Havia dias cheios de calor,
sorrisos leves que enchiam o ar.
No silêncio, havia algum sabor
de promessas que pareciam ficar.
No toque breve, o tempo parava.
Os dias longos julgavam-se curtos.
Tudo parecia que se encaixava,
mesmo entre medos e minutos.
Guardei os instantes que me foram dados,
cada sombra, cada riso contido,
como quem teme ter-se enganado.
E eu guardei...
Guardei memórias como quem mente:
presente no corpo, ausente na mente.
Colecionei versões de mim
para caber n'algo sem fim.
Aprendi gostos que não eram meus,
repassei sonhos que não ambicionei.
Dizia "nós" com voz treinada
enquanto a alma se afastava.
O vento dobra-se sobre si, silencioso,
traz fragmentos de instantes frágeis.
Sítios por onde passamos antes
são agora espelhos caprichosos
de possibilidades inalcançáveis.
As pedras soltas nos trilhos recordam tropeços e ajustes que se fizeram para parecer maior, mais inteiro, aquilo que nunca foi verdadeiro.
O horizonte treme em cores dispersas. Sombras movem-se sem direção. Há espaços entre árvores e conversas onde ecoam silêncio e indecisão.
Entre veios expostos e ruas curvas há passos que se desfazem no chão. Rumores de mundos distantes que já não nos cabem na mão. A música que dividíamos fez-se palavra do que ficou calado. Torna-se agora um som suspenso, quando antes nos havia tocado.
E se hoje olho para trás,
não é para contar anos.
É para perceber
quantas vezes fui mais alguém,
para além de mim também...
Só para caber no que éramos.
Fonte da imagem de capa: Pinterest
Escrito por: Madalena Cardoso
Editado por: Maria Francisca Salgueiro


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