Justiça ou força? O que realmente simboliza o ataque à Venezuela

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O que achamos do ataque dos Estados Unidos à Venezuela? Não vale responder por instinto, nem com bandeiras ideológicas prontas a usar. A pergunta parece simples, quase de debate televisivo, mas esconde uma armadilha: obriga-nos a escolher um lado antes de percebermos o jogo inteiro.

A versão oficial norte-americana é clara e, à primeira vista, até convincente. O objetivo da operação foi capturar Nicolás Maduro para que responda, em tribunais dos EUA, a acusações formais de narcotráfico. Nada de cruzadas morais, nada de discursos sobre libertar povos oprimidos. A narrativa foi a da lei, da ordem e da segurança internacional.

Soa simples. É precisamente por isso que devemos desconfiar.

Maduro governa um regime autoritário, reprime a oposição, persegue adversários políticos e esvazia as instituições democráticas. Este ponto não é polémico e não deve ser suavizado. Ainda assim, reconhecer a natureza do regime venezuelano não resolve a questão mais incómoda. Quem decidiu que um tribunal norte-americano tem autoridade para mandar tropas a um país soberano? Em que momento a justiça nacional de um Estado passou a valer como mandado internacional de captura armada?

É aqui que o episódio deixa de ser sobre a Venezuela e passa a ser sobre poder.

Vivemos num mundo que repete, quase como um mantra, a importância do direito internacional. Ao mesmo tempo, assistimos a uma demonstração crua de como esse direito se torna flexível quando quem o invoca tem porta-aviões. A acusação de narcotráfico fornece a linguagem jurídica, os militares garantem a execução e a geopolítica faz o resto, silenciosa, mas omnipresente. Não é uma conspiração, é o funcionamento normal do sistema internacional.

Para estudantes universitários, isto é ouro analítico. Não estamos apenas a discutir se Maduro é culpado ou inocente. Estamos a observar como os Estados mais poderosos transformam conflitos políticos em processos judiciais e como a soberania se torna negociável quando o desequilíbrio de forças é demasiado grande para ser ignorado.

A pergunta central muda e muda radicalmente. Não é se Maduro deve responder por crimes. É quem decide as regras do tribunal, o local do julgamento e os meios usados para lá chegar. E mais, o que acontece quando este tipo de intervenção deixa de ser excepcional e passa a ser uma ferramenta normal da política externa?

A experiência recente não é animadora. Capturar um chefe de Estado é um momento cinematográfico, perfeito para conferências de imprensa e manchetes. Lidar com o colapso institucional que pode seguir-se é um problema longo, caótico e pouco fotogénico. No meio desse processo, a população venezuelana continua a ser o ator menos ouvido, apesar de ser quem paga o preço mais alto.

Talvez a pergunta inicial não peça uma resposta rápida, nem uma posição definitiva. Pede atenção crítica. Quando a justiça chega de avião militar, convém perguntar não só quem está no banco dos réus, mas quem escreveu o guião inteiro.

Isso, infelizmente ou não, não diz respeito apenas à Venezuela.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados. 

Fonte da imagem da capa: Diário de Notícias

Escrito por: Matilde Lima

Editado por: Íngride Pais

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