(Felizmente) Isto já não é um filme de zombies: “28 Years Later: The Bone Temple”

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Se o apocalipse já passou, o que é que resta para contar? 28 Years Later: The Bone Temple responde com um horror que já pouco tem a ver com o vírus.

O desacordo esteve presente no visionamento de imprensa do mais recente capítulo do franchise 28, um filme onde, no universo criado por Danny Boyle, o mundo já acabou há muito tempo. Em 28 Years Later: The Bone Temple o que resta é um horror lento, persistente e profundamente humano.

Por norma, janeiro é um mês desolador no que toca a cinema. E para mim tem sido. Duas semanas do 2026 e as minhas idas ao cinema foram para ver “A Criada” e “Greenland”… E atenção, estou agradecida: aos meus pais, em primeiro lugar por manterem viva a tradição de irmos ao cinema todos os fins-de-semana (mesmo quando, pelos vistos, mais valia não ir) e em segundo lugar, por não ter sido eu a pagar.

Mas após o The Bone Temple posso oficialmente afirmar com confiança: A maldição de janeiro foi quebrada.

A melhor forma de explicar o quão em choque fiquei é o facto de que tentei escrever umas notas rápidas imediatamente a seguir a sair da sala de cinema, mas estava mesmo tão impactada que tudo o que consegui escrever foi uma palavra pouco digna de ser aqui citada (eu sei, classy). Essa acabou por ser a minha review no Letterboxd; aqui, vou optar por organizar o impacto inicial numa reflexão mais séria, regrada e, claramente, muito menos lacónica.

Inserido no universo inaugurado por 28 Days Later, mas longe de procurar replicar a energia nervosa que definiu os primeiros filmes da saga, The Bone Temple propõe um olhar mais inquietante e está interessado em dissecar e espetacularizar um horror que, ainda que dentro do franchise, já pouco tem a ver com o vírus. Este novo capítulo possui um novo tom e faz novas (e dicotómicas) perguntas: Até onde pode ir a crueldade humana perante a desintegração da sociedade? E que espaço resta, ainda assim, para uma centelha de esperança?

Este será o momento para vos avisar que se o que querem é ir ver um filme de zombies, dificilmente será uma boa experiência.

Agora, se o que estão à procura é um cenário pós-apocalíptico, dualidade de narrativas (crueldade e esperança) e atuações e cinematografia belíssimas… you’re in for a treat. E a receita inclui caos, religião e fé, heavy-metal, violência, resistência e sensibilidade.

Tratando-se de um filme que se encaixa no género de terror, quero também responder à hipotética pergunta “É seguro levar o meu amigo que se assusta facilmente a ver este filme?“.

Uma das questões inevitáveis prende-se com o nível de violência gráfica do filme. Eu sou uma grande adepta de filmes de terror, e dentro do gore, acho que já vi de tudo (às vezes por entre os dedos, lá porque gosto não quer dizer que não tenha medo). Mas nunca fui fã de exploitation movies, e portanto, nunca quero estar a ver um filme cujo objetivo seja apenas chocar por chocar. The Bone Temple não é um exercício de choque gratuito, o gore surge de forma pontual e sempre com um propósito narrativo claro. Ainda assim, a sua eficácia visual é tal que algumas sequências se tornam verdadeiramente perturbadoras, mesmo para quem está habituado ao género. Confesso que mesmo sendo de muito bom gosto, dei por mim maldisposta com o quão bem está feito. Fui em jejum para o cinema então não havia nada para sair cá para fora, mas pelo sim pelo não, houve ali um momento em que me vi obrigada a fechar os olhos e a tapar os ouvidos. Se virem o filme, vão saber quando for o momento. Apesar de já terem passado alguns dias a tal imagem ainda me vem à cabeça e fico toda arrepiada.

A minha recomendação final é, caso tenham estômago forte, aguentem: vale a pena. Caso não tenham, façam como eu e vão sobreviver. Todos temos este amigo, mas ele também merece ver um bom filme.

Por fim, e porque não posso dizer muito mais sem dar spoilers, o veredito em números.

Contra todas as expetativas inicialmente preconceituosas (uma mudança de estilo, uma mudança de tom e uma mudança de realizador que pode ter preocupado muitos) este novo capítulo, avaliando por parâmetros, é basicamente perfeito.

Em termos de avaliação global, The Bone Temple funciona muito mais vezes do que falha.

Narrativa: um sólido 8/10. Mais um gazilião de dólares para o argumentista Alex Garland por continuar a reinventar o género, mantendo sempre a coerência temática.

Atuações: 9/10. The Bone Temple é uma refeição completa, porém, sem querer desvalorizar os restantes, a luta de titãs é entre o MVP Ralph Fiennes, que é o coração desta obra, e a superestrela em ascensão Jack O’Connell (que está absolutamente brilhante, magnético, ASSUSTADOR e hilariante enquanto líder de culto e defensor da sua ideologia louca, eu via mais 3 filmes só de Jimmy Crystal).

Ritmo: 6/10. O ritmo inicial é muito moderadozinho, mas o filme acelera desenfreadamente até um terceiro ato intenso e memorável.

Cinematografia: 9/10. Eleva até os momentos mais viscerais.

Final: 7/10. Colorido e esperançoso, deixa-nos a querer mais e expectantes para o próximo. Pode não funcionar para toda a gente, comigo funcionou.

Por último, quero apontar o único defeito que pude percecionar: a duração. É muito curto, com um run time de menos de 1h30 (sem créditos) que passou a correr.

Juntando todos os fatores dá uma média de 7.8, que (e prometo que não fiz de propósito) é o rating atual no iMDB, que considero justo e com o qual, pelos vistos, concordo. Talvez até lhe adicionasse mais um ponto tendo em conta o meu claro entusiasmo.

Se viram o primeiro filme e gostaram, tenho a certeza que vão gostar deste. Se viram o primeiro filme e não gostaram, tenho a certeza absoluta que vão adorar este. Se não viram nenhum dos filmes do franchise até agora, aqui está o vosso sinal para lhe darem uma oportunidade.

Vou arriscar e dizer que este filme tem algumas das sequências de terror mais bem realizadas da década, parabéns Nia DaCosta. Vou arriscar bem menos e dizer que os últimos 20 minutos são absolutamente épicos e o climax é um pandemónio total. Eu estava completamente hipnotizada e não queria que acabasse.

A minha viagem para casa foi no carro a cantar Iron Maiden aos berros, e acredito que a vossa também vá ser.

Obrigada ao desacordo e à Big Picture Films.

Espero ter-vos convencido. 28 Years Later: The Bone Temple já está nos cinemas.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados. 

Fonte da imagem da capa: X (antigo Twitter)

Escrito por: Nina Silva

Editado por: Íngride Pais

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