mafalda Rodrigues: Expectativa? Acho que toda a gente que participa vai ter, não é? Obviamente, lá está, estamos aqui num festival que é histórico e está na mente coletiva de todos os portugueses desde sempre. Vejo o Festival da Canção desde pequena com os meus avós, por exemplo, portanto. Acho que esperamos coisas boas e estamos ansiosos.
Por fim, o que é que vos levou a fazer parte de um festival? Houve assim algum momento em que foi mesmo um “sim, bora lá para a frente com isto”?
Miguel Azevedo: Fomos convidados um bocado à última hora e, pronto, tivemos assim um ligeiro compasso de espera só para pensar se efetivamente queríamos ou não. À luz da situação do que está a acontecer agora, não foi 100% um sim direto. Mas pronto, depois de pensar um bocadinho e, especialmente porque também não somos obrigados a ir depois para a Eurovisão, podemos só ficar no festival da canção e mostrar a nossa música, a partir daí, dúvidas ou não, aceitamos isto. Vamos fazer isto, pôr a cabeça em modo compor e trabalhar para agora estar a mostrar a música.
Nunca Mates o Mandarim

Sabemos que vocês assinaram um comunicado a afirmar que não iriam à Eurovisão caso ganhassem o Festival da Canção. Tiveram isso em mente ao escreverem esta canção?
João Amorim: A mensagem de crítica que esta música proporciona surgiu antes de, não antes do genocídio que está a acontecer, mas surgiu antes de toda esta decisão logística que nós não temos controlo absolutamente nenhum sobre. Por isso, eu diria que foi um pouco mais ao contrário, foi o nosso espírito crítico que nos motivou a juntarmos outros artistas. Também não partiu de nós essa organização, mas achámos uma iniciativa pertinente e justa. Por isso, eu diria as coisas exatamente ao contrário.
E, portanto, ainda sobre esta temática que é incontornável nesta edição do Festival da Canção e da Eurovisão, vocês já tinham a ideia que não iriam participar na Eurovisão participando do Festival da Canção desde o início?
Manel Dinis: Não. Nós, na verdade, isto era-nos um mundo um bocadinho alheio. Nunca seguimos muito atentamente, apesar de vermos com muito gosto e o ano passado com os NAPA, obviamente, que acompanhámos, mas nunca soubemos os meandros destas organizações. Portanto, não, não assumimos este desafio já com a ideia de um boicote, as coisas simplesmente desenvolveram-se para esse lado. E, bom, esperaríamos que não fosse assim, mas é o que é.
Gostávamos também de vos perguntar porque é que decidiram aceitar o convite dos NAPA? O convite dá-vos mais motivação para demonstrar a vossa arte, ou é uma pressão adicional?
João Campello: Acho que não nos traz, particularmente, nenhum tipo de pressão, acho que posso falar pelos três. Sentimos uma alegria boa, que nos motivou a fazer a canção também, porque a canção não estava construída antes, ainda revimos algumas que tínhamos no baú, mas acabámos por construir de raiz.
João Amorim: Os Napa sempre foram independentes, arrisco-me a dizer que até foram um bocado postos à margem, tanto do underground puro como do mainstream, e sempre tiveram que navegar esses dois mundos. E nós, enfim, sofremos também um bocadinho isso. E continuamos independentes, não temos editora, e acho que eles queriam que esse espírito fosse transmitido, e vai ser.
Gonçalo Gomes

Qual é que é o significado da canção que trazes ao Festival da Canção?
Eu acho que fala um bocado sobre aquela tristeza que nós sentimos quando não conseguimos alcançar algo que desejamos muito. Que não é o meu caso, porque estar aqui é um sonho, mas, no fundo, é para pessoas que se sintam assim e que se identifiquem com essa temática. Espero que gostem, espero que se identifiquem e que vamos celebrar a música, que é isso que importa.
Como é que foi o processo de composição da canção e porquê é que a decidiste escolher aqui para o Festival da Canção?
Assim, foi uma música que foi feita já desde o início a pensar no festival, nós queríamos algo assim impactante e um pouco mais explosivo e acho que foi isso que conseguimos, pronto, e estou mesmo ansioso para ver as reações e para ver o que é que a malta vai achar e curioso para ver como vai ficar a performance final, porque ainda não está tudo acabado.
Há semelhança de 12 artistas presentes nesta edição, Gonçalo Gomes decidiu assumir a posição renunciar a representação de Portugal na Eurovisão 2026 caso ganhe o festival, em protesto contra a participação de Israel. O jovem artista afirma manter a sua posição no assunto e acrescenta para sabia que este tema iria ser abordado, visto que, segundo o artista, “a presença de Israel é algo controverso”. Explica ainda “Eu participei no Festival porque, acima de tudo, é uma celebração da música portuguesa, eu acho que isso é o mais importante. Aliás, este ano, aquilo que está a acontecer é que o vencedor fica habilitado a ir, mas não precisa de ir. Ou seja, este ano é algo que está, de certa forma, despegado uma coisa da outra. Eu já sabia disso, já tinha lido o regulamento e foi já um pouco com essa mentalidade que eu concorri. Mas acho que é uma celebração da música portuguesa e acho que é um palco incrível para dar a conhecer a artistas emergentes, que é algo que eu acho que falta em Portugal. O Festival da Canção é algo que faz isso muito bem”.
AGRIDOCE

