Empatia ou desconfiança? Uma manhã dedicada à causa animal

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Durante uma manhã, estive à porta de uma loja a pedir comida para animais. Enquanto ali estive, cruzei olhares com variadas pessoas. Cada uma com a sua reação particular ao meu pedido. Foi neste dia que percebi que o voluntariado também é uma forma de observação social. 

A Associação de Animais de Lisboa (AAL) é uma associação sem fins lucrativos dedicada à proteção e defesa de animais que se encontram em situações adversas. O seu trabalho permite o resgate, a recuperação e a reabilitação física e comportamental dos animais, contando ainda com a ajuda das famílias de acolhimento temporário, que têm como missão encaminhá-los para uma adoção responsável.

Os seus serviços passam pela esterilização dos animais, encaminhamento dos animais para adoção, formação e acolhimento dos adotantes e sensibilização da população para a causa animal. Para além disto, a associação também oferece catsitting, um serviço que permite que os gatos permaneçam no conforto das suas casas durante a ausência dos seus donos.

A AAL é orientada por guias claros: a missão de garantir o bem-estar do animal, defendendo-os e lutando para que sejam protegidos na sociedade; a visão de um mundo onde os animais são respeitados e tratados com cuidado; e os valores de compaixão, amor, cuidado, compromisso, integridade, transparência e honestidade. Estes guias refletem as suas ações consistentes, valorizadas pelo apoio da sociedade.  

A ajuda é sempre um gesto que permite que a Associação continue a lutar pela causa animal, assumindo várias formas. É possível fazer um donativo através de transferência bancária e por MBWAY; uma consignação por IRS, onde é possível doar 0,5% do mesmo; tornarmo-nos associados, através do pagamento de um valor anual (26,5€); apadrinhamento dos animais, contribuindo com um valor mensal, ou ajudando com despesas de veterinário e alimentação; e a doação de medicação e equipamentos requisitados pela Associação. 

No entanto, existem ajudas mais exigentes e impactantes: as Famílias de Acolhimento Temporário (FAT) e a adoção. 

A AAL não usufrui de um canil, por isso as Famílias de Acolhimento Temporário são uma parte muito importante da rede de apoio ao resgate e recuperação dos animais. Ser uma FAT é oferecer cuidado, estabilidade e um lar temporário para os animais; funcionam como uma primeira oportunidade de recomeço. Apesar da responsabilidade requisitada, a Associação assegura os custos financeiros e logísticos do animal, direcionando a atenção da FAT à recuperação do animal para a sua futura adoção. 

A adoção exige um processo de avaliação, para perceber se o candidato é a pessoa correta para aquele animal, tendo sempre em mente a sua proteção.

Foi através do programa de voluntariado da AAL que me pude envolver com esta realidade. Num dos meus scrolls, deparei-me com uma publicação a solicitar voluntários para a recolha de alimentos e decidi participar. Enviei mensagem e logo obtive as informações necessárias à minha participação. Inicialmente, estava com medo de ir e senti-me deslocada, mas foi tudo ao contrário. Passei uma manhã com pessoas empáticas, unidas por uma causa comum, criando uma ligação.  

Apesar de estar em ótima companhia, nem tudo foi perfeito. Pedir ajuda para os animais permitiu-me observar as reações das pessoas a estes pedidos. Como estava à porta de uma loja destinada a animais, as reações dividiram-se sobretudo entre pessoas que ajudaram prontamente, demonstrando interesse em conhecer a AAL e entre pessoas desconfiadas, que optaram por não ajudar ou por questionar no final das suas compras. 

Esta experiência foi uma forma de me aproximar desta causa, que é tão especial, permitiu-me conhecer pessoas e estar em contacto com vários animais que iam com os seus donos fazer compras. Mais do que isto, o voluntariado levou-me a refletir sobre as reações das pessoas e sobre o seu receio em ajudar associações. 

As ações humanas são resultado de fatores psicológicos e sociais combinados. Assim, o receio em ajudar associações nem sempre é falta de empatia ou de solidariedade. Vivemos num contexto onde somos constantemente alertados para burlas e para escândalos, que muitas vezes envolvem pedidos de ajuda, potenciando a desconfiança e o questionamento da credibilidade das associações. Num mundo que está a passar por fases de precarização das condições de vida, derivadas por crises económicas, sociais e políticas, surgem constrangimentos financeiros que se refletem numa pressão económica para as pessoas. Assim, mesmo que se sintam motivadas em ajudar, utilizam o ignorar do pedido como ferramenta para lidar com a impossibilidade de ajudar.

O desconhecimento das associações e das causas que defendem contribui para o afastamento emocional e para o diluir da sua responsabilidade social. Existe também a falta de identificação com as causas, já que a empatia tende a aumentar quando a pessoa se identifica com aquele tema, mais uma vez ligado ao desconhecimento das associações e das urgências sociais que estas defendem, para além da falta de experiência prévia da pessoa com estes temas.

Torna-se fundamental trazer visibilidade às causas sociais e às respectivas associações que as defendem, mostrando o seu trabalho e a sua credibilidade para conseguir mais ajuda e conscientização. O conhecimento, a conscientização e a proximidade permitem reduzir a desconfiança e aumentar a participação social ativa e solidária nestas causas. 

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Fonte da imagem de capa: Margarida Amaro

Escrito por: Margarida Amaro

Editado por: Maria Francisca Salgueiro

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