Como me livrei das minhas inseguranças

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Com este artigo, não pretendo apelar ao sentimentalismo de “se eu consigo, tu também consegues”. Isso nem faria sentido. Somos todos diferentes e só cada um de nós sabe o que se passa por detrás de portas fechadas. O meu objetivo é apenas formular uma linha de pensamento que raramente vejo no discurso público, e que fez toda a diferença na forma como me vejo ao espelho.

As inseguranças não são nossas

Lembro-me perfeitamente de ter 17 anos quando surgiu um novo termo no TikTok: hip dips. De repente, dei por mim a reparar na zona exterior das ancas à qual nunca tinha prestado atenção, para tentar perceber se encaixava ou não no novo padrão de beleza. Foi coincidência? Ou terá sido implantado em mim o desejo de criar uma nova insegurança?

As inseguranças não são verdadeiramente nossas; são herdadas de outros. A prova disso é que, até ao século XIX, ter mais peso era o padrão de beleza, associado à riqueza e ao prazer. Com a Revolução Industrial, o tempo passou a ser rigidamente regulado e o corpo começou a ser visto como uma máquina eficiente. A partir daí, o corpo magro passou a representar contenção, sacrifício e sucesso pessoal.

Exemplos mais recentes confirmam esta lógica. Quem tinha sardas, há cerca de 10 anos, tentava escondê-las. Eram vistas como algo feio, chegando a ser apelidadas mesmo de “caganitas de mosca”. Hoje em dia, existem produtos para criar sardas falsas em quem não as tem.

O padrão de beleza varia também de país para país. Em França, o ideal é a magreza discreta e uma aparência aparentemente “natural”, enquanto nos Estados Unidos se valoriza o corpo trabalhado e visivelmente moldado por procedimentos estéticos. Na Coreia do Sul, o ideal passa por um corpo extremamente magro, rosto pequeno, pele muito clara e traços juvenis,  já no Brasil, o destaque vai para o corpo curvilíneo, sobretudo ancas e glúteos, aliados a um bronzeado valorizado.

O ponto a que quero chegar é: o facto de sermos “bonitos” ou “feios” depende do sítio em que vivemos e da época. Por isso a beleza é relativa. É claro que continuamos a ter de viver consoante as expectativas do sítio em que estamos, mas esta noção ajudou-me a perceber que o padrão de beleza não é uma verdade incontornável. Além disso, nunca sabemos o que será valorizado a seguir. É impossível estar sempre dentro do padrão, porque ele é, por natureza, contraditório e mutável.

Fonte: Pinterest

Não podemos (nem devemos) fugir à natureza

Somos vítimas de um processo maciço de racionalização. Cada vez nos afastamos mais da nossa natureza humana, e da natureza como um todo. 

Botox, depilação a laser, cremes anti-aging: tudo isto são exemplos da tentativa humana de moldar o corpo contra o propósito para o qual foi feito. Todos nós, se tivermos a sorte de envelhecer, teremos rugas, cabelos brancos ou perderemos o cabelo. Deixaremos, inevitavelmente, de encaixar nos padrões da beleza jovem.

Mas isso é impossível de contornar. Da mesma forma que até podemos construir uma barragem, mas não conseguimos eliminar por completo a existência do rio. A natureza seguirá o seu percurso, por muito que tentemos evitar. 

E quem somos nós para contrair um processo tão lindo como o envelhecimento? Todas as rugas surgem de anos de risos, expressões de surpresa, choros, gritos e zangas. No final da nossa vida teremos um mosaico no nosso rosto, uma lembrança visível de todas as nossas memórias. Repito: se tivermos sorte. 

Uma vida desperdiçada

Esta foi, para mim, a linha de pensamento mais marcante: uma vida dominada por inseguranças é uma vida desperdiçada.

Se só temos a oportunidade de usufruir de um único corpo, por que razão escolhemos passar a vida inteira a odiá-lo? Podes odiar o tamanho dos teus olhos durante toda a vida, mas isso não os tornará mais pequenos. É energia mal gasta. Que poderíamos canalizar a procurar algo que gostamos em nós, tornando-nos pessoas mais positivas e com mais amor próprio. 

A negatividade atrai negatividade. Quanto mais defeitos procuras em ti, mais encontrarás amanhã. E, inevitavelmente, começarás também a procurá-los nos outros. Mas a vida torna-se mais leve quando deixamos de falar constantemente das nossas inseguranças, de pensar nelas e de arranjar 1001 formas para escondê-las. Porque, na realidade, parte da solução é parar de pensarmos nelas, e assim retiramos-lhes o poder que têm sobre nós. Até ao ponto de desaparecerem. 

Considerações finais

É evidente que este não é um processo fácil. Se fosse, não existiria a indústria da cosmética e dos procedimentos estéticos a lucrar diariamente com as inseguranças das pessoas. Com as pernas gordas, os pelos, as estrias, ser muito gordo ou muito magro, ter mamas grandes ou pequenas, cabelo liso ou encaracolado, usar óculos, ter dentes tortos, ser baixo ou alto demais, e por aí fora.

Mas, se toda a gente tem inseguranças, então estas não são exceção, são a norma. E, se é norma, deixa de ser uma falha individual. Se todos sentimos, em algum grau, que há algo  de “errado” connosco, então o problema não pode estar em cada pessoa isoladamente, mas no sistema de expectativas que nos rodeia. É impossível encaixar-nos num sistema que muda, pelo menos, a cada década.

Claro que também há inseguranças que nascem de preconceitos e estereótipos. Estas ganham raízes fortes nas pessoas, uma vez que são repetidas vez após vez pelos outros. Como se se tratasse de uma consciência coletiva do que aquela pessoa deveria ser. Como acreditar que o homem deve ser alto, que a mulher deve ter ancas largas, que a partir dos 20 anos não se deve ter borbulhas, etc etc. 

Por isso, antes de assumirmos que há algo de errado conosco, devemos perguntar-nos de onde veio essa ideia. Quem nos disse? Quando é que começámos a acreditar nela? Porque, na maioria das vezes, não foi uma conclusão nossa. Assim, podemos começar a mudar a narrativa que temos de nós próprios. 

Por fim, quero sublinhar que devemos aceitar-nos tal como viemos ao mundo, da mesma forma que aceitamos os outros como são. Afinal, não dizemos às pessoas que nos são mais próximas as atrocidades que, por vezes, pensamos sobre nós próprios. E por que razão haveríamos de falar connosco dessa maneira?

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Fonte de imagem de capa: Sara Reis

Escrito por: Sara Reis

Editado por: Maria Francisca Salgueiro

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