Como produzir um debate político saudável?

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O viés da confirmação é a tendência humana de procurar, interpretar e lembrar informações que confirmem crenças ou hipóteses preexistentes, enquanto ignora ou minimiza evidências que as contradizem. Assim, como poderemos debater se (biologicamente) ignoramos argumentos que vão contra o que já acreditamos?

Nós temos dois sistemas: o deliberado e o automático. O deliberado está encarregue do raciocínio, autocontrole e planeamento. Todavia, possui uma atenção finita pois requer muito esforço mental. É aí que entra o sistema automático, que irá dar resposta a todos os outros estímulos. 

É graças a este sistema que conseguimos comer sem pensar cansativamente sobre todos os ingredientes que compõem aquele prato ou contar os fios de um tapete bonito. O dito “piloto automático”. Mas este também tem falhas. Como é rápido, não consegue detectar muito bem o que é realmente importante. 

Aí nasce o viés da confirmação. De forma a poupar energia, o cérebro arranjou um mecanismo simples de processar informação rápido: tudo o que vai ao encontro do que eu já sei e já acredito é absorvido, enquanto o que não acredito ou é discordante com as minhas crenças é ignorado.

Podes te estar a perguntar o que isto tem haver com política. Ora, este atalho cognitivo não se limita a induzir-nos a filtrar informação que possa ir contra as nossas expectativas, mas inclusive pode mesmo distorcer as coisas que ouvimos e vemos de modo a corresponder às expectativas que temos. 

Em contexto político, isso dificulta os debates que temos. Quando ouvimos um argumento que vai contra as nossas crenças tendemos a desacreditá-lo, a reavaliar a informação com base no que entendemos como verdade ou a simplesmente ignorá-lo. 

Estudos dizem que o debate político raramente produz mudança de opinião, apenas tendem a reforçar as convicções de cada lado, em vez de levar à reflexão ou persuasão. “(…) quando induzidos aleatoriamente a sentirem-se desafiados, tornaram-se mais resistentes a informações desagradáveis ​​e, em última análise, discordaram mais, e não menos, após considerarem as mesmas informações. Esses resultados identificam uma condição crucial que provoca resistência à persuasão política.“, estudo da Cambridge University, “As evidências podem mudar a opinião de um partido, mas menos em contextos hostis.”. 

Dessa forma, quando um apoiante do Chega discute com alguém do Bloco de Esquerda, por exemplo, é pouco provável que alguém irá mudar de opinião depois dessa troca de ideias. Até mesmo quando se mostra reportagens do Polígrafo a explicar que os argumentos que o outro está a dizer são mentira. O apoiante do Chega para proteger o sistema de crenças existente irá ignorar esses dados discordantes, reinterpretando-os de modo a encaixá-los no quadro mental que este já tem. 

Depois de João Miguel Tavares explicar que acredita que a imigração causa pressão sobre a habitação em Portugal, Ricardo Araújo Pereira responde “com jeito, a gente consegue justificar que o Benfica está em terceiro por causa dos ciganos e dos bangladeshis”. Este pequeno excerto da sua conversa na Sic Notícias demonstra perfeitamente esta realidade: é possível alguém acreditar numa mentira na sua totalidade, se primeiro lhe fizer sentido as meias verdades que a sustentam.

Como resultado, as conversas que temos sobre política no dia a dia frequentemente não nos aproximam de um entendimento comum ou da verdade. Em vez disso, acabam por reforçar a polarização- cada lado recebe a discordância como ameaça aos seus valores e identidade. Assim, não são interpretados como uma oportunidade de reflexão ou aprendizagem, mas sim como ataques. 

Daí nasce a crença comum, algo que a minha mãe sempre me disse: “Se queres fazer amigos não fales de religião, futebol ou política”. 

No entanto, política tem de ser falada. Agora mais do que nunca. Porque os nossos votos não são meros acasos, refletem o nosso sistema de valores e crenças- dizem quem somos intrinsecamente. Contudo, é importante saber como chegarmos uns aos outros com respeito.

Nestes momentos polarizantes na nossa sociedade, devemos saber conversar, mais do que debater ou discutir. Pois estamos a enfrentar um ataque à nossa democracia e muitos portugueses não o veem. 

Eu sou de Sociologia, não de Ciência Política, dessa forma vou apelar naturalmente mais ao lado social e humano. Não obstante, devemos aprender a nos compreender mutuamente pois, para mim, é a única forma de combatermos este mal comum. 

Acredito ser crucial fazermos os possíveis para não aumentar mais o muro que temos entre nós.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Fonte da imagem de capa: Sara Reis

Escrito por: Sara Reis

Editado por: Margarida Simões

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