Homem a sério não chora. A frase é curta e repete-se como um ensinamento óbvio, como se de uma verdade natural se tratasse. Ao longo destes vinte e um anos, já vi imensos homens chorarem. É precisamente por isso que me questiono: por que razão não haverão os homens de chorar? E o que estará por detrás deste ensinamento?
Todos sabemos que, de forma generalizada, a mulher é associada à emoção e o homem à razão. E o que é o choro senão a epítome da tristeza? Dessa forma, ficaria mal aos portadores da razão e da consciência embarcar em tais atos tão descontrolados e femininos.
Desde cedo, o homem é ensinado a não ser mulher. E não digo isto por dizer, a literatura feminista explica de forma clara que a masculinidade é construída por oposição ao feminino. Se a mulher é emocional por natureza, descontrolada, ligada à fertilidade e à maternidade, frágil, cuidadora, instável, o homem terá de ser o oposto. Não é por acaso que a licença de paternidade só foi atribuída, de forma generalizada, em Portugal, a partir de 2009. A lei não permitiu que o meu pai ficasse em casa com nenhum dos seus filhos.
É assim que os homens aprendem a ser homens. Tal como Simone de Beauvoir escreveu em O Segundo Sexo (1949): “Não se nasce mulher, torna-se.” O mesmo princípio aplica-se à masculinidade. Todos nós já ouvimos a expressão “Pareces uma menina” a ser usada como ofensa, inúmeras vezes, ao longo da vida.
A cultura popular contribui de forma significativa para este processo, oferecendo modelos claros do que um homem deve aspirar a ser. Filmes populares entre o público masculino, como Fight Club, que, apesar de ser uma obra-prima, transmite a ideia de que a masculinidade se constrói através da dor e da violência. The Godfather retrata homens poderosos, silenciosos e emocionalmente inacessíveis. Até o filme Mulan, da Disney, inclui a música “I’ll Make a Man Out of You”, onde a protagonista precisa de abandonar os seus traços femininos para não ser descoberta enquanto treina para a guerra.

Que conclusão se tira disto? Que demonstrar dor é fraqueza, e que o homem não se quer fraco. Esta narrativa não só é ensinada aos homens, como às mulheres, que servem como vigilantes deste comportamento. Muitas não se sentem confortáveis a ver um homem chorar, sentindo que este perde o seu valor. E as consequências são profundas.
Homens que não choram não sabem nomear as suas emoções, evitam pedir ajuda para ninguém saber que são “fracos”, acabando por construir relações afetivas frágeis, uma vez que não falam sobre os seus sentimentos. Assim, paradoxalmente, o mundo masculino apresenta taxas de suicídio mais elevadas, porque a dor não desaparece, apenas se transforma num silêncio autodestrutivo, levando à agressividade e apatia.
Colocando o choro masculino numa posição instável: é necessário, mas socialmente desvalorizado. Felizmente, acompanhando os progressos dos movimentos feministas, também os homens começam a ter espaço para se libertarem das amarras do modelo tradicional. Já é possível notar uma maior abertura para saúde mental masculina.

Ainda assim, homens sensíveis ainda são ridicularizados e a masculinidade “dura” continua a ser premiada. Por isso, muitos continuam a engolir o choro, permitindo-se chorar apenas quando já não conseguem conter as lágrimas, como no falecimento de alguém querido, ou quando ninguém está a ver.
É importante trazer atenção a estes temas, até porque o feminismo também traz benefícios claros para os homens. Permite-lhes ser quem realmente são, sem a âncora da masculinidade hegemónica. Homem a sério chora, porque tem de chorar. As lágrimas ajudam a libertar o cortisol do corpo, pois o choro é um mecanismo natural de alívio do stresse.
Em suma, acredito genuinamente que, se os homens se permitissem chorar, sempre que precisam, o mundo seria um lugar mais tranquilo. As relações interpessoais melhorariam consideravelmente e os homens seriam mais felizes, libertos da pressão constante de representar o papel de “machão” que tantos tentam aperfeiçoar.
Fonte da imagem de capa: Sara Reis
Escrito por: Sara Reis
Editado por: Cristina Barradas


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