Diogo Piçarra encerrou a sua tour acústica do ano de 2025 no dia 3 de Dezembro, lotando o Teatro Tivoli de crianças e adolescentes. O concerto trouxe também muitos pais e avós, que pareciam encontrar na sua música, um soundtrack comum para partilhar com os mais novos, o que tornou o concerto geracional.
Na primeira semana de Dezembro, Piçarra subiu ao palco do Teatro Tivoli, no seu tom carismático e descolado, para dar o seu último concerto do ano, encerrando a tour do acústico “Há Sempre uma Música”.
Quando cheguei ao teatro fiquei impressionada com a quantidade de crianças e adolescentes ali presentes. Embora seja um dos jurados do The Voice Kids, não o imaginava como um ídolo infanto-juvenil. Entretanto, a autenticidade e simpatia em palco mostrou-me o porque deste público, em específico, engajar com a sua música e pessoa. Olhei desconfiada para o palco que dividia unicamente com o baterista Filipe Cabeçadas.
Assisti ao show pelos olhos do menino de óculos, de prováveis completos dez anos, que estava na minha frente. Para além de um casaco vermelho, trazia com ele o seu pai, mãe e avó, que julguei ser a materna pelas muitas miradas de cumplicidade tácita com a jovem mãe. Ouvir suas letras seria um hábito familiar? Imaginei Porta 43 tocando no carro a caminho da escola, repetidas vezes, enquanto os pais espiavam o miúdo pelo retrovisor. Muito do que as crianças escutam acaba por ser também um reflexo das escolhas dos seus pais. Talvez o Piçarra represente esta ponte entre o mundo adulto e infantil.
Achei engraçado observar o menino olhando para a mãe e a avó histéricas em vários momentos, com olhos de quem buscava compreender o que se estava a passar. Em muitos momentos elas davam-lhe muitos abraços e beijinhos, enquanto cantavam as músicas o fitando. Pareciam declamar e partilhar amor sentido. Talvez só pescando no futuro essa memória, que ele atribua importância e sentido àqueles abraços afetuosos duplos. O pai assiste a cena, talvez enrijecido com os papéis de género ainda engessados na sociedade. Pode sentir tanto, mas pode dizer que sente tão pouco.
Piçarra cantou Anjos não voam, sem a Carolina Deslandes, e claramente as mulheres da sua vida estavam pensando que nunca o deixariam cair. Momento para selfie em família. O pai também se junta a foto. Não parece ter saído muito boa, os focos de luzes não ajudavam. Um coro de vozes de adolescentes dominava o fundo da sala. Mais uma selfie. Mais baladas íntimas e pop energético para compor o setlist. Agora selfie com a avó. Vinham da frente os gritos mais eufóricos da vez. Observo uma miúda com um cartaz em cartolina, e penso na nostalgia artesanal de fazê-los. Fico genuinamente feliz em constatar as letras garrafais coloridas ainda em prática.
A avó parece agora emocionada e com os olhos lacrimados. Imagino que a letra de História tenha penetrado algumas de suas cicatrizes, lembrando-a de quem sempre foi o fim e o início da sua história. Sorrio com esmero ao observar a cena, imaginando os contornos do que pode ter sido uma grande história de amor. Penso em como a música toca as pessoas de diferentes formas, da letra ao ritmo. Como melodias e sons são capazes de embalar você em sentimentos subjetivos, que foram sabiamente expressados pelas palavras cuidadas e sonoramente guiadas de outros. Acaba por, de fato, sempre existir uma música que te diz tanto.
Foi então que a Matilde Azevedo, do botão dourado da Equipa da Nena, subiu ao palco para (re)cantar com o Piçarra a música Chuva, replicando o dueto improvisado no The Voice Kids no início do ano, que dizia a ela tanto. É ali que se vê, uma vez mais, a empatia e generosidade do cantor. Logo depois um grupo alentejano, Bandidos de Cante, sobe em palco para cantar Tu e eu, seguido por João e Lara, jovens da plateia que são supostos aniversariantes. Neste momento, o menino está basicamente pendurado no camarote do segundo andar assistindo deslumbrado a cena.
Quando ele me arrebata cantando uma música da dupla brasileira ANAVITÓRIA, me pego imaginando sobre o que é capaz de tocar os mais pequenos? De fazê-los cantar em uníssimo a letra integral de Trevo? O que os fazem refletir, sentir? O que eu refletia e pensava naquela idade? Talvez fosse esta busca por identidade, muito espelhada no gosto de rock do meu pai. Não acredito que vão sendo apenas embalados por ritmos de algoritmos de plataformas. Piçarra desce do palco e caminha entre as pessoas, quebrando barreiras e buscando a atenção de olhos.
Embora o telão que o acompanhe venha trazendo várias imagens futuristas, tendo sido provavelmente produzidas por Inteligência Artificial, o que faz do concerto de Piçarra especial é exatamente o contrário, o fato de desafiar aquele telão e ter sensibilidade para partilhar o palco, dar a oportunidade para outros cantores, conversar com as pessoas e sorrir enquanto desbrava corredores. Foi um show de generosidade de um bom cantor, e de um bom ser humano.
Ver a forma acarinhada e quase comovente com que o Piçarra conversa com a plateia, cuida dela e explica algumas canções, faz com que eu fique surpreendentemente feliz de ver tantos jovens vendo naquela boa pessoa um exemplo. Com músicas que, ainda que não me digam nada, são capazes de deixar mensagens positivas sobre autoestima, diversidade e aceitação, em um mundo que o entretenimento, sem autenticidade e empoderamento, é mais regra que exceção.
Sai dali mais crente e menos cética sobre a possibilidade dos gerações mais jovens serem capazes de fazer boas escolhas: de caminhos humanos.
Nota: A autora escreve em português do Brasil.
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Fonte da imagem de capa: André Piçarra
Escrito por: Kamila Borges
Editado por: Rodrigo Caeiro


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