Natacha Torres da Silva e Carolina Cardoso, psicólogas e membros da coordenação nacional do programa Cuida-te do Instituto Português de Desporto e Juventude, apresentaram a talk “Cérebros em rede: Gaming, Redes Sociais e o Labirinto do Bem-Estar“. O programa teve lugar no segundo dia da Lisboa Games Week e contou com a participação ativa do público ao longo da palestra.
A conferência foi marcada pela abordagem de questões relacionadas pela influência dos videogaming e das redes sociais no bem-estar e com as saúdes dos indivíduos que os utilizam. As psicólogas apelaram à interação do público para colocarem as suas dúvidas, receios e curiosidades sobre o impacto destas duas vertentes na nossa vida diária.
Como é que o prazer imediato, como ganhar num jogo ou receber likes, pode afetar a nossa capacidade de lidar com a frustração ou tédio?
O prazer imediato proporcionado pelos videojogos e pelas redes sociais, como é o exemplo de ganhar um jogo, passar de nível ou até mesmo o simples facto de recebermos likes, tem um impacto significativo na forma como lidamos com a frustração e o tédio. Segundo as especialistas, estas experiências ativam a libertação de dopamina, um neurotransmissor associado às áreas do prazer e da recompensa no cérebro, nomeadamente no sistema mesolímbico. Esta ativação gera sensações de bem-estar que reforçam o comportamento e incentivam a sua repetição.
Quando estas áreas cerebrais são estimuladas de forma frequente, sobretudo através de recompensas aleatórias, cria-se um ciclo semelhante ao conhecido paradigma do cão de Pavlov. Tal como o animal aprende a associar um estímulo neutro a uma recompensa, também os utilizadores passam a associar notificações, likes ou vitórias virtuais a sensações positivas. A aleatoriedade dessas recompensas torna o comportamento ainda mais persistente, mantendo as pessoas ligadas durante mais tempo do que inicialmente planeado. Este é, aliás, um dos princípios mais explorados pela indústria do gaming e pelas redes sociais para captar e reter a atenção dos utilizadores.
Como é que conseguimos perceber quando o gaming ou as redes sociais começam a ser prejudiciais?
As psicólogas alertam que o uso prolongado das redes sociais ou do gaming pode tornar-se prejudicial quando começa a interferir com as várias dimensões da vida quotidiana. O problema surge, por exemplo, quando jogar ou estar nas redes sociais passa a ser priorizado em detrimento de necessidades básicas, como comer, dormir, estudar, conviver com amigos ou manter rotinas de higiene. O que começa como um hábito pode, com a repetição constante, transformar-se numa dependência difícil de quebrar, mesmo quando a pessoa reconhece os seus efeitos negativos na saúde física e emocional.

Ao criar-se este hábito, que acabará por se tornar numa rotina, torna-se bastante difícil quebrá-la, mesmo sabendo que é prejudicial à saúde. Como é que se pode parar esta rotina?
Para contrariar este ciclo, as especialistas defendem a adoção de estratégias práticas de autorregulação, como definir limites de tempo claros para o uso das tecnologias, recorrer a alarmes ou alertas e diversificar as fontes de prazer. Atividades alternativas, como o exercício físico, o convívio social ou hobbies offline, permitem ativar os mesmos mecanismos de recompensa de forma mais saudável. A reflexão sobre a função do comportamento também é apontada como essencial: compreender por que motivo se passa tanto tempo online pode ajudar a reduzir esse consumo.
No entanto, é necessário sublinhar que a responsabilidade não pode recair apenas sobre o próprio indivíduo. O contexto social e os recursos disponíveis desempenham um papel fundamental. Em ambientes como as escolas, por exemplo, a simples proibição do uso de telemóveis nos recreios não é suficiente se não existirem alternativas atrativas. A criação de espaços e atividades estimulantes, como campos de basquetebol, parques de skate ou jogos coletivos, mostra-se eficaz para promover interações presenciais e reduzir a dependência das microestimulações digitais.
Se pudéssemos mudar aspectos da forma como os videojogos e redes sociais são desenhados, o que seria mais urgente alterar, de forma a proteger a saúde mental e o bem-estar emocional dos utilizadores?
No que diz respeito ao design das plataformas digitais, as especialistas defendem mudanças urgentes para proteger a saúde mental dos utilizadores. Entre as medidas mais importantes estão a eliminação do “scroll infinito”, a redução de sistemas de recompensas contínuas e a revisão de rankings públicos nos videojogos, que fomentam uma competição constante. Nas redes sociais, notificações frequentes, contagens de likes e alertas personalizados são apontados como mecanismos que aumentam o tempo de permanência online, transformando a atenção dos utilizadores na principal moeda de troca da indústria.
A introdução de pausas obrigatórias, ferramentas de controlo mais acessíveis e maior transparência na personalização dos algoritmos são algumas das soluções defendidas. Embora já existam opções como esconder o número de likes ou limitar o tempo de utilização diária, estas funcionalidades continuam a depender da iniciativa individual e nem sempre são suficientemente intuitivas.

A comparação constante das redes sociais pode afetar a autoestima? Como é que isso se manifesta na vida real dos jovens?
Outro impacto relevante das redes sociais prende-se com a comparação constante. Muitas vezes, os jovens comparam-se com realidades idealizadas, filtradas e distantes da sua própria vivência, o que pode contribuir para o desenvolvimento de ansiedade, depressão e baixa autoestima. A exposição contínua a corpos, estilos de vida e sucessos irreais cria expectativas difíceis de alcançar, especialmente quando não existe uma percepção crítica do conteúdo consumido.
Em que idade é que devemos permitir que as crianças ou os adolescentes tenham redes sociais ou que tenham uma rotina de gaming?
Relativamente à idade adequada para o acesso às redes sociais e ao gaming, existem orientações que defendem a limitação do tempo online nas idades mais precoces. Ainda assim, as psicólogas destacam a importância da monitorização parental e do exemplo dado pelos adultos. Os pais são considerados modelos fundamentais no desenvolvimento destas competências, influenciando diretamente a percepção dos jovens sobre o que constitui um uso equilibrado da tecnologia.
Por fim, as profissionais de saúde explicaram em que consistia o programa “Cuida-te”, uma iniciativa nacional de promoção da saúde juvenil destinada a jovens dos 12 aos 30 anos. O programa oferece apoio psicológico preventivo, gratuito e confidencial, através de gabinetes de saúde juvenil e canais de atendimento online, abordando áreas como saúde mental, bem-estar emocional e comportamentos aditivos. O objetivo passa por intervir precocemente, antes que hábitos prejudiciais se transformem em problemas mais graves. A iniciativa está aberta ao público em todas as regiões do país, e os jovens podem marcar a sua consulta quando sentirem a necessidade de o fazerem.
Fonte da imagem de capa: Imagem própria
Escrito por: Margarida Simões
Editado por: Íngride Pais


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