Janeiro é aquele amigo que chega sempre quando a festa já acabou. Quando as luzes já estão acesas, a música desligada, e alguém ainda está a segurar um copo vazio sem saber bem onde o pousar.
Depois de dezembro, janeiro entra em silêncio. Fala baixo e fica sentado num canto. Não traz histórias, muito menos pede atenção e parece ter perdido qualquer coisa pelo caminho, mas não se sabe o que foi.
O ano diz que começou, mas ninguém acredita nisso. As ruas estão estranhamente calmas, os dias parecem mais longos, e há uma vaga sensação de atraso, como se ainda estivéssemos todos no mês anterior.
Janeiro não interrompe. Espera.
Espera que as pessoas voltem a casa, que o tempo volte a fazer sentido e que o barulho de dezembro fique finalmente no passado.
Há restos por todo o lado: árvores esquecidas, luzes a piscar e calendários antigos pendurados nas mesmas paredes.
Mas janeiro olha para tudo isto como quem não quer mexer no que não é seu (e não mexe).
É um mês deslocado. Um mês que não sabe se pertence ao ano que acabou ou ao que ainda não começou. Fica ali, a ocupar espaço sem exigir significado.
Janeiro não celebra. Não promete. Não despede.
Chega tarde, fica pouco, e passa quase sem ser percebido.
Tal e qual como aquele amigo que aparece quando já só restam cadeiras por arrumar e, mesmo assim, senta-se a observar.
Fonte da Imagem de Capa: Pinterest
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Escrito por: Rita Luís
Editado por: Leonor Oliveira


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