Carmen Miranda – O Grande Musical é a mais recente produção do renomado encenador e autor português Filipe La Féria, cuja estreia decorreu no passado dia 27 de dezembro, no Teatro Politeama.
O espetáculo, brilhantemente concebido e sustentado através dos estudos biográficos de Ruy Castro e das várias horas de trabalho de pesquisa de La Féria pelas madrugadas dentro, inicia com a travessia atlântica de Maria Emília Miranda (Noémia Costa), Olinda (Maria Inês) e Maria do Carmo (nome de registo de Carmen Miranda) com meros meses de vida, com destino ao Brasil, onde já as esperava José Maria (João Frizza) – marido de Maria Emília e pai das suas filhas.
Esta família pobre, oriunda de Várzea da Ovelha, em Marco de Canaveses, rumou ao Rio de Janeiro em 1909 num navio de carga, onde abundavam ratos, cólera e os corpos dos tripulantes que não resistiam à dura viagem e eram deitados ao mar sem cerimónias. Apesar das dificuldades, a recém-nascida Carmen, a sua mãe e irmã chegaram ao Brasil. No Rio, ainda que sob alguma instabilidade, refizeram a sua vida, com o seu pai a trabalhar como barbeiro e lavrador, e a mãe a gerir uma pensão. Esta pensão terá sido cenário de muitos momentos familiares deste clã e testemunha do crescimento de uma jovem de personalidade forte e vinda do povo.
Carmen (Paula Sá) teria sido incentivada pelo pai a cantar, que apesar de alguma ingenuidade face ao seu potencial, reconhecia que havia nela algo de especial. Paralelamente, Carmen trabalhava numa loja de chapéus e gravatas para ajudar a família, local onde conheceu um dos seus amores: Mário Cunha (Gonçalo Egito), atleta do Clube Regatas de Flamengo.
A vida da “portuguesa mais brasileira do mundo” mudou após chamar a atenção de Josué de Barros (Ricardo Morgado), que a levou a gravar para a rádio, numa altura em que cantava maioritariamente em festas para amigos e familiares. Contudo, foi o tema “Taí – Pra Você Gostar de Mim”, em 1930, da autoria de Joubert de Carvalho (André David Reis) que lhe viria a abrir as portas do estrelato. A partir daqui, a mais tarde denominada Imperatriz do Samba criou uma identidade singular e impossível de ignorar: a baiana, o turbante, a bijuteria e muita, muita cor – que combinavam com a sua postura alegre e o sorriso rasgado.
Em 1939, parte em direção aos Estados Unidos para atuar na Broadway, através de Lee Schubert (João Frizza), acompanhada pela sua banda Os Bando da Lua, onde terá sido um enormíssimo sucesso. Seguiu-se Hollywood, registo no qual o êxito se repetiu.
Filipe La Féria, confesso admirador da luso-brasileira desde infância, retrata neste musical a vida e o génio de Maria do Carmo, a humana por detrás da estrela mundial Carmen Miranda: uma mulher-fenómeno, muito à frente do seu tempo, que enfrenta, desde muito cedo, grandes desafios na vida – que ela mesma ousou desafiar -, entre amores e desamores, o calor dos aplausos e o frio da solidão.
Quanto ao que espera que o público leve consigo após assistir à peça, o encenador revelou: que sejam melhores pessoas. O teatro faz de nós melhores pessoas porque o teatro mostra o ser humano: com a sua máscara e o seu interior. E vendo o ser humano, vendo estas mulheres que sofreram tanto…. Que tiveram uma vida de glória e, ao mesmo tempo, tão difícil…. É uma grande lição de vida. As pessoas vão identificar-se muito com esta grande lição de vida.
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Fonte da imagem de capa: Teatro Politeama
Escrito por: Maria Imaginário
Editado por: Maria Francisca Salgueiro


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