Qual é que é o significado desta canção para vocês? E como é que surgiu a ideia para a escrever?
Guida: Então, eu acho que, analisando a letra, a nossa música fala sobre a rotina, sobre a correria do dia-a-dia e o facto de nós queremos levar as coisas com calma e de as pessoas terem tempos diferentes e fases de vida diferentes. Não temos que nos comparar a ninguém. Principalmente na casa dos 20, nós estamos todos em fases diferentes. Uns estão a estudar, outros estão a casar, outros estão a ter o primeiro filho. Então, acho que nós não nos podemos comparar. E o importante é nós estarmos felizes onde nós queremos estar, seguir o nosso próprio ritmo, o nosso caminho. Acho que é essa a mensagem.
E como é que surgiu a ideia de participar no Festival da Canção? O que é que vos motivou a poder participar neste evento?
Joana Banza: Olha, nós fizemos esta música num writing camp e, pronto, basicamente tivemos lá a fazer a música e ficou por aí. Isto foi em março e, em setembro, a Guida lembrou-se de nos perguntar: “O que é que acham se mandarmos a nossa música para o Festival da Canção?”. Confesso que eu achei que ia ser impossível porque, na minha cabeça, era quase impossível chegarmos lá, mas a verdade é que no meio de tantas canções fomos escolhidas e há um motivo para isso. Acreditamos que a canção é boa e divertimo-nos imenso e é isso que nós também queremos transparecer às pessoas.
As AGRIDOCE são um projeto relativamente novo, portanto, queríamos saber se têm planos para fazer lançamentos, concertos, alguma coisa relacionada?
Sofia Jorge: Acho que assim como a música, nós somos um projeto que entrou aqui um bocado à tona, nós não sabíamos que íamos entrar. Então nós nunca pensámos assim num projeto que fosse mesmo já definido. O que importa é nós estarmos onde queremos estar, na verdade. E isto é tudo uma fase de teste, mas a música correu imensamente bem e nós temos carreiras a solo. Nada nos impede de fazermos música juntas e foi isso que aconteceu. O que está no futuro, logo se saberá.
Alexandre Guimarães, Catarina Maia, Filomena Cautela e Vasco Palmeirim

Por fim, tivemos a oportunidade de conhecer quais são as expectativas dos apresentadores face às mudanças que irão decorrer nesta edição do Festival da Canção e à diversidade de géneros musicais apresentados.
Qual é que é o género musical que vocês mais apreciam no Festival da Canção?
Alexandre Guimarães: Eu gosto muito, e vou puxar a brasa à minha sardinha, porque tenho um programa de autor na Antena 3 que vai mais para a música urbana e para o hip-hop português. Claro que quando vejo essas batidas mais de rua, fico sempre mais entusiasmado. Aliás, há aqui grupos que eu já passei muitas vezes no meu programa, mas não quero dizer que sejam os meus favoritos nesta edição. Acho que gosto muito do ecletismo, gosto muito que haja muita variedade musical. Acho que vai ser mais um ano em que comprovamos isso. Vamos ter da música tradicional até às batidas mais modernas e contemporâneas. Eu gosto muito de ver música ao vivo e quero ver como é que estas músicas ficam transformadas numa performance em palco.
Catarina Maia: Pronto, olha, eu sou muito fã e adepta de fado. Não vou ser portuguesa de gema, gosto muito, muito, muito. E sempre que existem intérpretes de fado ganham-me um bocado o coração. Eu gosto muito quando se vai à Portugalidade. Mas também gosto muito de Bateu Matou, por exemplo. Gosto muito de artistas que trazem outras sonoridades que acrescentam sempre. Acho que não te consigo dizer, mas sou fã de fado, isto pessoalmente. Como apresentadora, sou fã de todos [risos]. A música portuguesa é muito diversa, portanto, temos aqui uma grande montra para isso.
Este ano o Festival muda de casa para os estúdios da Valentim de Carvalho, e por isso queríamos saber que novidades este novo espaço poderá trazer?
Filomena Cautela: Sim…O espaço é enorme! Isto é, o palco é, eu diria que é capaz de ser 2 a 3 vezes maior do que o antigo. A plateia, isso com certeza, é 3 ou 4 vezes maior do que a antiga. Estamos a falar quase 400 pessoas ou mais que vão estar na plateia. Portanto, experimentem ouvir um aplauso de 400 pessoas para perceber o quão diferente é que vai ser. Acho que há muitas novidades e estamos a planear já algumas surpresas para a final. E vamos ver o que acontece.
Vasco Palmeirim: Temos feito na RTP onde o estúdio é grande, mas não permite muita gente a assistir. Eu acho que, estando na Valentim vai ser diferente e vai ter um ambiente mais, digamos, rockstar. Vai permitir mais gente, vai permitir um palco maior. Eu acho que vai ser um bocadinho mais, digamos, [estilo de um] musical. Além disso, permite sair um bocadinho daquela zona de conforto que já são muitos anos na RTP. É na Valentim um espaço que eu conheço muito bem. É lá que eu gravo o Joker. Vai ser muito engraçado. Portanto, as pessoas podem esperar algo novo. Também é bom que essa novidade também se estenda até nós.
Fonte da imagem de capa: Pedro Pina / RTP
Escrito por: Margarida Simões
Editado por: Maria Francisca Salgueiro


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