Só mais uma conversa de café

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Há mais de 150 anos, fundava-se a Geração de 70, reunida em diversos cafés, movimento académico que unia distintas figuras às novidades recentemente chegadas à cidade de Lisboa. Há 68 anos, unia-se o Grupo do Gelo, – reunido inicialmente no Café do Gelo e posteriormente no Café Palladium – criado por escritores e artistas que se insurgiam contra o Estado Novo. Em 2025, com a liberdade de tertúlia em mãos e a capacidade de analisarmos e verificarmos a nossa própria informação, une-se o virtual ao humano, em espaço físico ou pixelado. Forma-se uma bolha de conforto e um individualismo exacerbado. Como é que chegámos aqui?

Relembro-me perfeitamente do ambiente dos cafés em criança, embora com o habitual infantil filtro fantasioso. A conversa corria de um lado ao outro, refletindo-se a fraternidade do mundo naqueles dez ou onze indivíduos que lá se costumavam reunir, consumindo as notícias da televisão como quem ansiara por aquele momento a vida inteira. Essa melodia ensurdecedora, de alhos e bugalhos, iluminava os dias de uma pequena rapariga que estava preocupada com bonecas da Barbie e da Monster High, e que não possuía muito do conhecimento geral exalado por todos os poros corporais de homens e mulheres do bairro. A sinfonia era inquebrável, ora discordante, ora concordante. Mas estava lá. A conversa de café era o primeiro passo dos jovens que se tornaram universitários ou operários ambiciosos e que conviveram com esse ambiente desde que o seu conhecimento era ainda uma semente por brotar. Eu, preocupada com a minha meia de leite e torrada, era guiada discretamente pelo berrante barulho de fundo para um futuro que não sabia querer até estar e procurar ser.

Hoje frequento os mesmos cafés e observo também barulhos, embora distintos. Soa agora uma ópera de teclas, desvairadamente pressionadas, respondendo a mensagens que não podem esperar ou jogando jogos gerados com o propósito de viciar; conversas silenciosas de amigos que não procuram invasão, confirmando o que cada um disse como um túnel que ecoa, recusando-se a refletir sobre opiniões distintas. As crianças não abrem a sua mente porque estão focadas noutro mundo. Os adultos não estabelecem um exemplo, apreendidos no mesmo universo e motivando este comportamento sem o entender.

Esta experiência levou a uma temível realização: os espaços de encontro físico tornaram-se virtuais. A troca de mensagens nas redes sociais viera substituir a troca de palavras, concordantes ou dissidentes, num ambiente que as criava e as incentivava. Na rara ocasião de entrarmos num local de convívio, bebendo a habitual bica, limitamo-nos a dialogar com quem já conhecemos; ou isolamo-nos no nosso mundo virtual, embora sentados em cadeiras reais e apoiando a real bebida quente em mesas reais.

A mudança abalou o nosso mundo, embora muitos não tenham sentido o impacto ou procurem não o entender, remetendo-se à alegre ignorância de respeitar qualquer ondulação a que sejamos enviados, recusando-se a remar no seu próprio barco. Há que saber conviver connosco, de forma isolada e equilibrada, e com a população, tenha esta a opinião mais oposta à nossa, considerada a mais inconcebível possível, ou a mais aceitável. Atualmente, a população portuguesa (e, talvez, global), não sabe nem uma, nem outra. Os barulhos e imagens fortes e rápidas das redes sociais cativam a nossa mente, não a deixando descansar, enquanto consideramos desnecessário dialogar com qualquer outro ser humano, visto que possuímos a capacidade de o fazer na ponta dos nossos dedos sem o fardo da interação física. Por isso, acabamos por não nos conhecermos nem aos que nos rodeiam.

É um ciclo infinito de falta de interação, a perda da socialização humana em troca da formulada, preparada e executada a dedo para que seja a preferida. A barreira virtual permite-nos escapar de um mundo que podemos tornar belo. As nossas respostas já não são mais nossas. Podemos ser intelectuais virtuais e mentecaptos pessoais. Perpetua-se o ciclo.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Fonte da imagem de capa: Time Out Lisboa

Escrito por: Raquel Pedroso

Editado por: Margarida Simões

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