Hugo Chávez, 56.º Presidente da Venezuela, é uma figura central para a compreensão da história venezuelana do século XX até à atualidade. A sua trajetória política está associada a múltiplas leituras no imaginário público, que o retratam ora como ditador, ora como herói nacional, ora como fator de instabilidade, ora como líder da Revolução Bolivariana. Compreender quem foi Hugo Chávez e o contexto político do país desde a sua ascensão ao poder é, mesmo que de forma breve, essencial para analisar os desdobramentos da Venezuela e os impactos nos fenómenos internacionais contemporâneos.
Contexto do Século XX
Em 1948, uma junta militar derrubou o presidente Rómulo Gallegos. Quatro anos depois, Marcos Pérez Jiménez consolidou o poder após um golpe eleitoral. Seguiu-se o Pacto de Punto Fijo, aliança entre os principais partidos para garantir estabilidade civil. A União Republicana Democrática saiu por divergências sobre Cuba. Nos 40 anos seguintes, a Venezuela alternou entre governos de “esquerda” e “direita”, reprimindo a oposição. Foi nesse caldo de crise e frustração que emergiu Hugo Chávez.
Surgimento de Hugo Chávez
Em 1989, Carlos Andrés Pérez aplicou reformas neoliberais alinhadas com o Consenso de Washington, provocando aumentos nos preços dos transportes, eletricidade e combustíveis. As medidas desencadearam protestos violentos conhecidos como o Caracazo. Para reprimir a revolta, o governo mobilizou os militares, entre eles Hugo Chávez, que se recusou a disparar contra os manifestantes. Chávez integrava o Movimento Bolivariano Revolucionário 200 (MBR-200), que mais tarde se tornaria central no bolivarianismo venezuelano.

O bolivarianismo tem as suas raízes em Simón Bolívar, símbolo de soberania e unidade latino-americana. A filosofia chavista defendia a nacionalização da riqueza e a sua redistribuição em benefício da população, além de promover a união latino-americana contra o neoliberalismo.


Em 1992, Chávez liderou uma nova tentativa de golpe, planeando ocupar o Palácio de Miraflores e instaurar uma junta militar que promulgasse uma nova Constituição. A operação falhou por falta de apoio militar e por fuga de informações, levando à detenção de soldados por conspiração. Apesar disso, Chávez foi elevado à condição de herói nacional. No mesmo ano, registou-se outra revolta militar, encorajada pelo partido Bandera Roja, reforçando a presença de grupos de esquerda nas forças armadas dispostos a tomar o Estado pela força. Após o impeachment de Carlos Andrés Pérez, o novo presidente concedeu anistia a Chávez, receando que a sua prisão incentivasse um novo golpe.
Primeiro Governo Chávez
Em 1994, Chávez candidatou-se, mas não foi eleito. Em 1997, fundou o Movimento Quinta República e venceu as eleições de 1998. O seu primeiro governo marcou a chamada “maré rosa”, uma onda de movimentos progressistas na América Latina. Sem maioria no Legislativo, Chávez procurou legitimar o seu governo através de um referendo popular, aprovando uma nova Constituição. O seu programa inicial combinava culto da personalidade com políticas de distribuição da riqueza e controlo da economia de setores estratégicos, especialmente petróleo e energia, que foram estatizados.

https://youtu.be/rnMBFaJS-Ko?si=lZM7As91KrA0JaHj
A economia venezuelana, historicamente dependente do petróleo desde a década de 30, foi o foco principal de Chávez, que usou os recursos do setor para criar confiança e implementar políticas de redistribuição, trocando recursos por investimentos sociais, como saúde (com médicos cubanos) e educação. Embora eficaz no setor energético, o governo dedicou pouca atenção à agricultura, seja por limitações de terras cultiváveis, seja por negligência.
Tentativa de Golpe
Em 2001, Chávez foi reeleito, e o governo aprovou a Lei dos Hidrocarbonetos, nacionalizando a PDVSA (Petróleos de Venezuela). A classe dominante, nacional e internacional, reagiu com sabotagens económicas, promovendo crises e paralisações. Em 2002, ocorreu a chamada Marcha pela Liberdade, organizada por setores da oposição, Igreja e EUA, que culminou na prisão de Chávez e na ascensão temporária de Pedro Carmona. No entanto, a mobilização popular e o apoio de militares de baixa patente restituíram Chávez ao poder. Nesse mesmo ano, verificou-se um plano de sabotagem extrema, o Parapetrolero, que paralisou a produção de petróleo, provocando aumento dos preços. Chávez, com apoio popular e dos círculos bolivarianos, retomou o controlo governamental, promovendo autogestão operária e reorganizando a economia.

Depois dos Golpes
Após estas crises, o governo alcançou a sua fase mais forte: a PDVSA foi completamente estatizada, aumentaram os royalties do petróleo, houve controlo cambial, elevação de impostos sobre os mais ricos e investimentos em indústria básica e em programas sociais (as Missões Bolivarianas), incluindo reforma agrária. O investimento social triplicou por pessoa, a cobertura de água potável aumentou de 60% para 90%, e o acesso de estudantes às universidades cresceu. Apesar disso, o desemprego e a inflação permaneceram elevados.
Chávez venceu um referendo revogatório e declarou o início do Socialismo do século XXI, consolidando a trajetória bolivariana de nacionalização da riqueza, inclusão social e resistência ao neoliberalismo, ao mesmo tempo que promovia um forte controlo estatal sobre setores estratégicos da economia.
Do ponto de vista do marxismo ortodoxo, a Venezuela não pode ser classificada como um Estado socialista. Para essa corrente, o socialismo pressupõe a ditadura do proletariado e o controlo integral dos meios de produção, condições que não foram permitidas no país. O chavismo é, assim, frequentemente descrito como um projeto progressista de esquerda bastante robusto, centrado no fortalecimento do Estado, na ampliação de políticas sociais e na limitação do poder da burguesia, mais do que numa transformação socialista clássica.
A crise na Venezuela tornou-se mais visível após a morte de Hugo Chávez, vítima de um cancro agressivo, em 2013. Chávez era a figura central que garantia a continuidade do seu projeto político e económico, e a sua morte deixou um vazio de liderança. Nas eleições seguintes, o seu vice, Nicolás Maduro, saiu vencedor. A sua presidência acabou por enfrentar desafios significativos para manter o legado bolivariano a meio a crises económicas e sociais.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Fonte da Capa: https://noticias.uol.com.br/internacional/temas/hugo-chavez/imagens/#fotoNavId=pr11370197
Escrito por: Carolina Dinis
Editado por: Rodrigo Caeiro


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