Há debates que parecem condenados a aparecer e desaparecer conforme a moda política do momento. A regionalização é um deles. Surge em ciclos, esvai-se durante anos e regressa quando convém. Curiosamente, nestas presidenciais, quase ninguém lhe toca.
E isso diz muito sobre a forma como tratamos problemas estruturais em Portugal: deixamo-los à porta das grandes campanhas, como se fossem demasiado incómodos para entrar.
No entanto, para quem vive longe dos grandes centros urbanos, a regionalização não é um exercício académico, é o reflexo diário de um país que nem sempre chega a todo o território da mesma forma. São serviços públicos que falham, decisões que chegam tarde, oportunidades que nunca aparecem.
- Quando o mapa político não bate certo com o mapa real
Fala-se muito em “aproximar o poder das pessoas”, mas pouco se explica como isso se concretiza. Criar regiões administrativas pode soar bem, mas será suficiente? Ou pior: será apenas mais um capítulo da nossa longa tradição de reformas feitas pela metade?
A verdade é que muitas propostas não passam de novas estruturas sobre problemas antigos. E reorganizar não é o mesmo que resolver. Quem está no terreno sabe que o que falta não é mais papelada, é mais autonomia, autonomia verdadeira, com responsabilidade e liberdade de decisão.
- Regionalizar para quê? E para quem?
Se a regionalização não trouxer capacidade real de decisão, liberdade de gestão e responsabilização pelos resultados, então acaba por ser uma mudança cosmética.
E isso não interessa a ninguém.
Também é legítimo perguntar: estamos a discutir a regionalização para melhorar efetivamente a vida das pessoas ou para cumprir agendas políticas? E porque é que este tema, que mexe diretamente com o equilíbrio territorial do país, está praticamente ausente das conversas presidenciais?
Talvez porque exige coragem política. Talvez porque obriga a assumir posições claras. Talvez porque mexe com sensibilidades antigas e com estruturas instaladas.
- O país real não pode esperar por ciclos eleitorais
Se as eleições presidenciais servem, entre outras coisas, para debater o rumo do país, então ignorar a regionalização é ignorar uma parte importante desse rumo.
Não se trata de defender ou de rejeitar o modelo, trata-se de reconhecer que esta é uma questão central para quem vive em territórios que se sentem esquecidos.
A pergunta essencial é simples: como garantimos que o Estado chega verdadeiramente às pessoas, independentemente do seu código postal?
E essa pergunta merece ser feita agora, não depois das eleições, não quando der jeito, não quando o tema volta a estar na moda. Agora.
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Fonte da Imagem de capa: CNN Portugal
Escrito por: Rafael Pereira
Editado por: Maria Francisca Salgueiro


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